14 março 2009MARCOS VALÉRIO



Marcos Valério se diz abandonado e perseguido – “Eu vi a morte cara a cara na prisão. Sou o único preso político deste país”

De fato, mais magro e mais arredio, mas sem proteção especial ou segurança, pelo menos ostensiva, o empresário Marcos Valério já não teme a morte, depois de vê-la passar quatro vezes pela cela especial em que estava preso como “ad” – à disposição – na Penitenciária de Tremembé, em São Paulo.

Embora circulando de forma discreta, mas normalmente, por Belo Horizonte, a bordo de um carro nacional preto, um Vectra, de vidros escuros, Marcos Valério treme quando lembra os 98 dias em que ficou na cela 101 do presídio paulista e é capaz de dizer para si mesmo : – não tenho mais medo da morte. O que não o impede de recorrer regularmente a uma psiquiatra, a dra. Adriana Vieira, em Belo Horizonte, onde busca apoio para superar o inferno que viveu no presídio, a tensão dos dias atuais e a tentativa de superar traumas que o impedem de retomar uma vida normal, até mesmo em casa.

Marcos Valério já não tem o sorriso fácil da época em que frequentava quase diariamente um restaurante de comida italiana na Rua Sergipe, no coração da Savassi (Zona Sul de BH). Nem poderia. Seus dentes da frente foram quebrados durante uma das surras que tomou de presidiários do Tremembé, recuperados – os dentes – por próteses provisórias que não o livrarão, contudo, de um implante ósseo para recomposição de parte do alvéolo superior.

Nem poderá eventualmente tirar a camisa em público. Se fizer isso, exibirá dois cortes à altura das costelas, por onde lhe enfiaram dois estiletes e um afundamento perto da coluna, produto do espancamento com um pedaço de cano. Quando lembra de tudo isso, Marcos Valério chora.

O empresário foi preso, com dois advogados, também mineiros, em outubro do ano passado sob a acusação da Polícia Federal de integrar uma quadrilha que praticava extorsão, fraudes fiscais e corrupção em São Paulo. Conhecido nacionalmente depois de acusado de operar o mensalão, um até agora mal explicado sistema de arrecadação de dinheiro para financiar as bases de apoio do Governo federal, Marcos Valério confirmou a pelo menos um dos que estiveram com ele na prisão que foi espancado, pelo menos, quatro vezes por presidiários de Tremembé, razão das marcas no corpo, mas nega que as agressões tenham sido praticadas por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), organização a que recorreu, admite reservadamente, mas para evitar ser morto no presídio – estranho presídio, cuja cela em que ficou o empresário foi aberta quatro vezes, pelos detentos para agredi-lo em busca de informações sobre o paradeiro de uma misteriosa gravação de um DVD, supostamente contendo revelações capazes de derrubar a República.

A um dos que, com ele, foram presos, o empresário narrou detalhes das agressões. Ele e mais quatro acusados no processo número 2008.61.81.014611-3, da 6ª Vara da Subseção Judiciária de Santos (SP), ficaram juntos na cela 101 do presídio. Os quatro saíam de manhã para trabalhar. Marcos Valério, incluso, ficava “ad”, isto é, à disposição. Quando ficava só, Marcos Valério tinha a sua cela aberta por quatro outros presos que o espancaram no primeiro, no terceiro, no quinto e no sétimo dos dez dias em que ficou nesse regime especial de reclusão.

Sem falar com jornalistas, dos quais literalmente corre por não acreditar no que a maioria escreve a seu respeito ou sobre o mensalão, Marcos Valério, na intimidade e sob o manto do pavor que o acomete de vez em quando, para não dizer sempre, se pergunta por que presos comuns o espancavam atrás desse DVD que nem a Polícia Federal encontrou quando esteve na sua casa, em Belo Horizonte.

Presos comuns atrás de uma cópia de DVD? Pergunta Marcos Valério em seus quase delírios. Eu não tenho DVD algum, muito menos essa cópia com onze horas de gravação, responde para si mesmo, enquanto passa a mão direita nas cicatrizes que lhe ornamentam as costas, razão de ficar 98 dias preso, dez deles nessa espécie de cela especial, em tudo parecida com uma solitária, não fosse o fato de, por quatro vezes, ter tido a visita dos presos que lhe espancavam até deixá-lo sem condições de levantar-se do chão, e era socorrido pelos colegas de infortúnio quando voltavam ao presídio.

Sem atendimento médico, o máximo que conseguia era que um deles limpasse os ferimentos, como aliás, atesta um laudo pericial. Por uma cópia de DVD? Delira…sem esquecer que, de fato, esteve com o advogado Jeronymo Ruiz Andrade, tido como defensor dos presos do PCC em São Paulo, para garantir que pagaria o combinado pela proteção na cadeia tão logo deixasse a prisão, com vida, entenda-se.

Consta que pagou. E a quem interessaria essa cópia de DVD? Ao Governo? À oposição? A muitos, certamente, se é que existe, coisa que ele não confirma nem para os companheiros de prisão.

O empresário não nega, na intimidade, que muito dinheiro passou pela sua mão no período do mensalão. Isso já falou para amigos, faz tempo. As cifras são incertas. Mas não menos de R$ 300 milhões, ainda que de sua responsabilidade direta cerca de R$ 55 milhões. Insistindo desde sempre, porém, que não usou dinheiro público nem ficou com mais do que lhe permitiam os contratos das agências de publicidade que possuía.

O grosso do dinheiro era proveniente de empréstimos que tomava nos bancos e repassava para o PT, coisa que ele sustentou na CPI do Men-salão e nos depoimentos à Polícia Federal. Mas não perguntem a Marcos Valério sobre esses assuntos, hoje, que ele não fala, a não ser para repetir o de sempre, a versão na qual o país não acredita – ou alguém ainda duvida que Marcos Valério operou o maior esquema de corrupção política do país, conforme a versão, essa sim, oficial? Quem, a propósito, daria crédito a alguém que tem na testa o carimbo do mensalão, impresso pelo ex-deputado Roberto Jefferson ao dizer, diante de um país boquiaberto, em 2005, que “era um publicitário, carequinha, de Minas, que comandava o esquema?”.

Com efeito, na época, Marcos Valério tinha a cabeça raspada a máquina zero, o que lhe conferia uma estampa singular, inigualável, pode-se dizer. Com o escândalo, fez implante de cabelos – agora, fará no alvéolo superior – ficou diferente e até pensou que poderia livrar-se da pecha de corruptor de ministros, deputados, senadores, e lideranças partidárias com o passar do tempo. Não foi bem assim.

O empresário já não anda nos carros de luxo como naquela época, mora num bairro de classe média, sua vida virou um inferno, não conseguiu comprar a fazenda que arrendou por algum tempo a 100 quilômetros de Belo Horizonte, para onde pretendia mudar – a propriedade está colocada à venda, pelo antigo proprietário – tem seus bens e contas bancárias bloqueados, vive de rendas do que conseguiu liberar no Supremo Tribunal Federal e de consultorias eventuais, tem um escritório bem montado, mas sem qualquer sofisticação na Savassi, sofre crises de pânico ao menor sinal de que está sendo observado, sobretudo por jornalistas, e não cansa de repetir que se considera um preso político em seu próprio país, a despeito da democracia, diz-se abandonado por autoridades com as quais manteve contatos e em nome das quais se envolveu nas operações tidas como criminosas, apela sempre à memória de um filho morto e ao futuro dos que lhe sobrevivem para se fazer acreditar e não deixa de ser firme, mesmo quando chora, que já não teme a morte, pois que convive com ela ou, não se sabe, se porque a vida já não lhe dá prazer.

Em momentos de relativa tranquilidade, ele divaga viajando em frases soltas em que fala de figurões dos mais altos cargos da política que se beneficiaram do esquema financeiro por ele montado e que tomou o nome de mensalão, expressão, aliás, que desdenha por considerá-la fantasiosa, embora de alcance internacional – mas não é mensalão, insiste nas conversas com seu colega de cela – sonha, sem fechar os olhos, que é vítima da ação de grupos políticos poderosos, capazes de mandar abrir e fechar celas em presídios de alta segurança, como o de Tremembé, cita nomes de autoridades das quais se queixa e das quais tem mágoa por se sentir abandonado – mas apenas sonha num delírio que parece não ter fim, debatendo-se com a certeza de que ninguém irá acreditar no que fala Marcos Valério para Marcos Valério, a não ser o próprio Marcos Valério.

Quem o ouve, se alguém o ouve, é capaz de ficar na dúvida do que é real e do que é imaginário. A não ser pelas marcas dos espancamentos na boca e nas costas. Nessas horas, Valério é capaz de dizer coisas como: eu vi a morte cara a cara. Sou o único preso político deste país. Só me prendem por motivação política. Minha vida se resume a um DVD que nunca vi. Quem acredita? Talvez um dos colegas de cela, ao qual faz alguma confidência sobre esses e outros temas. Mas, em nenhum momento, ele apresenta algum documento de sua versão.

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