TRÊS POEMAS

JÁ, SEU MOÇO? – Chico Calda

Você já andou, seu moço
Descalço, com os pés no chão
Numa vereda orvalhada
Nas serras do meu sertão?

Você já sentiu, seu moço
Cheiro de terra molhada
Tomou banho de riacho
Depois de uma enxurrada?

Você já saiu, seu moço
De casa na madrugada
Pra ficar olhando a lua
Fazer uma caminhada?

Você já assistiu, seu moço
O romper da alvorada
Sentindo a brisa no rosto
Escutando a passarada?

Se você nunca andou
Numa vereda orvalhada
E se também não sentiu
Cheiro de terra molhada
Não observou a lua
Na calma da madrugada
Nem viu o quebrar da barra
Escutando a passarada

Eu sinto muito, seu moço
Mas você não viveu nada

* * *

A SECA DO CEARÁ – Leando Gomes de Barros

Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil migrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.

Não se vê uma folha verde
Em todo aquele sertão
Não há um ente d’aqueles
Que mostre satisfação
Os touros que nas fazendas
Entravam em lutas tremendas,
Hoje nem vão mais o campo
É um sítio de amarguras
Nem mais nas noites escuras
Lampeja um só pirilampo.

Aqueles bandos de rolas
Que arrulavam saudosas
Gemem hoje coitadinhas
Mal satisfeitas, queixosas,
Aqueles lindos tetéus
Com penas da cor dos céus.
Onde algum hoje estiver,
Está triste mudo e sombrio
Não passeia mais no rio,
Não solta um canto sequer.

Tudo ali surdo aos gemidos
Visa o aspectro da morte
Como o nauta em mar estranho
Sem direção e sem Norte
Procura a vida e não vê,
Apenas ouve gemer
O filho ultimando a vida
Vai com seu pranto o banhar
Vendo esposa soluçar
Uma adeus por despedida.

Foi a fome negra e crua
Nódoa preta da história
Que trouxe-lhe o ultimatum
De uma vida provisória
Foi o decreto terrível
Que a grande pena invisível
Com energia e ciência
Autorizou que a fome
Mandasse riscar meu nome
Do livro da existência.

E a fome obedecendo
A sentença foi cumprida
Descarregando lhe o gládio
Tirou-lhe de um golpe a vida
Não olhou o seu estado
Deixando desemparado
Ao pé de si um filhinho,
Dizendo já existisses
Porque da terra saísses
Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

Vê-se moças elegantes
Atravessarem as ruas
Umas com roupas em tira
Outras até quase nuas,
Passam tristes, envergonhadas
Da cruel fome, obrigadas
Em procura de socorros
Nas portas dos potentados,
Pedem chorando os criados
O que sobrou dos cachorros.

Aqueles campos que eram
Por flores alcatifados,
Hoje parecem sepulcros
Pelos dias de finados,
Os vales daqueles rios
Aqueles vastos sombrios
De frondosas trepadeiras,
Conservam a recordação
Da cratera de um vulcão
Ou onde havia fogueiras.

O gado urra com fome,
Berra o bezerro enjeitado
Tomba o carneiro por terra
Pela fome fulminado,
O bode procura em vão
Só acha pedras no chão
Põe-se depois a berrar,
A cabra em lástima completa
O cabrito inda penetra
Procurando o que mamar.

Grandes cavalos de selas
De muito grande valor
Quando passam na fazenda
Provocam pena ao senhor
Como é diferente agora
Aquele animal que outr’ora
Causava admiração,
Era russo hoje está preto
Parecendo um esqueleto
Carcomido pelo chão.

Hoje nem os pássaros cantam
Nas horas do arrebol
O juriti não suspira
Depois que se põe o sol
Tudo ali hoje é tristeza
A própria cobra se pesa
De tantos que ali padecem
Os camaradas antigos
Passam pelos seus amigos
Fingem que não os conhecem.

Santo Deus! Quantas misérias
Contaminam nossa terra!
No Brasil ataca a seca
Na Europa assola a guerra
A Europa ainda diz
O governo do país
Trabalha para o nosso bem
O nosso em vez de nos dar
Manda logo nos tomar
O pouco que ainda se tem.

Vê-se nove, dez, num grupo
Fazendo súplicas ao Eterno
Crianças pedindo a Deus
Senhor! Mandai-nos inverno,
Vem, oh! grande natureza
Examinar a fraqueza
Da frágil humanidade
A natureza a sorrir
Vê-la sem vida a cair
Responde: o tempo é debalde.

Mas tudo ali é debalde
O inverno é soberano
O tempo passa sorrindo
Por sobre o cadáver humano
Nem uma nuvem aparece
Alteia o dia o sol cresce
Deixando a terra abrasada
E tudo a fome morrendo
Amargos prantos descendo
Como uma grande enxurrada.

Os habitantes procuram
O governo federal
Implorando que os socorra
Naquele terrível mal
A criança estira a mão
Diz senhor tem compaixão
E ele nem dá-lhe ouvido
É tanta a sua fraqueza
Que morrendo de surpresa
Não pode dar um gemido.

Alguém no Rio de Janeiro
Deu dinheiro e remeteu
Porém não sei o que houve
Que cá não apareceu
O dinheiro é tão sabido
Que quis ficar escondido
Nos cofres dos potentados
Ignora-se esse meio
Eu penso que ele achou feio
Os bolsos dos flagelados.

O governo federal
Querendo remia o Norte
Porém cresceu o imposto
Foi mesmo que dar-lhe a morte
Um mete o facão e rola-o
O Estado aqui esfola-o
Vai tudo dessa maneira
O município acha os troços
Ajunta o resto dos ossos
Manda vendê-los na feira.

* * *

AS ÁRVORES DA RIBEIRA DO RIACHO DO NAVIO – José Costa Leite

No campo da poesia
Somente em Deus eu confio
Sobre o meio ambiente
Vou falar sem ter desvio
De uma certa maneira
Com: As Árvores da Ribeira
Do Riacho do Navio

Este riacho é histórico
Afirmo e ninguém contesta
Nasce em Betânia e dali
Segue o rumo de Floresta
E vai desaguar sem lundu
Lá no Rio Pajeú
Onde seus serviços presta

É uma fonte de vida
Que ele presta com certeza
Para as pessoas que vivem
Ali, pela redondeza
Seja de perto ou além
Ajudando muito bem
Os seres da Natureza

O Riacho trazendo água
Não existe sequidão
Pois mantém em suas margens
Matas que fornecem, então
Sombra em boa quantidade
E produtos de utilidade
Ao povo da região

A água no sertão faz tudo
Florescer e ganhar vida
Mas para isso é preciso
Que a turma reunida
Conserve a água bastante
Pra não faltar um instante
Deixando a margem florida

Para garantir a vida
Das pessoas, com certeza
Das criações e das plantas
Que trazem comida a mesa
Clima bom na região
Para toda população
E os bichos da natureza

Pois nessa região vive
Um povo trabalhador
Que sempre cultiva a terra
Demonstrando o seu valor
Sempre cria quando pode
Cabra, boi, carneiro e bode
Que faça frio ou calor

O povo sertanejo tem
Sua cultura ligada
As plantas e as criações
Da terra sem faltar nada
É um povo de coragem
Meio ferrenho ou selvagem
Mas sempre bom camarada

Todo ele é bom amigo
Depende da ocasião
Ele é manso e é valente
Tratado com atenção
Mas tratado com desdém
O mais mofino que tem
Dar bofete até no “cão”

Como o vaqueiro que enfrenta
O caatingal espinhoso
Atrás dum boi mandingueiro
Num terreno perigoso
Saltando moita de umbu
Favela e mandacaru
Mostrando ser corajoso

O Riacho faz com que
Existam matas que são
Diferentes da caatinga
E essas matas estão
Para falar a verdade
Prestando utilidade
Ao povo da região

As matas garantem água
E em boa quantidade
Mesmo que ela não seja
De primeira qualidade
Mas gera na região
Nas plantas e na criação
Um exemplo de bondade

A conservação das matas
Nas margens do rio, faz
A fonte ficar perene
Havendo água demais
Mas se houver desmatação
As águas da região
Se afastam de mais a mais

As árvores à margem do rio
Conservam o solo molhado
São as matas ciliares
Onde o caboclo “estudado”
Procura na região
Alguma alimentação
Quando está necessitado

Existem diversos tipos
De árvores pela ribeira
Como o Saboneteiro
Mulungu e Juazeiro
Na região ainda há
Baraúna e Trapiá
Angico e Pajeuzeiro

Existem Mari e Pau Ferro
Ali pela região
Juá-Mirim, Maniçoba
Serve pra fazer carvão
Feijão Bravo e Catingueira
Angico Preto, Faveleira
E Umburana de Cambão

Ainda tem Canafístula
Jurema Preta e Salgueiro
Ingazeira, Craibeira
Trapiá e Marizeiro
Carcarazeiro, Aroeira
Quebra-Faca, Quixabeira
Sete cascos e Umbuzeiro

É nas árvores onde cantam
A Patativa, o Sabiá
O belo Galo de Campina
O Sofrê, o Anumará
E às vezes, de manhã
Ouve-se a voz da Cauá
E do Sabiá Gongá

Tem o Casaca de Couro
Mostrando a sua beleza
E o Cabeça Vermelha
Outra ave de grandeza
Vê-se também o Anum
Pousado e cantando um
Mas alegra a Natureza

Existe a onça pintada
Onça vermelha e guará
E tem o gato do mato
Chamado Maracajá
Tem a onça canguçu
Cordoniz, paca e tatu
Raposa e tamanduá

Aquelas árvores, leitores
Ali, são boas e eu acho
Que ninguém deve cortá-las
Evitando o cambalacho
Pra garantir a presença
Do verde, a beleza imensa
E das águas do riacho

Aquelas árvores são úteis
Ao povo da região
E para o gado e os bodes
Servem de alimentação
Ninguém ali, vive a toa
E muitas dão madeira boa
Pra se fazer construção

Além das árvores servirem
Pra se fazer construção
Aconselho que o povo
Use com moderação
Corte na mata deserta
Somente a quantia certa
Na hora da precisão

Se não houver uma ordem
No Nordeste Brasileiro
Pra se conservar as matas
Vai ser grande o desespero
E vai se vê na ribeira
Que um palmo de madeira
Custa um metro de dinheiro

Pois sabemos que as matas
São a riqueza da terra
Fornecem medicamentos
Onde o caboclo da serra
Se cura na hora exata
Aos arvoredos da mata
Não se deve fazer guerra

Porque das matas se extrai
Madeira de construção
A de pouca utilidade
Serve pra fazer carvão
E de uma certa maneira
Folhas e frutas da ribeira
Servem de alimentação

Tem madeira que pode
Ser enterrada no chão
Outras dão caibros e ripas
E outros belos móveis dão
Já outra, da casca grossa
Serve pra fazer carroça
Carro de boi e mourão

Uma árvore medicinal
Conhecida é quixabeira
Pra cabos de ferramenta
É madeira de primeira
O angico é bom camarada
Serve pra gripe e pancada
E dar móveis, como craibeira

Para se comer na mata
Encontra-se Trapiá
Também Mari e Umbu
Quixaba e Jatobá
Ninguém não morre de fome
Isso tudo é o que se come
E o fruto do Juá

Nas terras do Pajeú
Existe a maior grandeza
As plantas medicinais
Engrandecem a redondeza
Que dão alimentação
Ao Caboclo do Sertão
Na fonte da Natureza

Tracei o cordel debaixo
Dum pé de mandacaru
Chupando quixaba doce
Mari, Trapiá, Umbu
No meu Nordeste sadio
O Riacho do Navio
Das terras do Pajeú.

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