VISITA AO ONTEM
A provocação foi feita por Luiz Octávio Cavalcanti. Disse o cronista que gostaria de ir a Palmares e me ter como guia. A viagem pode ser um excelente programa, já minha orientação é um equívoco. Não conheço mais as intimidades do velho burgo perdido entre canaviais. Como os homens as cidades mudam de cara e cabelo, ganham novas rugas, transformam-se. E há anos não piso o chão com pés de quem arrua, caminha sem compromisso maior senão o do viver. E com isso perdi muito de minha substância.
A Palmares que carrego tatuada na alma com certeza não está em outro lugar senão nesta tatuagem íntima. Foi sobre ela que escrevi em um texto já agora antigo.
Conto essa história.
Isso deu nos primórdios das Edições Bagaço. Precisávamos comprar uma máquina para os serviços gráficos e surgiu uma oportunidade. Era o ano de 1988 e Luiz Portela, prefeito de Palmares, precisava fazer uma revista com um balanço de sua gestão. Arnaldo me escalou para ir à cidade cuidar de tudo. Fui e pensei numa edição que desse espaço para a cultura local. E saí à cata desses textos.
A Luiz Berto pedi uma crônica e a dona Jessiva Sabino, bibliotecária e historiadora, um texto que contasse os rastros do passado. Berto se prestou ao serviço, dona Jessiva, delicadamente, não. Com o que restava de rebeldia juvenil, fui para casa remoendo a recusa. E me joguei no teclado da máquina de escrever para redigir Retalhos de Ontem – Roteiro Sentimental da Cidade dos Palmares, um texto escrito com amor e indignação, e que transcrevo.
O passeio começa pelo Alto do Inglês onde o casarão retorna a memória aos tempos em que iniciou a modernidade dos Palmares. Os ingleses transitaram com desenvoltura pelos salões hoje solitários e vazios. Dali maestros regiam a orquestra de cassacos e pioneiros ferroviários, concretizando o sonho do Imperador. Dali se enxergavam os trilhos, estranhas serpentes, serpentes dóceis, se derramando pelos verdes infindos de canaviais imensos.
Em outro alto, este lá por trás do mundo, do outro lado do rio, se vê a casa-grande do Engenho Paul. Seus arcos sustentando tantos sonhos, tantos amores, tantas mortes e vidas e esperanças e certezas; um coração pulsando eternamente, desafiante perene das lembranças dos homens. Sobre estes arcos foram plantados sólidos alicerces, os alicerces que estruturaram e definiram toda a vocação agrária desses campos. Dali a cana-de-açúcar cresceu para além de todos os horizontes, para além do alcance da vista. Ali está a certeza plena da temporalidade dos homens, da eternização dos seus sonhos.
Descendo uma ladeira de nada, seguindo o caminho dos trilhos seculares, dá para se achar a arquitetura modestamente bela da Estação Ferroviária. O certo é que todas as estações são iguais, mas em Palmares ela guarda a glória de ser marco do princípio de tudo. Por ela chegaram os pais de seus filhos, dos filhos que por ela ganharam o mundo e se foram decantar a terra em versos, prosas, discursos ou em sólidos concretos espalhados pela pátria afora, concretos que somente a bondade dos corações e a fortaleza dos braços podem construir.
Logo ali, no princípio da ladeira do Menino Jesus, a casa avarandada e amarela reina de forma recatada, deixando que as folhas e flores do seu jardim ofusquem sua bela solidão.
Beirando o rio, logo depois do Bairro Modelo, está o arruado da Usina 13 de Maio como a dizer que o tempo foi erguido pelo braço de humildes senhores, doces senhoras e magérrimas crianças que à noite, alquebrados do árduo cotidiano, botavam para fora de suas casas cadeiras e esperanças de dias melhores.
De passagem pela Rua Nova, encontram-se fachadas ternas e leves. Pequenos arcos, graciosos volteios, quebrando a dura retilinidade dos concretos.
Talvez seja na Praça Maurity e adjacências que encontramos o maior sítio histórico dos Palmares, um casario do tempo em que os senhores de engenhos faziam a vida desta terra. Ali está o Sobrado dos Griz, berço e lembrança viva da intelectualidade pulsante, irmão de outros casarões que ostentam suas fachadas para a eternidade. O Fórum Velho, o Clube Literário, hoje Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, a Casa dos Agrelli e mais uns tantos outros prédios que se espalham ao longo da Rua do Maurity denunciam a eternidade desta terra.
A Igreja Presbiteriana se ergue aos céus frente à Igreja Matriz, e se irmanam pela imponência, se respeitam de frente, como a dizer que Deus é único e supremo.
O Cine Theatro Apolo, hoje patrimônio da Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, abrigo indissolúvel de tantos e tantos espetáculos, por força da ação consciente dos homens, permanecerá para sempre como arrimo e colo de inúmeros sonhadores que se lançarão no mundo das artes.
Todavia, ali do lado, fronteiro à parede lateral direita da Igreja Matriz, o vazio, o ermo silencioso como a abrigar todas as solidões do mundo. Solidões que resvalam nas platibandas das casas comerciais que derrubaram paredes e fachadas, dando modernidade a tudo.
Mas Palmares sobrevive com seus retalhos de ontem, se modernizando, entrando de peito aberto no futuro, cultuando seus monumentos e símbolos.
Hoje leio o texto antigo com amor e indignação. Creio que esta cidade de que falo já não esteja viva, como esperava a crônica tão crente na eternidade. A ação dos homens e da natureza muito carregou em suas fúrias. Mesmo assim, amigo Octávio, guardo a breve certeza que a alma antiga, poética e feliz, ainda paira sobre as casas modernas e os resíduos da destruição, e assim sendo, vale a pena arruar por Palmares.