15 março 2009UM TEXTO DE J.R.GUZZO



DILMA E DILMA

É raro para um cidadão brasileiro, hoje em dia, passar 24 horas seguidas sem ouvir falar da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Se alguém acha muito, pode se preparar: ainda não viu nem ouviu nada, quando se pensa um pouco no que vai ver e ouvir daqui por diante.

A ministra, na vida prática, é a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governo para as eleições presidenciais do ano que vem; até lá, nenhum esforço vai ser poupado, e nenhum recurso deixará de ser gasto, para fazer o eleitorado acreditar que ela é a segunda pessoa mais virtuosa da história do Brasil, logo depois do próprio Lula. Por mais que Dilma esteja na frente do palco, porém, pouco se tocou até agora no que parece ser a questão-chave para as pessoas realmente entenderem quem ela é.

O resultado tem sido muito palavrório sobre quase tudo o que não interessa a seu respeito. Nada se ganha, é claro, com o barulho permanente produzido pela propaganda oficial em torno de suas qualidades, reais ou imaginárias. Da mesma forma, parece uma perfeita perda de tempo o debate sobre defeitos que a ministra não tem.

Uma das restrições mais frequentes feitas a Dilma Rousseff, por exemplo, é que ela não tem “jogo de cintura” – coisa considerada importantíssima por quem acha que entende de política, a começar por gente do próprio governo. Pode ser. Mas a ministra não está participando de um concurso de dança do ventre; é candidata à Presidência da República.

Ela também é criticada por levar a um estado próximo à morte cerebral, por overdose de chatice, as plateias de suas reuniões de trabalho. Não é um pecado mortal; a ministra é paga para ser eficiente, e não para ser divertida. Dilma não tem culpa, igualmente, pelas risadinhas que se ouvem quando é chamada de “mãe do PAC”, de “madrinha do pré-sal” ou de “sacerdotisa do serviço público”; tudo isso é invenção de Lula. Ela só paga mico – e talvez nem seja um mico, se acabar ganhando a eleição.

Lamenta-se, por fim, que a ministra nunca tenha sido eleita para um cargo público em toda a sua carreira. E daí? Levando-se em conta os prontuários da maioria dos políticos brasileiros, que passam a vida sendo eleitos, talvez seja até uma vantagem.

O nervo central do que poderia ser uma discussão mais útil sobre a ministra não está em nada disso – nem nos prodígios do PAC, ao qual o governo atribui o mérito de cada prego que é batido numa tábua dentro deste país, nem na imagem de funcionária pública irritada que se criou em torno dela.

Está, muito mais, no fato de que há pelo menos duas Dilmas conhecidas, e uma não combina em nada com a outra. A primeira, como se sabe, arriscou a vida durante a juventude combatendo a ditadura militar como militante de grupos armados; foi perseguida, torturada e esteve na cadeia entre 1970 e 1973, época em que o atual presidente do Senado, José Sarney, era um dos pilares civis do regime e de seu partido, a Arena, que chegaria depois a presidir.

A segunda, a Dilma que se vê hoje, tem no mesmo José Sarney um de seus aliados mais valiosos; joga em seu time, vive no seu ambiente e, sempre que pode, atende a seus pedidos. Não se trata apenas de Sarney. Junto com ele, nessa nova vida, vêm Renan Calheiros e Romero Jucá. Vêm Jader Barbalho e Fernando Collor. Vem mais toda a “base aliada” – ou “as gangues partidárias”, como dizia a ex-senadora Heloísa Helena, cuja postura política a primeira Dilma Rousseff tanto poderia admirar.

Não faz sentido estranhar que a ministra tenha adquirido novas ideias e desistido de fazer política a bala. É seu direito e, possivelmente, seu mérito. Mas muitos militantes como ela, e que como ela foram perseguidos pela polícia, presos, torturados ou exilados, também mudaram de ideias e hoje participam da vida pública; nem por isso viraram sócios políticos do senador Calheiros ou beijam a mão do deputado Barbalho, como já fez o presidente a quem Dilma deve toda a importância que tem.

O estranho, nas opções da ministra, não é ter mudado de ideias, mas ter mudado de turma. Em algum momento, nestes últimos anos, ela atravessou a fronteira que separa o mundo do idealismo do mundo dos Calheiros e Barbalhos; em geral não há volta quando se entra nesse território, povoado por diretorias de estatais, fundos de pensão, advogados administrativos e empreiteiras de obras públicas.

Costuma-se dizer que, para governar, certos acordos são um mal necessário. O problema não é como esses acordos começam, e sim como terminam. No começo são maus e necessários. Depois ficam só necessários. No fim acabam sendo apenas acordos.

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