UM TEXTO DE ARNALDO JABOR

NO BRASIL, O PERIGO ESTÁ NO “BEM”

Lá do fundo da Idade Média, onde ele mora, o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho excomungou uma família e os médicos que fizeram um aborto em uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos. E o estranho ser togado de arcebispo ainda boquejou: “A Lei de Deus está acima da Lei dos Homens.” Ou seja, a Santa Joana D´Arc foi queimada viva pela lei de Deus. A inquisição foi Lei de Deus, com as milhares de horrendas torturas feitas sob as bênçãos de um Deus cruel?

Espantosamente, o Vaticano, nos últimos dias, apoiou a decisão deste arcebispo medieval de Olinda e Recife. Isso me lembra outro prelado idiota que uma vez excomungou um juiz que autorizou o aborto de um feto descerebrado e falou sobre o estupro: “Os filhos de mulheres estupradas devem nascer e serem educados pela igreja, como órfãos infelicitados”. Talvez fosse essa a pior desgraça, o sinistro destino para uma criança: “Quem é você?” “Eu sou o filho do Moto-Boy assassino, educado pelo arcebispo José Cardoso Sobrinho”.

É espantoso o descompasso da Igreja Católica com os tempos atuais, justamente quando a História está de novo tão cruel, quando nós precisamos tanto de doçura, tolerância, que não é dada por este papa Bento 16, de olhos frios e inquisitoriais. Ele foi vacilante com o bispo maluco que negou o holocausto, como sendo um lero-lero de judeus, foi evasivo com os pedófilos religiosos da América, é contra os anticoncepcionais, contra os homossexuais, contra tudo. Daí o sucesso dos canalhas que inventaram os Bancos de Dízimos e os supermercados da Fé.

No mundo inteiro há uma reviravolta ética, um maniqueísmo ao avesso, um cinismo que nos habitua ao inaceitável. Bush, a besta quadrada do apocalipse, jogou o mundo no caos, em nome de Deus. Enquanto isso, em nosso mundinho brasileiro, na aliança do governo Lula com os mais nefastos canalhas, vemos uma inversão do mal em bem.

O bem do Brasil (leia-se Lula) tem de passar pela aliança com os escroques para atingir um bem futuro de uma sociedade mais justa (leia-se 2010). Aliou-se ao PMDB – o mal da hora –, na sua maioria filhos do pior patrimonialismo nordestino, essa pasta feita de bigodes, cabelos pintados, focinhos vorazes , gargalhadas boçais e salivantes, inimigos antigos se beijando. Pode até ser que isso possa ser um bem a longo prazo alertando-nos para o óbvio: é preciso reformar a política no País.

Como se sentem, diante desta aliança, os intelectuais que tanto apoiaram o PT, os bondosos de carteirinha, os cafetões da miséria, os santos oportunistas? Pela lógica “revolucionária” eles não justificavam todas as sacanagens pela utopia de um futuro, por uma pureza maior herdada do socialismo?

Na época da Guerra Fria era mole. Contra todas as evidências (Hungria em 56, Praga em 68) o mal era o capitalismo, e o bem o socialismo. Agora, com a crise, está de volta este simplismo criminoso. Aquele picareta exibicionista do Slavoj Zizek já está inventando um stalinismo renovado, como vereda para a verdade luminosa.

Tentamos inventar um mal separado do bem, mas está tudo misturado. E esta bolha maldita que enriqueceu o mundo em 10 anos e depois derrubou tudo? O bem financeiro virou o mal? Está difícil entender. Durante a ditadura, éramos o “bem”. O mal eram os milicos. Acabou a dita e as “vítimas” (dela) pilharam o Estado.

O bem está virando um luxo e o mal é quase uma necessidade social. Sem participar um pouco do mal, não conseguimos viver. Como ser feliz olhando as crianças famintas? Temos de fechar os olhos. A felicidade é uma virtude excludente. Ser feliz é não ver. O mal está virando um mecanismo de defesa. Quem é o mal: o assaltante faminto ou o assaltado rico? Ou nenhum dos dois? Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? O que é o bem hoje? É lamentar tristemente uma impotência, é um negror melancólico?

O mal é sempre o outro. Ninguém diz, de fronte alta: “Eu sou o mal!” Ou: “Muito prazer, Demônio de Almeida”.

Até o homem-bomba se acha o bem, pois sua missão é destruir a modernidade, e para a razão da tecnociência eles são o mal porque incompreensíveis. O mal no mundo hoje é o “incompreensível”. Nem um “bem” tradicional se sustenta mais, vejam o arcebispo excomungante e o papa burocrático.

Todo pensamento aspira à totalidade. O bem é um desejo de harmonia, de Uno, de totalidade ou o bem é suportar heroicamente o incontrolável, a falta de esperança, a impotência ‘democrática’?

Hoje, com a queda das utopias, a razão tenta se adaptar ao absurdo pós-moderno. Mas, ao denunciar o mal, vivemos dele. Eu mesmo ganho a vida denunciando o que acho “mal”. Quem controla o mal? A verdade é que o mal está entranhado na matéria profunda do mundo. A verdade é que fomos construídos nessa dialética louca entre tragédia e harmonia, entre guerra e paz e isso é incontrolável.

Muitas vezes na história o “bem” foi devastador. Nietzsche escreveu em sua obsessão de libertar o homem: “Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos.” (in Gaia Ciência).

No Brasil, o mal não é épico, como falou Nietzsche, referindo-se, claro, a solidez estúpida da metafísica e da religião. No Brasil, o que nos assola é o pequeno mal, enquistado nos estamentos, nos aparelhos sutis do estado, nos seculares dogmas jurídicos, nos crimes que são lei. O mal aqui está nos pequenos psicopatas que, quietinhos, nos roem a vida.

O mal do Brasil não esta na infinita crueldade dos torturadores ou das elites sangrentas, está mais na sua cordialidade. Aqui, o perigo é o bem.


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