CONVERSA DE DOMINGO

Esta história já foi publicada aqui.

Vou repeti-la hoje porque agora ela tem acréscimo: um vídeo do Youtube.

* * *

DE COMO ME TORNEI COMPOSITOR

O Trio Siridó é o conjunto de forró pé-de-serra mais antigo e mais conhecido de Brasília, com 30 anos de estrada no Planalto Central, animando e dando sustança à colônia nordestina que vive lá naquele recanto do Brasil, tendo a seu crédito uma respeitável quantidade de discos na praça.

Torres, fundador, vocalista e chefe do grupo, é meu amigo de velha data e estávamos sempre juntos participando de encontros, forrós, farras e freges, numa fraternidade que permanece até hoje, depois que me mudei pro Recife, apesar da distância.

Na década de 80 recebi a visita do meu amigo e conterrâneo palmarense Gilberto Melo, poeta de privilegiada inteligência e um dos textos mais seguros e gostosos de ler que já conheci.

Estávamos numa farra num final de semana, na granja de um amigo nos arredores de Brasília, animada pelos acordes do Trio Siridó. Torres trouxe para a festa uma respeitável matrona, muito distinta e elegante, que apreciava tudo com gosto. Na verdade, tratava-se de um enrabichamento que ele arranjara há pouco, apesar de bem casado e de ser excelente pai de família. À moda nordestina…

Informado por mim que Gilberto, além de grande poeta, improvisador e escritor, era também um excelente compositor, o Torres veio com a seguinte história:

– Doutor Gilberto, aquela senhora que está ali é uma pessoa a quem eu quero muito bem e tenho um caso com ela. Ela me ajuda muito nas horas de precisão, quando o trio não arranja serviço, e tem sido de grande serventia quando estamos na pior. Eu queria que o senhor fizesse uma letra em homenagem a ela. O nome dela é Socorro. Faça a letra que o Calango, sanfoneiro do grupo, bota a música.

No mesmo instante, o próprio Gilberto deu o mote:

“Na hora da precisão, Socorro me socorreu”.

E, no passo seguinte, pegou a caneta e compôs a letra, de improviso, ligeiro, como era de seu costume.

Passaram-se os anos e, um belo dia, aparece o Torres na minha casa, me perguntando como faria pra entrar em contato com “Dr. Gilberto”, pois o trio estava indo pra São Paulo, entrar em estúdio, gravar o próximo CD. E, nesse trabalho, estaria incluída a música que o Gilberto havia composto pra Socorro. Ele precisava dos dados do compositor pra fins de direitos autorais e outras burocracias legais. Trazia um formulário na mão, que deveria ser preenchido, e pedia pressa no contato, já que iriam viajar no dia seguinte.

Peguei o papel e, sem mais nem menos, ali mesmo na frente do artista, preenchi tudo com os meus próprios dados.

Torres ficou apreensivo e pálido:

– Minino, que é que Dr. Gilberto vai dizer disso???!!!!

– Deixe que com aquele cabra safado eu me entendo.

Resultado: acabei de receber o último CD do Trio Siridó, com a música “Anjo da Guarda“, onde apareço como parceiro do Calango e do Torres.

Me tornei compositor!

* * *

Escute no vídeo abaixo a gravação do Trio Siridó, na voz de Torres do Rojão.

A letra está transcrita logo a seguir.

ANJO DA GUARDA

Quando a vida foi madrasta
E me deixou na contramão
Procurava e não achava
Um amigo ou um irmão;
Quando quase fui ao fundo
Do poço da solidão,
Socorro surgiu sorrindo
E ela me estendeu a mão.

Meu anjo da guarda
Coração só meu
Na hora da precisão
Socorro me socorreu.

Foi um presente divino
Que a natureza me deu
Eu sou dela e ela é minha
Meu amor é todo seu
Quando quase fui ao fundo
Do poço da solidão
Socorro surgiu sorrindo
E ela me estendeu a mão.

Meu anjo da guarda
Coração só meu
Na hora da precisão
Socorro me socorreu.

PS: Essa, e mais outras, estarão no livro “Histórias Que Nós Gostamos de Contar”, que estou ultimando.

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