ZÉ PREÁ – GRAVATÁ-PE

Caro Papa Berto,

depois de algum tempo retornei a Gravatá e fiz uma tur nos locais onde passei boa parte da infância e adolescencia, de imediato baixou o Caboclo Punheiteiro e fiquei matutando umas ideias e logo saiu um conto – baseado em fatos quase reais.

Caso esta porcaria que lhe envio seja digna de ser publicada na sua fuleirage ficarei muito feliz.

Abraços, benção e boa leitura

R. Não só sua porcaria é digna como já está publicada logo abaixo.

E mande mais, seu cabra!!!

* * *
MATANDO CARMELITA

Passei grande parte da minha vida em Gravatá. Cidade bonita do interior, de clima agradável e povo hospitaleiro. Lá vivi toda a minha infância e adolescência. Mudei para Recife onde passei os últimos dezenove anos, mas sempre passava os finais de semana em Gravatá.

Quando criança, a turma da rua se reunia sempre em frente à minha casa para jogarmos a tradicional zorra. Na rua, de um lado havia uma carreira de casas, uma sapataria e uma padaria, onde roubávamos lenha o ano inteiro para depois fazer fogueira no São João. Do outro lado tinha um Mercado Público onde era comercializado feijão, farinha e milho.

Molecada reunida, quatro horas da tarde a zorra começa, quando de repente tenho a visão mais bela da minha vida. Era Carmelita. Morena canela, olhos agateados, cabelos longos, seios fartos, pernas torneadas… Fiquei ali estático, quase paralisado, admirando tamanha beleza. Carmelita vestia um vestido de chita florido, decotado e de tão curto deixava as suas cochas à mostra. E eu lá em transe imaginando de onde tinha saído tal beleza e ao mesmo tempo desejando aquela bela mulher. Até que fui acordado com um sonoro grito no pé-de-ouvido:

– Acorda, vamos jogar!

Quando terminou a zorra, fui tomar banho e matei Carmelita. Passei a noite toda pensando na sua beleza e de novo matei Carmelita. No outro dia, tudo se repete durante a zorra: no mesmo horário Carmelita passa carregando uma trouxa de roupa na cabeça, pois a sua mãe era lavadeira. E eu assistia a tudo quase em transe olhando e desejando aquela beleza e gravando em minha mente os mínimos detalhes de seu corpo, para depois da pelada matar Carmelita.

E a cena se repete por muito e muito tempo e todos os dias. Carmelita desfilava a sua beleza em nossa rua parando o nosso jogo e, percebendo o desejo que nos provocava, ela ficava cada vez mais depravada o seu olhar e o andar já eram de provocação. Não é necessário nem dizer que todos os moleques ficavam cheios de tesão, cobrindo o volume com a mão, já que o calção de elástico e a ausência de zorba nos deixavam em situação embaraçosa. Depois do nosso jogo o assunto só podia ser Carmelita.

– Ah, se ela fosse da nossa idade.

– Ela deve ter uns dezoito anos.

– Todos os dias em mato ela.

– E quem não mata?

– Vou pra casa tomar banho…

– Tomar banho é?

– Dizem que quem toca muita bronha nasce cabelo na mão

Todos olharam imediatamente para suas próprias mãos e defenderam-se:

– As minhas mãos não têm cabelo não! Pode olhar!

Carmelita tornou-se para mim uma obsessão, pois apesar de ter ficado adulto, casado e morando em Recife, ela continuava ainda em meus pensamentos e sempre a desejava. Quando reencontrava os amigos e nos lembrávamos dos tempos de moleque, o assunto sempre terminava em Carmelita.

– Acho que ela não mora mais aqui.

– Ah, como eu gostaria de vê-la!

– Que ver, que nada! Eu queria era fuder com ela!

– Eu ainda mato ela… não todos os dias, mas ainda mato.

Tive problemas com a saúde. O meu retorno a Gravatá foi inevitável. À minha espera tinha muita gente, familiares e muitos amigos, inclusive os amigos da tradicional zorra. Ao me deparar com tanta gente pensei comigo mesmo: “Será que vou rever Carmelita?” Passei a noite inteira em companhia de alguns amigos e escutei muita conversa de lembranças da época em que éramos moleques.

– E a construção da Ponte da Rua do Norte?

– A caçada da Fazenda Sampaio?

– E quando queimamos a instalação da rua com um chutão?

– Maribondo engolia uma corda arretada.

– Matamos Carmelita inúmeras vezes…

No outro dia me levaram a um lugar onde tinha muita gente reunida e todos estavam me olhando. Percebi que eu era o centro das atenções. Quando no final, para a minha surpresa, aparece um rosto que olha para mim e dá um sorriso malicioso e por ironia do destino, aquela que passei a vida inteira matando hoje me enterrava… Carmelita era a coveira!

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