QUATRO MOTES NORDESTINADOS E UM FOLHETO DE BICHOS

seca

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina

O barreiro tá seco esturricado
não tem água no açude e na barragem
só tem nuvem cinzenta de estiagem
todo eito do campo está pelado
não existe alimento para o gado
o cinzeiro no espaço faz cortina
foram embora meus galos de campina
e os que ficam não estão cantarolando
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

Falta rama no pé de juazeiro
não tem pasto na roça e no baixio
na vazante do açude e nem do rio
não tem sombra de angico e de pereiro
já morreram mofumbo e marmeleiro
é preciso a intercessão divina
para a chuva molhar toda campina
ninguém sabe, só Deus quem sabe quando!
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

* * *

Carlos Aires glosando o mote:

Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

As cidades são belas, e eu não nego
Lindas praças com ruas e avenidas
Clubes festas e coisas divertidas
Mas, aqui vivo triste e não sossego
Essa dor que no peito hoje carrego
Bate forte e machuca o coração
Traficante, bandido e ladrão
Vive solto e eu preso atrás da grade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Sempre lembro das coisas lá da roça
A casinha singela que eu morava
Tinha portas, porém não precisava
De fechá-las porque a gente nossa
Mesmo pobre abrigada numa choça
Enfrentando a pobreza e a sequidão
É incapaz de fazer uma invasão
Pois respeita a nossa privacidade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Eu aqui tenho a casa arrumada
Com estante, sofá, televisor
Quando escrevo é num computador
Confortável é cama arrumada
Não me esqueço do cabo da enxada
Do machado, da foice, do facão
Nem da vida na minha região
Que eu vivia em plena liberdade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

O conforto é bom e necessário
E a cidade isso tudo oferece
Quem viveu lá na roça não esquece
O lugar que nasceu mesmo precário
Empregado eu virei um operário
Vivo sempre às ordens do patrão
Recordando do gado e do alazão
E assim vou vivendo de saudade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

* * *

Thiago Barbosa glosando o mote:

Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

És um grande centro urbano
Pauliceia desvairada
À primeira alvorada
Forasteiro e paulistano
Pega o metropolitano
Cada um com seu destino
Às vezes eu imagino
A pergunta não me erra
Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

Desde os bravos bandeirantes
Os homens desbravadores
Todos eles foram autores
Destes bosques pedrejantes
Mas também foram atuantes
Uns cabras de muito tino
Provando ser paladino
Prontos para qualquer guerra
Que seria dessa terra
Sem o braço nordestino?

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Quando a seca se espalha
Na paisagem sertaneja
Um bode triste bodeja
Pois o berro é sua fala
Quem pudesse transformá-la
Nos dizia: – ele berrou
Dizendo a vida mostrou
Que quando as águas se vão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou

A campesina serena
Volta cedo do roçado
Expondo o corpo suado
Que o sol ressecou sem pena
Nasceu branca, tá morena
E com jeito que gostou
Diz o que alguém ensinou
Aqui no nosso torrão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Uma abelha voa perdida
Em busca de água e flor
Toda folha perde a cor
Gafanhoto perde a vida
Uma vaca recém parida
Do vivente que gerou
Lambe o beiço, diz eu dou
Com saliva a salvação
E o caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

* * *

O CASAMENTO DO BODE COM A RAPOSA – Firmino Teixeira do Amaral

CASAMENTO

Eu ouço os velhos dizerem
Que os bichos da antiguidade
Falavam como falamos
E tinham civilidade
Naquele tempo até bichos
Casavam por amizade

Naquele tempo mestre burro
Lia escrevia e contava
O cavalo era escrivão
O cachorro advogava
O carneiro era copeiro
E o jaboti desenhava

Leão era o rei dos bichos
Onça era professora
Elefante era juiz
A raposa agricultora
Camelo era correio
A aranha tecedora

Gavião criava pinto
Guaxinim plantava cana
O macaco em sua tenda
Vendia queijo e banana
Aos outros a prestação
Pra receber por semana

Urso era presidente
A traça era costureira
Girafa fazia renda
Cutia era engomadeira
Peru era viajante
Cobra vendia na feira

O lobo era capitão
Urubu era marchante
O jacaré era bacharel
Canguru comerciante
O peba era coletor
Camaleão despachante

Coruja era feiticeira
O papagaio pregador
Periquito era fiscal
O sapo era caiador
A preguiça era parteira
Mestre bode era doutor

O gato era tenente
Pavão era sapateiro
Mucura vendia ovos
Tiú era cozinheiro
Tamanduá era padre
O preá era barbeiro

A cigarra era cantora
O mocó era dentista
Socó era pescador
A garça era modista
Morcego guarda noturno
A lagarta desenhista

Afinal todos os bichos
Daquele tempo passado
Era como os homens hoje
Viviam tudo empregado
Não se via bandalheira
Nem se vivia enganado

O bode sendo doutor
De alta capacidade
Enamorou-se da raposa
Consagrou grande amizade
Prometendo-lhe mais tarde
Fazer-lhe a felicidade

A raposa muito alegre
Chegou em casa e contou
Pra sua mãe que sabendo
De muito gosto aceitou
A raposa tão contente
Nesse dia não jantou

Disseram doutor bode
É um jovem bem decente
Pertence a alta escala
É filho de boa gente
Porém queremos saber
Se o pai dele consente

Quando o bode velho soube
Também não propôs questão
Deu consentimento ao filho
De ter da raposa a mão
A velha cabra então disse
Não acho boa união

Meu filho sendo doutor
De alta capacidade
Querer casar com uma moça
De tão baixa qualidade
Respondeu o velho sorrindo
Isto é só formalidade

A raposa também vem
Duma raça boa e pura
É uma jovem elegante
Vive da agricultura
Respondeu a cabra zangada
Mas não me agrada a figura

Eu não sei que diabo tem
Que a tal não posso me unir
Me arrepia os cabelos
Só em ver ela sorrir
Porém como todos querem
É o jeito eu consentir

Doutor bode quando soube
Que sua mãe consentia
Deu três pulos no terreiro
Tomou rapé de alegria
Correu pra casa da noiva
Pra contar o que havia

A raposa muito contente
Foi dizendo agora vai
Aproveite a ocasião
Me peça logo ao meu pai
Se não levar a decisão
Tu hoje daqui não sai

O bode fez uma carta
Muito bem feita e mandou
Pela resposta na sala
Silencioso esperou
O velho recebeu a carta
Veio em pessoa e falou

Foi dizendo doutor bode
Para que tanta vergonha
Eu me acho ao seu dispor
E precisando disponha
Dona raposa de lado
Se conservava risonha

O bode como doutor
Falou em cima da bucha
É muito certo o ditado
Filho de pobre não luxa
O pobre de vez se atrapalha
E o rico desembucha

Dona raposa lhe peço
Como seu maior amigo
A sua filha estimada
Para se casar comigo
Doutor bode só ela dizer
Se quer se casar consigo

Sendo que ela queira
O seu pedido aqui feito
Cá de meu lado garanto
De muito gosto aceito
Chamaram então a raposa
Contaram tudo direito

Ajustaram o casamento
Marcaram o mês e o dia
Mandaram logo avisar
O padre da freguesia
O velho tamanduá
Com toda família ia

Fizeram logo convites
Por cartas especiais
Desde o soldado raso
Aos mais altos generais
Afinal todos os bichos
Da classe dos animais

O leão como era o rei
Mandou dizer que não ia
Porém estava ao dispor
Se quisesse a garantia
Mandava a força armada
De linha ou cavalaria

O bode lhe agradeceu
Dizendo não precisar
Pois não tinha inimigo
Que quisesse lhe atacar
Porém se fosse preciso
Telefonava pra mandar

Afinal chegou o dia
Do casamento feliz
Primeiramente iriam
A presença do juiz
Depois foram se casar
Na igreja da matriz

As testemunhas do bode
Foram cachorro e elefante
Da raposa a professora
Onça pintada galante
E a filha do capitão lobo
Uma jovem muito elegante

Sapo tocava guitarra
O macaco bandolino
Periquito na rabeca
Canguru no violino
Caititu no contra baixo
E o peru no cavaquinho

Guaxinim tocava flauta
O papagaio violão
O socó na clarineta
Morcego no rabecão
Mestre coelho no tambor
E o mocó no bombardão

Veado lavava prato
Carneiro botava mesa
A garça junto ao pavão
Iam fazendo a limpeza
O porco de sentinela
Para servir de defesa

Estavam todos na mesa
Começou uma discussão
Dizia o lobo que era
Superior ao leão
Saltou o cachorro dizendo
Amigo agora isto não

Diga-me por qual motivo
És melhor que o leão
Ele sendo o nosso rei
Tem o direito na mão
Temos de reconhecê-lo
Como chefe da nação

Porém o lobo zangou-se
Queria porque queria
Ver terminar em desgosto
A festa daquele dia
O cachorro deitou-lhe o braço
Errou pegou na cotia

O dom raposo na luta
A favor do capitão
O cachorro pegou de jeito
E lhe deu um bofetão
E uma grande dentada
Deixando morto no chão

Nisso chegou doutor bode
Vendo seu sogro morrer
A professora também
Foi a causa defender
Mas o boi tomou a frente
Fez a onça esmorecer

Capitão lobo nesse dia
Arrenegou-se do diabo
O corneteiro entrou na luta
Poucos minutos deu cabo
Camelo quebrou espinhaço
A anta perdeu o rabo

Saltou o burro dizendo
Com o leão ninguém bole
Pode vir duzentos lobos
Dum bocado não me engole
Deu um pontapé no urso
Que ainda hoje anda mole

Peru correu para um lado
Quase morre de tremer
Veado a zoada vendo
Tratou logo de correr
O jacaré caiu na água
Não quis a vida perder

Tenente gato na luta
Com os dentes agarrou o preá
Macaco pulou num pau
E gritou guardem de lá
Façam o angu de vocês
Que eu fico olhando de cá

A raposa a muito tempo
Já tinha se escapulido
Vendo o cachorro na luta
Não quis saber de marido
Caçote deixou a barba
Cobra deixou o vestido

O peba apanhou de pau
Traça ficou em farrapo
Urubu quebrou a perna
Jaboti desceu em trapo
A mucura quase morre
Pisaram em cima do sapo

Morcego por ser sabido
Agarrou-se no cavalo
O grilo ia fugindo
O gavião pode pegá-lo
A barata se desviando
Passou no bico do galo

Dum murro o coelho quebrou
O pescoço do socó
Deixou a preguiça sem junta
Ficou sem rabo o mocó
A girafa disse vôte
Quem quiser que brigue só

Onça fez uma carranca
Deu um bofete no bode
Ele espirrando dizia
Com a onça ninguém pode
Dum bofete que me deu
Quase me arranca o bigode

Porco sacou de um facão
E gritou guarda debaixo
Com meia hora de luta
Sangue corria em riacho
Pavão apanhou de pau
Mas não sujou o penacho

Camaleão foi saindo
Guaxinim meteu a faca
O cachorro pegou o padre
E foi com ele a estaca
Disse a garça vocês briguem
Mas não me sujem a casaca

O papagaio nem sabia
Que rumo tinha tomado
Cigarra saiu voando
Caboré estava trepado
A rã detrás duma porta
O tiu todo arranhado

O elefante e o boi
Lutavam na força bruta
O cachorro com o lobo
E a onça na disputa
A anta mais o mocó
Perderam o rabo na luta

Com duas horas de luta
O campo estava deserto
Não tinha quem visse mais
Um deles ali por perto
Desde esse dia que os bichos
Se intrigaram por certo

Vamos saber dos noivos
Que tinham se escapulido
A raposa muito nervosa
Por já ter tudo perdido
Se não fosse o casamento
Seu pai não tinha morrido

Camisa de sete varas
Só veste ela quem pode
Diabo leve o casamento
Chorando dizia o bode
Por causa do tal casório
Ia perdendo o bigode

O bode fez uma jura
Por tudo quanto é sagrado
Se pudesse se divorciar
Não seria mais casado
Na minha mente o camelo
Saiu mais prejudicado

Ao cabo de muito tempo
A raposa apareceu
Magra nojenta e pelada
Nem o bode conheceu
Chorando amargamente
Pelo seu pai que perdeu

Dizia perdi meu pai
Disse o bode se não corro
A onça me deu um tapa
Um murro que quase morro
Culpados de tudo isso
Foi o lobo e o cachorro

A raposa chamou o bode
Para se divorciar
E fez juramento a Deus
De nunca mais se casar
Ficou de mal com o cachorro
Pra nunca mais se falar.

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