IMPROVISOS SELECIONADOS E UMA CANTORIA DE MOACIR LAURENTINO COM SEBASTIÃO DA SILVA

Moisés de Brito

Admiro o pica-pau.
Na galhada do angico,
passa o dia trabalhando:
Taco-taco, tico-tico.
Não sente dor de cabeça,
nem quebra a ponta do bico.

* * *

Zé Vicente da Paraiba

O reflexo de estrelas luminosas
São lanternas de Deus no firmamento
Fica muito suave a voz do vento
Evitando qualquer destruição
Os rebanhos deitados pelo chão
E cada pássaro no galho se aquieta
Enriquece o juizo do poeta
O cair de uma noite no sertão.

* * *

Geraldo Lyra

O poeta nasce feito
como nasce o trovador,
que vive a cantar o amor
com a viola no peito,
embora pelo respeito
de ver algum cantador
a confundir o seu som
com tudo que tem de bom
nesse mundo da harmonia,
que ele transforma em poesia
para aumentar-lhe o conceito.

* * *

Antônio Pereira de Moraes

Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai.

Saudade tem cinco fios
Puxados à eletricidade,
Um na alma, outro no peito,
Um amor, outro amizade,
O derradeiro, a lembrança
Dos dias da mocidade.

Saudade é como a resina,
No amor de quem padece,
O pau que resina muito
Quando não morre adoece.
É como quem tem saudade
Não morre, mas adoece.

Adão me deu dez saudades
Eu lhe disse: muito bem!
Dê nove, fique com uma
Que todas não lhe convêm.
Mas eu caí na besteira,
Não reparti com ninguém.

* * *

José Alves Sobrinho

Provo que eu sou navegador romântico
Deixando o sertão para ir ao mirífico
Mar que tanto adoro e que é o Pacífico
Entrando depois pelas águas do Atlântico
E nesse passeio de rumo oceânico
Eu quero nos mares viver e sonhar
Bonitas sereias desejo pescar
Trazê-las na mão pra Raimundo Rolim
Pra mim e pra ele, pra ele e pra mim
Cantando galope na beira do mar.

* * *

Firmo Batista

O cansaço me bota pra dormir!
nem dormindo consigo te esquecer.
Porque sonho, e sonhando posso ouvir,
tua brisa soprar pra me aquecer.
A saudade me mata sem sentir
e eu sentindo, morrendo sem querer.

* * *

Cantoria de Moacir Laurentino com Sebastião da Silva

Moacir Laurentino

Eu gosto tanto do xote
e da poesia divina,
quando eu começo a cantar
sinto que a voz se afina,
penso que nunca adoeço
que a vida nunca termina.

Sebastião da Silva

Cantar é minha doutrina,
foi a opção que fiz,
pra defender a cultura,
e para cantar meu País,
cantar pra viver alegre,
sonhar pra viver feliz.

Moacir Laurentino

Alcancei o que mais quis
e arranjei conhecimento,
afinando as 7 cordas
tocando o meu instrumento,
eu sinto a marca divina
ligada em meu pensamento.

Sebastião da Silva

Já passei por sofrimento,
por tristeza e ameaça,
pelas queixas e as dores
e herança da nossa raça;
porém cantando repente,
todo sofrimento passa.

Moacir Laurentino

Comecei cantar pra raça,
numa fase adolescente,
vai fazer 40 anos,
que eu vivo só do repente,
ainda quero cantar mais
uns 10 ou 15 pra frente.

Sebastião da Silva

Venho desde inocente
nesse grande labirinto,
passei por muitas torturas,
passei momentos faminto,
porém cantando no pinho,
esqueço as dores que sinto.

Moacir Laurentino

Vivo do jeito de Pinto,
de improviso e boemia,
criei até 4 filhos
à custa de poesia
terminei de criar todos
e hoje é Deus quem me cria.

Sebastião da Silva

Sigo nesta rodovia,
de subida e de descida,
trilhando neste caminho,
de viagem indefinida
e fazendo dos meus repentes
o pão gostoso da vida.

Moacir Laurentino

Minha alma adormecida
desperta o sol, extrapola,
o grito salta do goela,
ouvindo o som da viola
e pra filho de gente pobre
nunca vi melhor escola.

Sebastião da Silva

Vivo do som da viola,
do repente à cantoria,
eu acho que Deus me deu
a arte que eu merecia,
fez muito bem me dar isto,
que outra coisa eu não queria.

Moacir Laurentino

Pedi a Virgem Maria,
que me desse solidez,
busquei no dicionário
a certeza, o português,
é Deus passando pra mim
e eu passando pra vocês.

Sebastião da Silva

O divino Rei dos Reis
me fez poeta disposto,
para cantar minha queixa,
minha dor e meu desgosto,
e é só cantando repente
que a vida tem melhor gosto.

Moacir Laurentino

A arte eu faço com gosto,
porque da arte preciso,
utilizo a engrenagem
da mecânica do juízo,
e minha boca é ambulante
distribuindo improviso.

Sebastião da Silva

Vivo do meu improviso,
vou viver até o fim,
foi assim que eu nasci,
quero sempre ser assim,
acordando o repentista
que dorme dentro de mim.

Moacir Laurentino

Eu não sei quando é meu fim,
só tem Jesus que indica,
enquanto eu souber cantar,
minha idéia multiplica
quando eu partir qualquer hora,
minha poesia fica.

Sebastião da Silva

Quero minha idéia rica,
como tive no troféu,
como esse solo que piso,
com a roupa e o chapéu,
e dos versos faço uma escada,
pra ir direto pra o céu.

Moacir Laurentino

Já ganhei mais de um troféu,
do jeito de Zé Sobrinho,
de Pinto e de Lourival,
Otacílio e Canhotinho,
que eu quero é viver cantando
do jeito de passarinho.

Sebastião da Silva

Eu venho desde novinho,
nessa minha profissão,
depois que eu envelhecer,
que eu me tornar ancião,
ao invés de uma bengala,
quero a viola na mão.

Moacir Laurentino

Para mim não tem seqüela,
queixa, nem dor de saudade,
vou aqui rompendo o mundo,
do jeito da tempestade,
nem me curvo nem ao peso
da carga da minha idade.

Sebastião da Silva

Quando a vida tiver ruim,
cheia de trôpego, desgraça,
me arranje uma viola,
meio litro de cachaça,
e uma banda de limão,
que eu bebo e a raiva passa.

Moacir Laurentino

Viver cantando o sertão,
e belezas que ele tem,
o canto da sabiá
e algum ninho do vem-vem,
viver com simplicidade,
sem ter raiva de ninguém.

Sebastião da Silva

Até hoje eu vivo bem,
pelo dom que eu ganhei,
pelas cantigas que fiz,
os caminhos que trilhei,
os versos improvisados,
e amigos que arranjei.

Moacir Laurentino

Os troféus que eu ganhei,
por que tenho preferência,
as expressões que já disse,
à luz da inteligência,
posso partir qualquer hora
e deixo em minha residência.

Sebastião da Silva

Agradeço à Providência,
por cada troféu e taça,
por ser artista do povo,
por ser boêmio na praça,
obrigado Deus e povo,
que me ouve e me abraça.

Moacir Laurentino

Sou da cana, sou da taça,
sou do boteco e do bar,
sou da igreja e da praia,
do salão do lupanar,
que eu sou de qualquer recanto,
que a platéia desejar.

Sebastião da Silva

Eu vou pra qualquer lugar,
cantar para fazer show,
distribuir alegria,
sem ter alegria, eu dou,
sou como o nome de Deus,
em todo canto eu estou.

Moacir Laurentino

Meu repente adocicou,
como garapa de engenho,
o meu verso leva doce,
no mais alto desempenho,
nunca dei o que comprei,
porém dou do dom que tenho.

Sebastião da Silva

Cinquenta e nove já tenho,
de anos ou de idade,
44 de arte,
com muita simplicidade,
a vida cheia de paz,
e a alma, de liberdade.

Moacir Laurentino

Viver com intensidade,
nessa minha trajetória,
não ter a alma pesada,
sacrifício e palmatória,
e quando eu canto deixo um livro,
para contar minha história.

Sebastião da Silva

Sigo a minha trajetória,
trilhando equilibrado,
carrego há 44
anos, um fardo pesado,
mas nem reclamo do peso,
e nem digo que estou cansado.

Moacir Laurentino

No campo, não fiz chouriço,
que essa luta eu não entendo,
no trabalho eu já rendi,
no repente ainda rendo,
pois Deus me deu esse dom,
e eu vivo lhe agradecendo.

Sebastião da Silva

Por isso eu estou querendo,
saudar a quem está presente,
e agradecer ao povo,
que veio ao nosso ambiente,
assistir à cantoria,
e bater palmas para a gente.

Moacir Laurentino

Essa platéia decente,
conhece a minha odisséia,
o som da minha viola,
que eu conheço essa platéia,
o rapaz calibra o som
e eu calibro a minha idéia.

Sebastião da Silva

Muito obrigado à platéia,
que veio pra cantoria,
e agradeço muito mais
a cada um que aprecia,
porque se não fosse povo,
nada o poeta seria.

Moacir Laurentino

Tiago aqui está presente
hoje aqui na nossa sede,
é primo de Fenelon,
e é da seca São Mamede,
onde o povo pede chuva,
e DEUS não atende a quem pede.

Sebastião da Silva

Na arte sou orgulhoso,
graça ao Pai Jeová,
carregando a profissão,
cantando igual sabiá,
infeliz quem não agüenta
a marca que Deus lhe dá.

Moacir Laurentino

Outro grande amigo meu,
que eu visito todo ano,
esse já morou no Rio,
é o nosso Cipriano
eu moro em cima da serra,
e ele perto do oceano.

Sebastião da Silva

Já trabalhei no sertão,
fiz o maior rebuliço,
já cultivei, já colhi,
já tirei mel de cortiço,
e por ser um sertanejo,
gosto sim de fazer isso.

Moacir Laurentino

Outro amigo especial,
que se sentado não sai,
é o nosso João Feitosa,
que é talentoso e não cai,
aprecia a poesia,
do mesmo jeito do pai.

Sebastião da Silva

Zé Dantas é nosso irmão,
grande nome cultural,
uma criatura boa,
que está neste local,
e ainda carrega o cheiro
da Maringá do Pombal.

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