Arquivos de julho 2017

GUARÂNIA DA SAUDADE” DE LUIZ VIEIRA

SEIS SONETOS DE BIU DE CRISANTO E UM FOLHETO SOBRE RUI BARBOSA

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Severino Cordeiro de Souza – Biu de Crisanto (1929-2000)

Viveu e morreu em São José do Egito, Pernambuco, terra de poetas e cantadores. Contemporâneo e conterrâneo de Rogaciano Leite, Louro do Pajeú, Cancão, Antônio Marinho, Dimas e Otacílio Batista, e Jó Patriota. A rua onde viveu chama-se BECO DO POETA. Chamado também o “poeta do beco”. Cedo perdeu tudo, inclusive as duas pernas. Morava num pequeno quarto que dava frente para o sol, para a seca e o sertão da Borborema.

* * *

NA BORBOREMA

O Sol desponta ruivo cor de gema,
Iluminando o pico majestoso,
Do gigantesco dorso sinuoso
Da tão acidentada Borborema.

No sopé da montanha geme a ema,
E embaixo o terreno pedregoso,
Ouve-se o canto ingênuo e harmonioso
Da inocente pernalta, a seriema.

Chove, troveja, e o vento forte agita,
A flora se sacode, a fauna grita,
Um raio irado desce e a penha abre.

Agora é tarde, o Sol rubro descamba,
E rodopiando como roda bamba
Apaga a luz detrás da Serra-Jabre.

* * *

SAUDADE SERTANEJA

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

NO SERTÃO ANTIGO

Um moleque no corte assobiando,
Um cavalo pastando na ladeira,
Uma briga de bois na bagaceira,
E um bueiro malfeito “cachimbando”.

Um novilho pé-duro ruminando
Na sombra do oitão da bolandeira,
Um telhado coberto de poeira,
E um rebanho de ovelhas descansando.

Dois bois mansos crioulos atrelados,
Parecidos em tudo, emparelhados,
Vão puxando a almanjarra sem preguiça.

Enquanto várias campesinas belas
Aparecem cantando nas janelas
Duma casa de alpendre à tacaniça.

* * *

DÚVIDA

Nasci! De onde vim é que não sei,
Enfim também não sei para que vim,
Se vim para voltar para que fiquei
Neste intervalo de incerteza assim?

Não foi do pó fecundo que brotei,
Não sei quem tal missão me impôs.
O acaso não foi, já estudei…
Desta incumbência desconheço o fim.

Sou a metamorfose das moneras
Desagregadas nas primeiras eras,
Reunidas hoje nesta luta infinda.

Sou a passagem irreal da forma
Submetida aos desígnios da norma,
Do meu princípio não sei nada ainda.

* * *

PRESSÁGIO

No pé daquele outeiro fumarento
Onde uma ave horripilante ulula
Pressagiando um acontecimento,
Uma jovem “perdida” se estrangula.

Langues sanguíneos tingem o firmamento,
E um nevoeiro acinzentado ondula.
Por um lado do morro já cinzento
0 verde-oliva da ramagem azula.

Uma mulher pejada à fonte desce,
Subitamente o corpo reconhece
Cheia de dó a causa entrega ao bom Jesus.

E diz pedindo a Deus: Ah um aborto!
Se for pra ser sem sorte nasça morto
Este menino que vou dar à luz.

* * *

Um folheto da autoria de Crispiniano Neto

RUI BARBOSA

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Quero contar a história
Verdadeira e gloriosa
De um diplomata de peso
De carreira luminosa;
Um crânio cheio de graça,
O nosso gênio da raça,
O baiano Rui Barbosa.

Rui foi um líder político,
Deputado e senador,
Ministro por duas vezes,
Foi filólogo e escritor,
Tradutor e jornalista
Um consagrado jurista
E um gênio como orador!

Porém existe um detalhe
Nas muitas aptidões
Deste crânio brasileiro.
Que deixou tantas lições:
É seu lado DIPLOMATA,
Onde ele compôs a nata
Do concerto das nações!

Foi aí que Rui Barbosa
Consagrou-se de verdade,
Tornou-se a “Águia de Haia”
Com tal legitimidade
Que armado de mente e lábios
Tornou-se um dos “Sete Sábios”
Maiores da humanidade.

Seu tipo físico era frágil:
Quase anão na estatura.
Um metro e cinquenta e oito,
Setenta e dois de cintura.
Corpo encurvado e franzino,
Fisicamente um menino
Mas um titã na cultura!

Só quarenta e oito quilos
De peso e de sapiência;
A fragilidade física
Escondendo a inteligência…
Mas provou aos seus carrascos
Que “é nos menores frascos
Que mora a melhor essência”!

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O INGLÊS DA VOLTA E OS BRITOS DE PESQUEIRA

Os Britos de Pesqueira, segundo alguns historiadores locais, surgiram todos a partir de uma bela história de amor, vivida por um jovem inglês e uma bela morena sertaneja. Que se encontraram quando aqui aportou lá pelos idos de mil oitocentos e tantos, em busca de aventuras, Richard Breitt, ou Richard Noble.

Veio da Inglaterra com apenas onze anos, escondido num navio comandado pelo tio, de onde havia fugido depois de jogar um tinteiro não cara de um professor na escola em que estudava. E aqui chegando, na primeira oportunidade embarcou para o sertão com um suiço que o abrigara, e foi parar precisamente no povoado de Varas, hoje Jabitacá, na época pertencente ao município de Afogados da Ingazeira. Na fazenda Volta, onde se hospedou, conheceu a linda morena filha do fazendeiro, voltou para o Recife com o suíço e tornou a fugir novamente para o sertão. Casou-se com ela e dali nunca mais saiu, gerando uma prole imensa que vai desde o célebre Adolfo Rosa Meia Noite, que morreu em Malta na Paraíba, debaixo de trinta “bocas de fogo” enfrentando sozinho trinta homens da polícia, até grandes empreendedores que povoaram e desenvolveram o sertão com a implantação de indústrias agrícolas que ficaram famosas em todo o Brasil e até no exterior.

O sobrenome “Breitt” difícil de ser pronunciado pelos nativos, logo virou “Brito” e Richard Breitt, tornou-se Ricardo Brito. Assim surgiram os Britos, todos de pele clara e olhos azuis. Esses galegos herdaram a valentia de um ancestral lendário: Ricardo I, Ricardo Coração de Leão, o rei guerreiro da Inglaterra que se destacou nos campos de batalha na Terra Santa como cruzado. Talvez por isso, os Britos nunca gostaram de levar desaforo pra casa. Aliás, pra lugar nenhum.

Ricardo I que era aliado do rei Filipe Augusto da França, tornou-se seu inimigo por que se recusou a casar-se com uma irmã sua, uma mulher feia chamada Alice. Terminou morrendo de uma flexada que levou no braço por questões de pouca monta.

Apaixonados por cavalos e corridas como manda a tradição inglesa, eram dos Britos os melhores animais que corriam nos “prados” da região e ai do juiz que ousasse desclassificar um cavalo dos Britos, numa competição.

Na década de sessenta, eram numerosos e poderosos numa espécie de aldeia que era a fazenda Ipojuca, atrás da serra de Cimbres, entre Pesqueira e Monteiro na vizinha Paraíba. Em Monteiro os “prados” eram as grandes festas domingueiras e os Britos levavam seus belos animais para competir com os pangarés da região. O público lotava a rua do Matadouro pra ver o espetáculo, que envolvia apostas vultuosas decorrentes do bom lucro que vinha da cultura algodoeira, nessa época já nos seus extertores finais.

O prado era uma festa pra todo mundo, menos para os meninos, que ficavam atrás dos adultos e de lá só traziam cotoveladas e pisaduras nos pés . Não viam nada até por que é um espetáculo muito rápido em função da pouca extensão da pista.

Manoel Bezerra, era o barbeiro oficial da cidade, tinha um salão, no centro, no beco de seu Pedroza Amador, onde além de cortar cabelos era também “queimador de sinal”. O matuto chegava lá com aquele sinal bem feio, ele danava “água forte” e o cabra saía com aquela ferida horrorosa na cara, mas sem o sinal. Se tivesse sorte, escapava.

Um dia chegou um velhinho de um sítio ali perto com um pedido para Manoel: arranjar uma colocação na barbearia para um filho seu que tinha “atenuança” pro serviço de barbeiro e já fazia alguns “caminhos de rato” na cabeça dos cabras de lá .

– Seu Mané, ele fica até de graça, só pra dominar o ofício!

Como havia uma cadeira sobrando no salão, de um colega que tinha feito a “viagem grande”, Manoel aceitou a proposta e Toinho, começou a trabalhar.

Muito aplicado Toinho era também muito inseguro, afinal a clientela era quase toda da rua, coisa mais refinada. Foi não foi, virava pro velho barbeiro para consultar:

– Tá bom seu Manoel?

– Tá sim, tá primeira, respondia o mestre, na maioria das vezes, sem sequer olhar de lado.

Um dia de sábado que antecederia um grande prado no domingo, os Britos começaram a chegar com os seus cavalos e foram tomando a cidade com a sua presença assustadora até por que viravam gigantes juntos dos severininhos nativos. Um deles, com o cabelo batendo nos ombros e a barba atingindo o peito, foi dar lá na barbearia de Manoel, Sentou logo na cadeira de Toinho, abriu a camisa onde deixou aparecer um revólver que mais paracia um canhão .

Toinho assustado com aquele homão ainda perguntou :

– Vai cabelo e barba ?

– Tudo, disse o cliente antes de cair num sono profundo.

O corte ia até bem quando Toinho que já raspara um pedaço do bigode do camarada lembrou-se de consultar Manoel:

– Ele disse bigode também, seu Manoel ?

– Não sei. Pergunte a ele.

Aí a coisa complicou quando Toinho foi acordar o vaqueiro:

– Meu amigo, o bigode também vai, não vai?

O cabra deu um pulo:

– Não toque no meu bigode, você não tá nem doido !

Toinho ainda teve tempo de se virar para Manoel:

– Seu Manoel, segure aí essa tesoura e essa navalha que eu vou ali e volto “jazim”, e saiu levantando poeira no calçamento.