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1
Só se luta nesta vida
Depois os filhos crescem
O que nos espera é a morte
As vistas escurecem
Fica dois velhos em casa
Pouco a pouco emudecem

2
E ninguém fala mais nada
Jogados lá num sofá
Vai tudo se acomodando
Esperando a morte chegar
Nem sabe se tá perto
Já começa a esperar

3
Numa situação assim
Carminha contou que vivia
Trancada com seu marido
Que só Deus acudia
Pois até pra ir ao banco
Era alguém pra ela ia

4
Nem comida mais fazia
O fogão era brilhando
Os dois assim arreados
Iam se mumificando
Às vezes um marmitex
E que estava lhes salvando

5
A velha disse que um dia
Num surto de impaciência
Olhou pro velho e pensou
Pra que na vida decência
Temos dinheiro pra nada
Estou perdendo a paciência

6
Se esse troço velho
Se for do mundo primeiro
Juro que eu corro no banco
E rapo todo o dinheiro
Vou viver o que me resta
Conhecer o mundo inteiro

7
Só vou deixar reservado
O dinheiro do caixão
Deus me livre de mais velho
Só vou querer garotão
Pra torrar todo dinheiro
E viver com emoção

8
Parece que foi macumba
O velho logo sucumbiu
Nem sentava mais no sofá
Por causa do estado febril
Não passou uma semana
Queimou o resto do pavio

9
Quarenta e cinco anos
Durou esse casamento
Mas temos que admitir
Aquilo já era tormento
E esse povo vivia junto
Por causa dum juramento

10
Enterraram logo velho
Ela voltou pra sua morada
Por dentro estava contente
Iria dormir sossegada
Os filhos iam lhe acompanhar
Mais ela disse que nada

11
Vocês fiquem sossegados
Se é por causa de fantasma
Ele já ficou enterrado
Acabou-se crise de asma
Me acordando de madrugada
Pra ir atrás de cataplasma

12
Os filhos se entre olharam
Não entenderam nada não
Disseram ela melhora
Passou por muita pressão
Mais eles se enganaram
A velha não mudou não

13
No outro dia amanheceu
Bem disposta e descansada
Separou todo dinheiro
E saiu no mundo largada
Nem deixou o do caixão
Ela saiu foi disparada

14
E logo no primeiro dia
Deu um desejo realizou
Foi no cinema ver Zorro
A velhinha se empolgou
Passou numa loja chique
E roupa nova ela comprou

15
Botou batom vermelho
Parecia bem mais nova
Hospedou-se num hotel
Toda linda e cheirosa
De noite pediu champanhe
Estava mesmo gloriosa

16
A gastança começou
Era rica de montão
Gorjeta sempre incluída
A coroa fazia questão
O tratamento de rainha
Lhe dava satisfação

17
Vamos deixá-la relaxando
Na sua cama acolchoada
Planejando suas aventuras
E ver como estão os filhos
Pois eles não tinham pista
Onde enfiou-se esta danada

18
Estava todo muito doido
Até na polícia tinham ido
Já fazia alguns dias
Que a velha tinha partido
E a preocupação maior era
Que a grana tinha sumido

19
Carminha tinha retrato
Em tudo quanto é jornal
E seu rostinho estampado
Causou comoção geral
Agora ela era importante
Por causa do capital

20
Achem nossa mãe querida
Daremos gratificação
Tem que tomar remédio
Sofre muito da pressão
Seus filhos estão tristes
Passando por aflição

21
No anuncio a foto de dela
Com uma carinha de vovó
Colada no ponto de ônibus
O povo lia e tinha dó
Mais ninguém dava noticia
A velhinha virou pó

22
Mas era pó de maquiagem
Estava muito mudada
Não vestia mais vestidão
Agora era legge colada
Um dia ela viu sua foto
E deu muita gargalhada

23
Quem lhe reconheceria
Ainda mais com Samuel
Um garçom simpático
Que ela conheceu no hotel
Só viviam de mãos dadas
A coroa estava no céu

24
Um dia no ponto de ônibus
Samuel olhou pra tal foto
E disse para Carminha
Que velha tão amarela
Carminha disse é mesmo
Eu estou até com pena dela

25
O garçom nem desconfiou
Nada daquela gracinha
Estava mesmo mudada
A danada da Carminha
O que o dinheiro não faz
Ela virou uma cocotinha

26
Mais ela podia ser pega
Facilitar não convinha
Ela disse pra Samuel
Que tal Porto de Galinha
Ele disse boa idéia
E rodopiou a velhinha

27
Da Bahia a Porto de Galinha
É chão que nem o cão
Foram de São Geraldo
Ela não entrava em avião
Dois dias sentados num banco
Deu pra falar um montão

28
Falou das doenças do velho
E o pijama azul desbotado
Da barba de presidiário
E o olhão arregalado
Dos gritos que ele dava
Acordando apavorado

29
Falou também dos filhos
Casal de praga que tinha
Eles nunca visitavam
A pobre vivia sozinha
Falando com as paredes
O velho só tosse tinha

30
Aí o rapaz lhe abraçou
Deu lhe um beijo apaixonado
Prometeu ficar com ela
Nunca sair do seu lado
Pois até lhe conhecer
Também vivia aperreado

31
Ficou sem mãe muito cedo
E nos vinte um ano de idade
O seu pobre coração
Era morada da saudade
Sofria muito nesse mundo
Passando dificuldade

32
Carminha quase chorando
Disse muito emocionada
Que não lhe daria filho
Por estar muito passada
E Samuel só lhe disse
Cuide de mim e mais nada

33
Chegaram em Pernambuco
Compraram um bangalô
Era bem perto do mar
Um belo ninho de amor
Carminha se bronzeava
E no cabelo botava flor

34
Samuel lhe sussurrava
Belas frases de amor
Ninguém falava em idade
Pois era grande o furor
Carminha se estremecia
Com um fogo abrasador

35
Mas depois de algum tempo
E ajuda de uns detetives
Acharam o lar deles dois
Aqueles filhos horríveis
Vinham atrás do dinheiro
Eles eram mesmo incríveis

36
Samuel foi recebê-los
Com uma aliança no dedo
E disse pros filhos dela
Casei com ela em segredo
Carminha agora está salva
E nunca mais terá medo

37
Vocês não lhe valorizavam
Por mim será bem tratada
Já aplicamos o dinheiro
Ela está bem remoçada
Agora querem sua mãe
Ninguém vai levar nada

38
O filho de Carminha
Investiu contra Samuel
Foi lhe dando logo uns socos
O desfecho foi cruel
Carminha entrou no meio
Branca que nem papel

39
Tremia que nem vara verde
Gritou por Nossa Senhora
Vão matar Samuel
Salvá-me dessa hora
Ele me trouxe a felicidade
O quê que eu faça agora

40
Ela pegou o telefone
E chamou 190
A polícia encostou
O caso pareceu serio
Pois chegaram dando tiro
Sem ter nenhum critério

41
A Polícia pernambucana
A Carminha assustou
Foram tão exagerados
Que a coitada enfartou
Um soldado gritou pro outro
Pedindo um desfibrilador

42
E o povo foi se afastando
Pra Carminha respirar
Daí contaram até três
E foram lhe desfibrilar
Carminha levou um sopapo
Começou logo a falar

43
Queria saber de Samuel
Tudo estava a desabar
Achava que ele morreu
Mas a filha veio acalmar
Disse mãe ele levou um tiro
Só vai ter que internar

44
A velha perguntou
E o teu irmão como tá
A filha disse pra velha
Ele não pôde escapar
Está crivado de balas
Foi à polícia enfrentar

45
Carminha teve outra crise
Ela começou a delirar
Dizia que coisas terríveis
A gente podia conversar
Por que nos descobriam
Só veio confusão pra cá

46
O filho morto no chão
Samuel na espinha baleado
Ela estava quase morta
Lhe amparava um soldado
E a causa de tudo isso
Um povo descontrolado

47
Continuava delirando
Primeiro a gente raciocina
Não vai inchado como um sapo
E pulando logo pra cima
Se se pensasse assim
Nunca ia ter chacina

48
Um médico apareceu
Carminha parou de delirar
Pois ele deu-lhe calmante
Pra ela parar de falar
Botou Samuel numa maca
E foi todo se internar

49
A filha queria ir junto
Mas Carminha e Samuel
A velha disse Deus me livre
Saia daqui “go to hell”
Estou livre de vocês
E levantou as mãos pro céu

50
A ambulância deu partida
Com destino ao hospital
Uma enfermeira acompanhou
Pra tranqüilizar o casal
Samuel abraça Carminha
E diz agora é mesmo tchau

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