Arquivos de junho 2017

CÍRCULO VICIOSO – Machado de Assis

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: – “Quem me dera que fosse aquela loura estrela, Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!” Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: – “Pudesse eu copiar o transparente lume, Que, da grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!” Mas a …

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UM NERVOSO E O OUTRO SAI DO MEI

Um japonês entra num ônibus que vai de Campina Grande pra Recife e diz ao motorista: – Olhe, seu motorista, eu tou indo pra Olinda, mas como eu tou muito cansado, vou dar um cochilo e temo não acordar e passar do ponto. Gostaria que, antes de chegar em Recife, o senhor me acordasse na …

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FERNANDO – JORNAL DA CIDADE DE BAURU (SP)

DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJO

João Paraibano O que mais me admira É ver o sapo inocente Que gosta de lama fria Mas detesta a terra quente Vendo da cobra o pescoço Pinota dentro do poço Pra se livrar da serpente. * * * Rogaciano Leite Eu nasci lá num recanto Do sertão que amo tanto Onde o céu desdobra …

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CENSURADO – Glauco Mattoso

Sabendo que a censura não me trava, pediram-me um soneto sem calão pra pôr na antologia de salão que o tal do [censurado] organizava. Queriam até tônica na oitava, mas nada de recurso ao palavrão. Usei o ingrediente mais à mão, porém sem [censurado] não passava. Desisto. Quanto mais remendos meto, mais roto vai ficando …

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SONETO OCO – Carlos Pena Filho

Neste papel levanta-se um soneto, de lembranças antigas sustentado, pássaro de museu, bicho empalhado, madeira apodrecida de coreto. De tempo e tempo e tempo alimentado, sendo em fraco metal, agora é preto. E talvez seja apenas um soneto de si mesmo nascido e organizado. Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu, pois não sei como …

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PEDRO CELESTINO BATISTA (PEDRO BIQUARA)

Boêmio, poeta, humorista e amigo terminal, é o mínimo que se pode dizer desse matuto nascido em Boi velho, que pertencia a Monteiro-PB. Tal qual o personagem Buendía do romance “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques, fez na vida de tudo um pouco sem que nada de material lhe restasse quando partiu. Morreu …

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RETORNO DOS RETIRANTES – Maria Braga Horta

Na volta, achamos os perdidos passos do abandono da terra: nos currais velhos cochos lascados e os baraços destorcidos e secos dos manguais; esqueletos fundidos nos penhascos e caveiras no espanto dos pardais; ferraduras com esquírolas de cascos e mofados arneses nos portais; por estirões sem fim de álveos vazios, devassados mistérios, por assente que …

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A CIGARRA QUE FICOU – Olegário Mariano

Depois de ouvir por tanto tempo, a fio, As cigarras, bem perto ou nas distâncias, Só me ficou no coração vazio A saudade de antigas ressonâncias… Todas se foram… bando fugidio Em busca do calor de outras estâncias, Carregando nas asas como um rio Leva nas águas – seus desejos e ânsias… E ainda cantaram …

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