UM TEXTO DE SEBASTIÃO NERY

O TESTEMUNHO DE UM BISPO

É um nome da quase infancia. Da juventude. Quando se falou nele, nossos corações de seminaristas de Filosofia e Teologia do Seminário Central da Bahia aceleraram. Ele chegava como Visitador Apostólico dos Seminários Maiores do Brasil, naquele fim da década de 40, começo de 50.

Dom Clemente Isnard, da Ordem de São Bento e bispo de Friburgo, no Rio, chegou em silencio e silenciosamente foi embora. Chamou o reitor, diretores, professores, alunos, para minuciosas conversas sob compromisso de sigilo. Lembro-me bem do tipo dele, cara de monge que de fato era, rosto de asceta que também era, como um desenho saído de livros sacros.

Nunca ninguem soube o que ele perguntou ou falou a alguém. Era um olho santo da Igreja, do Vaticano, do Papa, sobre os seminários do pais.

Ele foi embora e houve mudanças no seminário, algumas profundas.

DOM ISNARD

Depois, tive noticias dele como membro do Conselho para Execução da Constituição de Liturgia nomeado em 1964 pelo Papa Paulo VI. Durante 20 anos presidente da Comissão de Liturgia da CNBB (Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil). Membro do Concilio Ecumenico Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, que deu uma sacudida na Igreja.

Agora, neste fim de semana, revejo-o aos 90 anos, lúcido, avançado, parecido com o saudoso mestre Alceu Amoroso Lima, numa longa entrevista concedida no Mosteiro de São Bento do Rio ao jovem e talentoso jornalista baiano, Claudio Leal, para o portal da Internet “Terra Magazine”.

Dom Isnard acaba de lançar um pequeno livro silencioso e profundo como ele e que está provocando um discreto e fundo tremor na Igreja :

– “Reflexões de um Bispo” (Editora Olho Dágua, SP, 11-36739633).

O LIVRO

Num sermão em Olinda, no Mosteiro de São Bento de lá, ao completar 90 anos, o bispo criticou a existencia do Nuncio Apostólico, embaixador do Papa junto ao governo de um pais e propôs “acabar com os onerosos cargos diplomáticos”. E defendeu “a descentralização da Cúria Romana e a idéia de Dom Aluisio Lorscheider (1924-2997) de o Papa passar a ser escolhido não mais pelo Colegio de 120 Cardeais mas pelos presidentes das Conferencias de Bispos de cada pais”.

– “O cardeal daqui do Rio me escreveu uma carta e fez todos os bispos do Estado, Leste I, assinarem a carta, pedindo para eu não publicar. E eu respondi uma pagina e meia a cada um. A mesma carta, mas tive que multiplicar 14 vezes. Até mandei para os bispos auxiliares, porque eles tinham assinado tambem”.

COMBLIN

– “Antes, eu tinha ouvido do Abade :

– “Eu não li o livro. Mas ele vai lhe trazer muito sofrimento. E vai trazer respingos para mim e para o mosteiro”.

“Por isso o livro não se vende aqui no Rio. Nem no Mosteiro. O Mosteiro tem uma livraria, mas não se acha. Depois eu pensei, pensei:

– Não. Eu publico. Eu devo um testemunho. Como diz o Padre Comblin (grande teólogo da Igreja), os velhos dizem as coisas. Eu criei para mim uma consciência nova, de que na Igreja eu devo dar um testemunho, mesmo que esse testemunho”…

O NUNCIO

As “teses renovadoras” de dom Clemente Isnard “podem ser condensadas em quatro pontos : celibato opcional para os padres, ordenação de mulheres, participação popular nas nomeações dos bispos e o fim do Colégio Cardinalício”.

– “O Nuncio Apostólico influiu para que a editora “Paulus” não editasse o livro. Ele esteve comigo aqui no Mosteiro, apertou minha mão, não falou nada. Nem eu falei nada. Teria que falar para ele : – “Senhor Núncio, com que direito o senhor proibiu os padres paulinos de editarem o meu livro?”Eu tinha direito de perguntar isso a ele.Mas seria um desaforo”.

O ALGOZ

– “Nós temos na Igreja um grupo retrógrado grande…A propria CNBB passou por alguns retrocessos, quando teve como presidente o cardeal Dom Lucas Moreira Neves… Os paulinos pediram para eu tirar um nome. Eu tirei o nome. O algoz é um arcebispo, que já agora é também emérito. Um padre pediu audiência e ele respondeu por escrito e assinou:

– “Seu pedido de audiencia me deixa enojado. Fale com a secretária”.

O EXCOMUNGADOR

1 – “O arcebispo de Olinda e Recife (Dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou o ministro da Saude, José Temporão, um pedaço de Pernambuco e, se puder, excomunga o resto do Estado e o pais todo) é uma pessoa com quem eu tinha me dado e me tinha até convidado a ordenar o bispo auxiliar dele. Mas depois cometeu injustiças clamorosas com um padre amigo meu, que tinha sido cedido por Dom Helder,predecessor dele”.

2 – “Esse padre me ajudou por dez anos em Friburgo. Pois passou fome por causa desse arcebispo. Eu não disse nada a ele, porque o padre não queria. Ele sabia e comecei a falar que isso não se faz com um padre”.

3 – “Quando o arcebispo de Recife não deu nada ao padre meu amigo, ele pediu para passar dois anos na Europa fazendo uma reciclagem. Isso ele deu. A licença. Quando ele voltou, pontualmente, no dia exato, compareceu na Cúria para pedir obediência. O arcebispo lhe disse :

– “Não tenho nada para você. Não tenho paróquia nenhuma”.

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