AINDA PATATIVA DO ASSARÉ

Comentário sobre o artigo HOMENAGEM A PATATIVA DO ASSARÉ NO DIA DO SEU CENTENÁRIO DE NASCIMENTO
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Carlos Araújo

Este depoimento é meio longo, mas em se tratando de homenagear Patativa, acho que vale a pena.

Em fins de fevereiro de 89, tive a oportunidade de ir a Assaré. Patativa se preparava para as comemorações dos seus 80 anos.

Visitei a casa do poeta (a casa do sítio), em Serra de Santana, e fiz matéria para o Correio Braziliense. No Crato, a URCA (Universidade Regional do Cariri), organizou o seminário “Vida e Obra”, juntamente com a prefeitura de Assaré e a Secretaria de Cultura do Ceará. Nos meios culturais e na imprensa da região só se falava nos 80 anos do Patativa. Um cartaz divulgava o evento com a expressão “80 anos de luz”. Na entrevista gravada o poeta me contou várias histórias. Uma delas, aquela que algumas pessoas conhecem: a de sua prisão, pelo prefeito de Assaré, ocorrida havia alguns anos.

Ele morava no sítio e precisava resolver alguns questões relacionadas a documentos que dependiam da assinatura do prefeito, mas nunca o encontrava na prefeitura. Diz Patativa: “Fui várias vezes e sempre acontecendo a mesma coisa. Eu, morando a três léguas da cidade, já me achando aborrecido, glosei este mote, cujo tema me levou à cadeia”:

PREFEITURA SEM PREFEITO

Nesta vida atroz e dura
Tudo pode acontecer,
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura.
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito,
Porém eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
E um elefante dançando
No lombo de uma formiga
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu esse sujeito,
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz
E um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito,
Um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

****

Depois destes versos, Patativa contou que alguém de uma rádio local tomou conhecimento e eles foram colocados no ar. O prefeito ouviu e mandou prender o poeta. Mas por pouco tempo, pois houve pressão de pessoas que organizaram um movimento para soltá-lo. O poeta contou que, ao ser preso, viu numa parede da delegacia uma gaiola com um passarinho. Era uma patativa. Criada, certamente, por algum funcionário. E fez estes outros versos:

Patativa descontente,
Nessa gaiola cativa,
Embora bem diferente,
Eu também sou patativa.

Linda avezinha pequena,
Temos o mesmo desgosto,
Sofremos a mesma pena,
Embora em sentido oposto.

Meu sofrer e teu penar
Clamam a divina lei.
Tu, presa para cantar,
Eu, preso porque cantei.

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