professor valença

Este colunista com o Professor José de Araújo Valença

O mestre escola, JOSÉ DE ARAÚJO VALENÇA, o Professor Valença, como é conhecido, foi um operário do seu ofício de educador, na cidade de Monteiro, no Cariri paraibano, aonde chegou na década de quarenta vindo do Recife, para se recuperar de uma tuberculose.

Leite e leito recomendara-lhe o doutor da cidade grande. Mas não foi bem isso que ele fez. De temperamento irrequieto, transgrediu os conselhos médicos , arregaçou as mangas e deu impulso a um projeto que trouxera do litoral, junto com a mulher e uma pouco volumosa bagagem: Formar jovens para a vida.

Venceu a doença e de Monteiro só saiu no fim da década de sessenta , deixando edificados o prédio do Ginásio e os sonhos de jovens pobres que até então jamais tiveram acesso ao ensino gratuito e de qualidade. Foram levas e mais levas de filhos de agricultores pobres que se juntavam aos remediados da cidade e com eles dividiam as mesmas bancas do Ginásio Cenecista numa convivência e aprendizado democráticos, decisivos para os seus destinos.

Rigoroso no trato com os seus discípulos, “sem perder a ternura jamais”, foi antes de tudo um poeta, que acreditou no sonho de jovens de uma pequena cidade sertaneja, onde edificou o seu sonho libertador, deixando um legado de valor imponderável. Hoje, no limiar dos noventa anos, se locomove, enxerga e ouve com limitações, mas é um homem de bem com a vida, altivo, bem humorado e feliz.

É apenas um homem e o seu sentimento do dever cumprido. Um homem “com apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.

Assim foi a sua vida, contada por ele mesmo, cercado por filhas e netos , em janeiro de 2009, na praia do Sossego , na Ilha de Itamaracá, durante uma feliz visita que tivemos a oportunidade de fazer.

DE CAMARAGIBE PARA MONTEIRO

“Nasci em Camaragibe, no dia nove de março de 1919, embora a família Valença seja concentrada em São Bento do Una, meu avô era proprietário da fazenda Liberal em Pesqueira.

Devido à seca, meus pais vieram para o Recife e chegando aqui meu pai montou uma cocheira e vendia leite em Camaragibe. Quando eu tinha três pra quatro anos, minha mãe voltou pra Pesqueira, levando com ela duas irmãs que iam muito tristonhas, pois sabiam que iam ficar num lugar esquisito e isolado. Elas iam quase chorando no trem, onde eu brincava correndo dentro do vagão, lá pelas tantas eu fiz cocô no vagão e minha mãe envergonhada juntou aquilo com um jornal e jogou pela janela, só que o vidro estava fechado e ela não viu. Ficou tudo lá no vidro, o que fez com que as minhas tias fossem rindo de Pombos até Pesqueira, acabando assim a atmosfera de tristeza, isso foi em 1922.

Nesse mesmo ano, papai também foi pra Pesqueira trabalhar na fábrica da família Brito. Eu estranhava as muriçocas que eram muitas ali, mas menino logo me acostumei. Nesse mesmo ano caiu um aerólito na serra do Curralinho, era como se fosse um trovão muito grande e os meninos na escola começaram a chorar. Minhas tias começaram a rezar um terço e no meio da reza, um tio meu que era muito alvoroçado, abriu a janela e gritou: Eita seiscentos diabos, parece que vem caindo o céu!

No princípio de vinte e cinco, voltamos pra Recife , quando em 1927, meu pai já cansado vendeu as vacas que tinha e comprou um caminhão velho. E ele que nem sabia dirigir, perdeu dessa vez tudo o que tinha. Aí fomos pra Carpina que nessa época era chamada de Floresta dos Leões, meu avô morava lá. Eu não sei o que meu pai foi fazer nessa época.

Em 1928, viemos pra Recife novamente, e fomos morar no Sancho onde nasceu o meu irmão Geraldo. Meu pai continuava vendendo leite. Depois fomos morar em Limoeiro, onde meu tio avô instalou uma fábrica de queijo onde estudei em 1929 e 1930.

Aí voltamos pro Recife de novo, onde fui pedir aos Irmãos Maristas, pra estudar no colégio deles. Só que o diretor marcou pra mim, uma anuidade de cem mil réis. Eu voltei pra casa desiludido. Meu Deus, onde eu vou arrumar esse dinheiro todo? Foi aí que tive a idéia de comprar um bacurinho no Poço da Panela, pra engordar e pagar o colégio. Botei o bicho nas costas e fui a pé por dentro, passei por Areias e vim bater em Sucupira, onde morávamos.

Esse porco, eu engordei com lavagem que juntava dos vizinhos. No fim do ano, mamãe colocou o porco à venda para pagar o colégio que eu já estava freqüentando. O preço era cem mil réis, que era o valor da anuidade. Apareceu um sujeito que só queria pagar oitenta. Minha mãe só vendia por cem mil réis. Dois dias depois, roubaram o porco.

Eu cheguei no colégio banhado em lágrimas, foi quando Paulo Guerra, que foi governador depois, e que era meu colega, fez uma cota com os colegas e pagou a minha anuidade e ainda falou com o diretor que me deu uma bolsa e eu terminei o ginásio sem pagar a anuidade.

Nesse tempo, eu já dava aula particular, carregava frete em feira, comprava e vendia ovos e fui tocando até que terminei o Ginásio. Quando eu terminei o Ginásio eu tinha tido uma aluna com quem namorei e depois casei que foi dona Pacita, a minha mulher.

Nessa época, eu já tava ensinando no Marista, quando adoeci de tuberculose. O médico disse, naquela época: Bem, só tem um caminho: é leite e leito. Eu deveria procurar também um clima bom, foi quando o filho de Nestor (Nestor Bezerra que era comerciante em Monteiro) me sugeriu que eu fosse pra lá. Pedi e ele me arranjou uma casinha e exatamente no fim de 1944 eu cheguei em Monteiro pra curar a tuberculose.

Fiquei ali me tratando deitado todo o tempo, os Maristas mandavam algum dinheiro, depois o doutor Romualdo que era o juiz, me arranjou uma aposentadoria provisória e eu fiquei vivendo da aposentadoria. Depois o pessoal tava querendo um professor. Foi quando doutor Alcindo – que tinha uma farmácia – me fez um convite:

– Eu tenho uma vaga lá num armazém, você pode levar um quadro negro e uns bancos e vai dar as suas aulas.

O tempo foi passando, e em 1948, eu tomei estreptomicina que um colega meu me mandou do Recife e fiquei radicalmente curado.

Comecei a estender as minhas aulas, quando as Lurdinas me chamaram pra lecionar no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e eu fui ensinar matemática.

Foi também o tempo em que o Doutor José Rafael de Menezes que era deputado pela Paraíba fundou um ginásio da Campanha de Educandários Gratuitos (onde ele também foi fundador) em Monteiro e me chamou pra tomar conta do Ginásio. Eu organizei o Ginásio no Grupo Escolar, Tito meu filho estudou no grupo escolar e as meninas estudaram no Colégio.

Eu organizava o Ginásio e geralmente pedia a um deputado da oposição que entrasse com um projeto pedindo verba pro Ginásio e como eu sabia que o governo não ia liberar, pedia a outro do governo e ele liberava o projeto, pois eu tinha amigos dos dois lados. Com isso construí o Ginásio com uma planta que eu mesmo tracei.

Nesse tempo, com seu Chico Xavier, que era irmão do padre e que também chamavam de Chico Maxixão, tirei duas vezes na Prudência Capitalização. anhei naquela época uma média de quarenta mil cruzeiros, não sei muito bem, pois eu não tinha muita idéia do dinheiro daquele tempo. Eu sei que com esse dinheiro eu comprei uma casa que era de Manoel Barbeiro. Depois eu vendi essa casa a doutor Joca e em seguida comecei a construir a minha casa definitiva.

Foi quando Tânia e Tito foram embora pra Recife e eu sempre ficava com uma das meninas em Monteiro. Depois com a família toda já em Recife, eu fui-me embora pra lá onde passei por alguns colégios até que em 1989, minha mulher morreu.

Eu fiquei então sozinho quando fui morar com Tânia minha filha. Tive um problema cardíaco e fui pro Osvaldo Cruz onde botaram uma prótese no meu coração. Outro filho, Tibério, que foi engenheiro da Chesf, me convidou para passar uns tempos com ele em Itaparica, onde fiquei por três anos quando voltei por problemas de saúde. Voltei de novo pra casa de Tânia e assim tá até hoje, pra onde ela vai eu vou atrás”.

AINDA SOBRE MONTEIRO

Andava muito com Aldo Falcão e comprava pão na padaria de seu Cazuzinha. Tinha até uma história que contavam dele:

Ele ficava sentado numa preguiçosa na frente da padaria e quando os meninos chegavam pra comprar pão, ele dizia:

– Não sei o que têm essas mulheres daqui que não gostam de fazer cuscuz, é só pão, pão…

Eu também gostava de passar na sinuca de Aurélio, pra ver as disputas de Antemildo com Manoel Nascimento e Adolfo Mayer.

Saí de Monteiro, no fim de sessenta e seis, começo de sessenta e sete. Voltei lá em oitenta e dois pra receber uma homenagem que contou com uma banda de música na frente do Grande Hotel.

AS FESTAS DE CLUBE

Acho que nunca entrei numa festa de clube. Ia pra calçada do AERO CLUBE DE MONTEIRO, conversar com as pessoas que ficavam ali durante as tardes. Conversava com Nestor Bezerra, Toinho, seu irmão e outros frequentadores

SOBRE O CINEMA

Lembro do cinema de Chico Venâncio que era na frente do Ginásio e tinha o telhado de zinco. Um dia Lila de Temi queria entrar de graça e Chico não deixou. Lila jogou uma banda de tijolo no telhado e correu todo mundo de dentro pensando que o cinema ia cair.

A minha mulher não gostava de ir para o cinema, pois eu só gostava de faroeste.

SOBRE O PRESENTE

Eu tenho, hoje, vinte netos e dezessete bisnetos.

Eu não tenho de que reclamar não, tive doença e fiquei bom. Eu só acho ruim a velhice. A gente fica dando trabalho aos outros, eu digo isso a minha filha, ela acha que não, que é obrigação.

SOBRE ALCEU VALENÇA

Alceu era neto de Orestes, que era primo do meu pai, mas a relação é distante. Ele é a cara dos Valença. Olhando pra ele, a venta é dos Valença, o nariz aquilino, pontudo, é a mesma coisa.

SOBRE LIVROS E POESIA

Sempre gostei muito de Castro Alves, Fagundes Varela, gosto de poesia rimada, nunca apreciei essa poesia moderna, sem rima, gosto dos cantadores de viola e acho que Pinto foi o maior que conheci.

Quando morava em Monteiro, gostava de escrever poesias, mas quando vim embora pra Recife, a cheia de 1975 acabou com tudo. Lembro que, já no Recife, fiz um soneto para a balança da Drogaria Vilaça que o povo chamava de Farmácia e que ficava na Rua Nova.

Eu passava sempre por lá e vez por outra ia me pesar.

Eu fiz assim:

Quem não conhece aqui nesta cidade
A balança da porta da Vilaça
Balança decimal sem nulidade
Que pesa qualquer um de qualquer raça

Discreta comedida sem maldade
Fiel ao seu mister de pesar massa
Ouve tranqüila muita veleidade
E cala tudo aquilo que se passa

A gorducha balofa quase esborrotando
Sobe na balança quase impando
Com o ar de quem é ludibriada

A magra que é só osso no vestido
Põe um ar no olhar desiludido
E resmunga e resmunga está quebrada

RESUMINDO NUM SONETO

Exige a minha mulher que eu seja honesto
Exige cada um um rol sem fim
Reclama minha mãe, seja modesto
Exige satanás que eu seja ruim

Lá em casa existe tudo mais e o resto
Roupa comida tudo mais enfim
Quando reclamo, quanto mais protesto
Mais se reclama, mais se quer de mim

No meu trabalho, sei com que freqüência
Se põe o meu trabalho em exigência
Num erro qualquer que a gente cai

Não reclamo mais, sou ordinário
Pois até quando vou ao sanitário
Alguém bate e diz, veja se sai

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