BISPO HARDY GUEDES – NATAL-RN

Caro Papa Berto,

Em virtude dos acontecimentos recentes, envolvendo as discussões acerca do aborto da menina de nove anos, grávida do padrasto que a estuprou, escrevi o texto abaixo.

Saudações

* * *

A EX-COMUNHÃO DE “DEUS”!

“E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida. E mais felizes que uns e outros o ABORTO que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol.” (Eclesiastes IV, 2-4)

Segundo a posição da igreja católica, através de um de seus porta-vozes, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, “Quem cometeu o aborto é um crime mais grave ainda, porque é tirar a vida de alguém inocente, indefeso.”

A CNBB emitiu nota dizendo: “Diante da complexidade do caso, lamentamos que não tenha sido enfrentado com a serenidade e o tempo necessário que a situação exigia. Além disso, não concordamos com o desfecho final de eliminar a vida de seres humanos indefesos”, diz a nota.

Penso que a igreja católica vai acabar falando sozinha, vez que adota posições absurdas, contrárias ao bom-senso, à lógica e à Ciência.

No caso da menina do interior de Pernambuco, estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos, posicionar-se contra o aborto é se arvorar no direito de decidir quem deve ou não deve morrer. E esse direito, igreja nenhuma tem. Porque a gravidez da menina era sabidamente de risco, ainda mais por se tratar de dois fetos que ela, sem o corpo devidamente amadurecido para isso, teria de alimentar até o parto. Sem contar que o próprio aborto, em tais condições de gravidez, se não induzido, poderia ocorrer naturalmente, a qualquer tempo, com riscos muito maiores.

E mesmo que a gravidez fosse levada a termo, que condições teria essa menina, que deveria estar brincando de bonecas, de criar duas crianças? Alguém pode imaginar crueldade maior? Ela, com seu corpinho frágil, mal nutrido, tendo de amamentar dois filhos ao mesmo tempo.

Sabemos todos que o bom desenvolvimento mental de uma criança começa no ventre de uma mãe bem alimentada, segura, tranquila, madura… Infelizmente, nem o governo, nem os religiosos garantem isso para todas. Muitas delas vivem à margem da sociedade, desemparada pelos homens e por “Deus”.

Quanto ao “desfecho final de eliminar a vida de seres humanos indefesos” é, no mínimo, curioso os religiosos, que baseiam a sua pregação na Bíblia, adotarem essa posição.

Senão, vejamos:

“Moisés cresceu. Um dia em que saíra por acaso para ir ter com os seus irmãos, foi testemunha de seus duros trabalhos, e viu um egípcio ferindo um hebreu dentre seus irmãos. Moisés, voltando-se para um e para outro lado, e vendo que não havia ali ninguém, matou o egípcio e ocultou-o na areia.” (ÊXODO II, 11-12)

Segundo, ainda a Bíblia, posteriomente, “Deus” fez aliança com Moisés. Gente, “Deus” fez aliança com um ASSASSINO!

E tem mais! Ordenou que esse ASSASSINO tirasse os hebreus do Egito, levasse-os para uma terra já ocupada por outros povos, dizendo-lhe:

“Porque meu anjo marchará adiante de ti e te conduzirá entre os amorreus, os hiteus, os ferezeus, os cananeus, os heveus e os jebuzeus, que exterminarei.” (Êxodo XXIII, 23)

Esse mesmo “DEUS DE BONDADE”, segundo consta na Bíblia, teria dito a Moisés, em Números XXXI, 1 em diante: “Vinga os filhos de Israel do mal que lhes fizeram os madianitas; depois disso será reunido aos teus.”

“Deus” ordenou a um assassino que praticasse um MASSACRE!

E Moisés não ficou só naquele egípcio, não! Na sequência da narração contida em Números XXXI, depois de atacarem os madianitas (que eram primos deles, descendentes de Madiã, filho de Abraão), quando viu que o seu exército havia feito um grande número de prisioneiros, diante dos chefes militares disse:

“O que é isso? Deixastes com vida a todas essas mulheres? Mas são justamente elas que, instigadas por Balaão, levaram os israelitas a serem infiéis ao Senhor na questão de Fogor, o qual foi também a causa do flagelo que feriu a assembléia do Senhor! Ide! Matai todos os filhos varões e todas as mulheres que tiverem tido comércio com um homem; mas deixai vivas todas as jovens que não o fizeram.”

E o substituto de Moisés, Josué, não fez por menos. Por onde passava, ia matando todos os demais povos que encontrava pela frente, como na seguinte passagem:

“Terminado o massacre dos habitantes de Hai (notem que eles mesmos falam em massacre), tanto no campo como no deserto, aonde tinham vindo em perseguição dos israelitas, depois que todos foram passados ao fio da espada, os vencedores voltaram à cidade e mataram toda a população. O total dos que morreram naquele dia, entre homens e mulheres, foi de doze mil, todos da cidade de Hai.” (Josué VIII, 24-25)

Ora, dirão, isso é do ANTIGO TESTAMENTO. Eram outros tempos. Além disso, como Moisés e Josué não eram católicos, não se pode ex-comungá-los.

Vamos, pois, ao ATO DOS APÓSTOLOS. Após a morte de Jesus, os seus discípulos formaram uma espécie de SOCIALISMO, conforme se depreende do texto:

“Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no AOS PÉS DOS APÓSTOLOS. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade.

Assim José (a quem os Apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer Filho da Consolação), levita, natural de Chipre, possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o valor dele e depositou aos pés dos Apóstolos.” (Ato dos Apóstolos IV, 32-37)

“Um certo homem chamado Ananias, de comum acordo com sua mulher Safira, vendeu um campo e, combinando com ela, reteve uma parte da quantia da venda. Levando apenas a outra parte, depositou-a aos pés dos Apóstolos. Pedro, porém, disse: “Ananias, por que tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisse ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendê-lo não podias dispor livremente dessa quantia? Por que imaginaste isto em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.” Ao ouvir essas palavras, Ananias caiu morto. Apoderou-se grande terror de todos os que o ouviram. Uns moços retiraram-no dali, levaram-no para fora e o enterraram.

Depois de umas três horas, entrou também sua mulher, nada sabendo do ocorrido. Pedro perguntou-lhe: “Dize-me, mulher, foi por tanto que vendestes o vosso campo?” Respondeu ela: “Sim, por esse preço.” Replicou Pedro: “Por que combinastes para pôr à prova o Espírito do Senhor? Estão ali, à porta, os pés daqueles que sepultaram teu marido. Hão de levar-te também a ti.” Imediatamente caiu aos seus pés e expirou. Entrando aqueles moços, acharam-na morta. Levaram-na para fora e a enterraram junto do seu marido. Sobreveio grande pavor a toda a comunidade e a todos os que ouviram falar deste acontecimento.” (Ato dos Apóstolos V, 1-11)

Nessa passagem, há detalhes interessantes para um bom observador:

1. A morte de Ananias pode ter sido presenciada pelos “moços”, uma vez que não há nada, na narrativa, que indique que ele e Pedro estivessem sozinhos;

2. Mas na morte da mulher, o texto revela que eles estavam sozinhos, uma vez que: “Estão ali, à porta, os pés daqueles que sepultaram teu marido.”, ou seja, a porta estava fechada e só dava para perceber a sombra dos pés dos “moços”. Estavam já esperando, por saberem o que aconteceria a ela? A confirmação de que estavam sozinhos está na continuação do texto: “Entrando aqueles moços, acharam-na morta.” Só entra, quem está fora!

Ora, Pedro tinha um caráter violento e andava armado de espada, conforme se lê na prisão de Jesus. Depois que Jesus se identificou com os guardas:

“Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco). Mas Jesus disse a Pedro: “Enfia a tua espada na bainha! Não eu hei de beber o cálice que o Pai me deu? (João XVIII, 10-11).

Quem garante que um homem violento, que andava armado, sem testemunhas, não poderia, propositalmente, matar a mulher de Ananias, por conta do dinheiro que o casal escondeu? Isso se não fez o mesmo com o marido dela! Ou, no mínimo, o próprio “Deus”, diante do “gravíssimo” pecado de terem ficado com o dinheiro que lhes pertencia, fruto da venda de uma de suas propriedades. MATARAM POR DINHEIRO !!!

Sendo assim, um dos dois tem de ser ex-comungado: ou Pedro ou “Deus”!

Por fim, devo dizer que sou um ser humano, indefeso diante de Deus e, de certa forma, inocente. Pelo menos, minha mãe pensa assim pois, ontem, ao me cumprimentar pelos 62 anos de idade, perguntou se eu já tinha criado juízo! No entanto, mais dia, menos dia, a minha vida será tirada por “Deus” por susto, bala, vício ou velhice (preferencialmente), sem qualquer negociação, sem chance de defesa, como já aconteceu com milhões e milhões de pessoas, desde que o mundo é mundo e vai acontecer com todos nós, sem choro nem vela.

Assim, sou obrigado a ex-comungar “Deus”!

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