5 julho 2017 FULEIRAGEM

CHICO CARUSO – O GLOBO

A PROSTITUIÇÃO NO BRASIL HOLANDÊS

Da promiscuidade do dia-a-dia, agravada a cada dia com a chegada de um número cada vez maior de aventureiros, dentre os quais um grande número de prostitutas. A sífilis veio a tornar-se uma verdadeira epidemia no Brasil Holandês de então, obrigando cientistas, como os médicos Willem Piso e Georg Marcgrave, autores do livro clássico Historia Naturalis Brasiliae (1648), buscar a cura para tal doença junto à flora medicinal indígena e aos médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana fermentado, através do qual “fica-se curado dentro de oito dias”.

A propagação da lues, como também é denominada a sífilis, era propiciada pelo grande e imenso bordel a que fora transformado o Recife de então. Tal importação vem acontecer logo nos primeiros anos do Brasil Holandês, que recebeu verdadeiros “carregamentos de mulheres perdidas”, como se depreende das cartas do Conselho do Recife.
 
Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos.
 
Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen que “pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalhas da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.
 
O mesmo proceder acontecia com os marinheiros, após travessias de muitas semanas no mar, quase sempre envolvidos em batalhas e refregas. Também acontecia com os homens procedentes dos engenhos de açúcar, que se encontravam no Recife de passagem, longe da vista de suas famílias.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho, bem como outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo panorama de excessos, segundo Pierre Moreau não pode ser descritos por simples palavras.

A terrível problemática habitacional levou a promiscuidade e a consequente dissolução moral da capital do Brasil Holandês contribuindo para a elevação do número de doenças epidêmicas, com o aumento do número de óbitos e a derrocada de sua estrutura política e militar.

5 julho 2017 FULEIRAGEM

ZOP – CHARGE ONLINE

5 julho 2017 DEU NO JORNAL

SÓ QUERIA ENTENDER

Zuenir Ventura

A rigor, não tenho autoridade para criticar a Justiça, já que sou ignorante de suas leis e lógica – eu, a torcida do Flamengo e o porteiro de um prédio da minha rua. Portanto, não ouso discutir suas decisões, só queria entender algumas, até para poder explicá-las ao meu interlocutor matinal quando passo a caminho do calçadão, o porteiro. Temos discordâncias. Ele vivia repetindo que aqui a polícia prende, e a Justiça solta, e eu tentava convencê-lo de que esse Brasil não existia mais. Era aquele em que Millôr dizia: “a Justiça farda, mas não talha”. Hoje é diferente, eu garantia.

Outro dia, no entanto, ele declarou: “O senhor tem razão. Agora, ela mesma prende e ela mesma solta”. Levei alguns segundos para perceber a ironia. Ele se referia ao prende e solta da Justiça, às supremas razões que a razão dos pobres mortais da opinião pública desconhece.

Eu mesmo não consigo explicar como e por que dois ministros do STF beneficiaram num mesmo dia dois políticos já denunciados na Lava-Jato – um, por ter sido flagrado carregando uma mala com R$ 500 mil de propina. O outro, senador afastado, por ter recebido R$ 2 milhões de um famoso corrupto-corruptor. O primeiro voltou para casa com tornozeleira; o segundo foi autorizado a retornar ao Senado com direito a elogio em sua carreira.

Dias antes, o ex-tesoureiro de um partido teve revogada a condenação a 15 anos e quatro meses decretada pelo juiz Sergio Moro. Anteontem, o ex-ministro e “fraterno amigo” do presidente que teria recebido R$ 20 milhões indevidos foi finalmente preso, não se sabe até quando.

Para não dizer que o entra e sai da cadeia só acontece com políticos, há o caso do médico especialista em reprodução humana e em estupro, um crime que praticou 47 vezes em 37 pacientes.

Condenado a 278 anos de reclusão, cumpriu pouco mais de quatro meses e foi solto pelo habeas corpus de um juiz do STF. Aí fugiu para o Paraguai, de onde veio deportado quatro anos depois. Esteve no presídio de Tremembé de 2013 até há pouco, foi solto e uma semana depois preso novamente. Agora aguarda um novo habeas corpus.

A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, prometeu que a Corte “não vai ignorar o clamor por justiça que se ouve em todos os cantos do país”. Maravilha. Mas tomara que não ignore também o clamor por mais concisão e clareza nas doutas decisões, a começar pela linguagem. Por exemplo, ao justificar uma ordem de soltura, um magistrado escreveu: “À luz das atuais circunstâncias, se depreende mitigada a possibilidade da reiteração delitiva”.

Desconfio que o autor quis dizer algo como “No momento, não há risco de novo delito”. Simples assim.

5 julho 2017 FULEIRAGEM

ED CARLOS – CHARGE ONLINE

GOIANO BRAGA HORTA – PETRÓPOLIS-RJ

Berto,

Essa música, Antônia (Todas as Crianças do Mundo), de autoria do Renato Teixeira, é pouco conhecida, mas muito linda.

Alguma coisa na letra, creio que referências a luz, cores e pintura, me faz sempre lembrar de minha mãe, a poeta Maria Braga Horta, que vive na luz desde 6 de abril de 1980, e que também pintava quadros, de modo que durante muitos anos eu tinha dificuldade de cantá-la até o final, quando me apresentava em público, na noite de Brasília, do Rio e de Petrópolis, assim como em outras ocasiões.

Finalmente, ainda que com a lembrança viva, consigo interpretá-la sem que a garganta se feche.

Este singelo vídeo, caseiro, com os defeitos peculiares à produção amadora e solitária, utilizando áudio feito por Marcos Vampa, quer dividir com os queridos leitores, amigos do Jornal da Besta Fubana, a bela composição do admirável músico.

Em tempo, completo: A execução ao teclado é apenas uma brincadeirinha, para não ficar parado enquanto o acompanhamento rola.

Abraço

R. Meu querido amigo, meu estimado colunista fubânico:

Este vídeo que você gravou em memória de sua mãe é uma demonstração de amor filial como poucas

Uma tocante homenagem à grande poeta Maria Braga Horta, cujos sonetos são regularmente reproduzidos aqui no JBF.

É pra confirmar o que vivo sempre a repetir: só tem gente talentosa nesta gazeta.

Vou tomar a liberdade de reproduzir, logo após o vídeo que você nos mandou, um soneto que sua mãe compôs em março de 1956.

* * *

O POETA – Maria Braga Horta

Quando nasce um poeta, é só seu corpo humano,
pois na alma do poeta o infinito vem preso
e o seu corpo não é mais que um verme profano
em que vibra o esplendor do céu, na terra aceso.

E no inútil labor do seu cérebro insano
– sentindo, pela vida, ansiedade e desprezo –
semeia as ilusões e colhe o desengano
e entre a terra e o céu pára o vôo, surpreso.

A alma de cada poeta é um sensível compasso
medindo os sons e a cor, os ritmos e a luz,
procurando o infinito e se abrindo no espaço!

Seu destino, na vida, é um dilema fatal:
ama a terra e ama o céu e em seus versos traduz
a ambição de ser deus e a dor de ser mortal!

5 julho 2017 FULEIRAGEM

SPONHOLZ – JORNAL DA BESTA FUBANA


Mundo Cordel
O EVANGELHO EM CEARÊS: JESUS ACALMA UMA TEMPESTADE (MATEUS, 8;23-27)

Jesus entrou numa jangada e os discípulos não contaram pipoca. Entraram também. Um dos apóstolos ainda cochichou um colega:

– Diabeisso, macho? Que foi que o ômi inventou agora?

– Sei não, macho. Sei que eu tô é dento!

Jesus armou logo uma tipoia lá atrás e deitou-se. Com todo mundo embarcado, o jangadeiro arrochou o nó pra dentro dágua.

Só que, mais na frente, deu o maior bode. Caiu um toró daqueles, de matar sapo afogado. E aí o mar ficou valente. As ondas lavando por cima da jangada, direto. De vez em quando vinha uma e assungava a jangada, que a bicha parecia que ia se desmantelar toda. Depois embiocava de novo num buraco de mar. Os discípulos se aperrearam:

– Vixe!

– Valei-me meu padim!

– Agora pronto! (1)

Enquanto isso, Jesus não dava nem as horas. Tirando o maior ronco, lá na rede.

Até que um dos discípulos, abriu dos pau e foi até Jesus, pedindo penico:

– Meste! Meste! Ó a boca quente que nós tamo, meste! A gente em tempo de se lascar aqui e o sinhô fica é dormino?

Jesus queimou ruim:

– Vocês são um magote de mamanaégua mesmo! Não aguentam uma lebrina!

Aí, olhou no rumo do céu e passou o maior carão:

– Vamo parar com esse chafurdo aí, que eu inda quero dormir até umas horas! Quer chover, vá chover lá na caxaprego!

E a chuva e a ventania se aquietaram que foi uma beleza. A nuvenzona preta, que estava em cima deles botou o rabo entre as pernas, chega saiu murcha.
Jesus foi dormir de novo e os discípulos ficaram naquele zum-zum-zum baixinho:

– Égua, macho, o ômi botô foi quente…

– O chefe aí é invocado mermo… Não abre nem prum trem carregado de pólvora…

– Com um doido em cima, fumano…

* * *

(1) Já escrevi no JBF, sobre a expressão “Agora pronto!”. Veja clicando aqui.

5 julho 2017 FULEIRAGEM

FRANK – A NOTÍCIA (SC)

UMA JUSTA HOMENAGEM!

À todos que porventura tenham estranhado o sumiço deste colunista justifico o motivo a seguir. Àqueles que comemoraram o sumiço da coluna informo que infelizmente terão de me aturar mais um tempo.

Na semana passada fomos surpreendidos pela doença de meu pai. Algo que pegou a todos de surpresa, pois papai parecia um touro de saudável e parecia-nos, até então, apto a cumprir uma promessa que repetia sempre e a todos: comemorar seu centenário em uma festa num puteiro.

É meu velho faltaram-te alguns anos!

Seu Antonio Fernando ou Toninho para a família ou ainda Tatu para os amigos, viveu uma vida justa. A alcunha de Tatu ganhou por ser um caçador inveterado destes animais, mas dizia a todos que era porque ele gostava de viver enfiado num buraco, o que também era verdade.

Trabalhador, honesto e pobre, batalhou para criar e dar aos filhos o melhor que pode. Serviu-nos de exemplo e esteio, o amigo nas horas ruins, o homem que dava conselhos e esporros sempre que necessário.

Meu pai era o que aqui no sul chamamos de índio véio ou nego véio, ou seja, um gauchão típico. Daqueles que usava bombacha quase sempre, não passava sem o mate de manhã e antes do almoço, um trago de quando em vez. Pé de valsa gostava de dançar uma vanera e uma milonga.

Viveu a vida na cidade sempre sonhando em voltar ao campo onde nasceu. Não deu tempo. Homem sério trazia no semblante as marcas da vida e da dureza que é viver, mas sem amarguras. Talvez um ou outro dissabor vindo de mágoas nascidas no seio de sua família, nada mais que isso.

Ao lembrar dele vem a minha mente uma letra de música da cantora nativista Berenice Azambuja:

[…]Churrasco, bom chimarrão, fandango, trago e mulher
É disso que o velho gosta
É isto que o velho quer[…]

Era disso que o Seu Tatu gostava, era isso que seu Tatu queria.

Adoeceu e me chamou. O trouxe para minha casa e no sábado passado escreveu a coluna do JBF comigo. Pediu-me para levá-lo ao médico, levei. Nada grave apenas uma crise nervosa, foi autorizado a viajar, queria ir até minha irmã que mora em uma cidade a 200 km de Pelotas.

O levei até lá. Parecia que queria despedir-se de todos que amava. Dormiu uma noite em minha casa comigo e meu filho, dormiu uma noite em minha irmã com ela e meu sobrinho. Na segunda passou mal, foi internado. Na terça ao fazer alguns exames infartou e fez a passagem.

Me havia dito que estava cansado e queria descansar em paz. Descansou, foi-se sereno e tranquilo como sempre viveu.

Mas não sem antes visitar todos os amigos que cativou. Descobrimos que havia feito isto nas duas últimas semanas quando também deixou seus negócios e contas mais ou menos em ordem. Não gostava de incomodar ninguém, nem mesmo na morte.

Sei que tivemos uma semana pesada na Terrae brasilis, há muito que comentar e criticar, farei um comentário resumido na próxima postagem amanhã. Não vou macular esta homenagem a meu querido pai citando estas pústulas políticas que infectam nossa pátria.

A meu pai digo que ficará a saudade, o amor e o exemplo que nos destes. Te deixo uma oração ou irradiação da lavar do racionalismo cristão:

“Ao Astral Superior

Grande Foco! Força Criadora!

Nós sabemos que as leis que regem o Universo são naturais e imutáveis, e a elas tudo está sujeito.

Sabemos também que é pelo estudo, raciocínio e crescimento, derivado da luta contra os maus hábitos e as imperfeições, que o espírito se esclarece e alcança maior evolução.

Certos do que nos cabe fazer, e pondo em ação o nosso livre-arbítrio para o bem, irradiamos pensamentos aos Espíritos Superiores para que eles nos envolvam na sua luz e fluidos, fortificando-nos para o cumprimento dos nossos deveres.”

Rompeu-se a coluna mas ficou a obra! A árvore frutificou e seus frutos garantirão sua continuidade. Do homem que fostes ficou a memória, o exemplo e o amor que destes à todos nós!

Descanse em paz pai!

* * *

5 julho 2017 FULEIRAGEM

AMARILDO – A GAZETA (ES)

A PÁTRIA

Olavo Bilac, com intromissões deste colunista

O poeta Olavo Bilac, um dos mais significativos representantes do Parnasianismo brasileiro, tem A Pátria como um os seus poemas mais aplaudidos.

Nele, o autor fala de um Brasil de outros tempos, e não destes em que vivemos, razão por que, como meros instrumentos de atualização, introduzimos adaptações em alguns versos, mais condizentes com este país vilipendiado em que vivemos.

Ama, com fé, embora sem motivo para orgulho, este Brasil em que nasceste!
Criança, não verás nenhum país como este!
Aqui verás que céu! que mar! que rios! que floresta!
E um grupo de gente desonesta a surrupiar a Pátria!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
E a sociedade boquiaberta diante de tanto desalinho
É um seio de mãe a sangrar pela ausência de carinho.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
E uma quadrilha de brasileiros desonestos
Vê que grande extensão de matas, onde imperava
Fecunda e luminosa, a primavera!
E hoje não é mais que uma quimera
É só uma terra que nega tudo a quem trabalha
Mesmo o pão que mata a fome e o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a umedece,
Sem ver pago o seu esforço, sem ser feliz, enquanto o ladrão enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Não imita a mesquinhez da terra em que nasceste!

5 julho 2017 FULEIRAGEM

PATER – A TRIBUNA (ES)

ESPERANÇAS PERDIDAS

Para alegrar a nossa quarta-feira, os Originais do Samba interpretando um embalo gostoso de autoria da dupla Davi Moreira e Nelson Custódio

5 julho 2017 FULEIRAGEM

NANI – CHARGE ONLINE


www.cantinhodadalinha.blogspot.com
ÉGUA!!!! QUE FRIO!!!

Eu que sou filha do sol
Amo o calor do sertão
Me vejo toda embrulhada
Com frio nesta estação
Chego até sentir tremor
Debaixo do cobertor
Que não resolve a questão.

Boto meia boto toca
E pijama de flanela
Tranco meu apartamento
Fechando porta e janela
E antes de me deitar
Faço chá para tomar
O de maçã com canela.

Na hora de tomar banho
Eu só tomo banho quente
Antes de entrar no chuveiro
Eu já vou batendo dente
Se esse frio não passar
Pro meu sertão vou voltar
Não tem diabo que aguente.

5 julho 2017 FULEIRAGEM

FERNANDO – JORNAL DA CIDADE DE BAURU (SP)

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

CADA QUAL COM SUA CRENÇA DE SALVAÇÃO

Com muito otimismo, empenho e adjutórios, o chefe da Nação pode até auspiciar salvar-se da encrenca em que se meteu, mas suas faltas, zebuínas, têm carnadura capaz de empurrá-lo para o lado dos irredentos. Se a lei lhe sorrir, será sorriso de favor. Afinal, neste País de caboclo, de mãe preta e pai-joão, os tentáculos da lei se mostram voluntariosos e alongados, ao estilo de um polvo, quando para punir infratores de tostão, porém se molificam e se reduzem, aos padrões de uma lula, ante os infratores de milhão.

5 julho 2017 FULEIRAGEM

BAGGI – CHARGE ONLINE

DUELO DE TANTÃS

De um lado, com a caneta nas mãos, podendo nomear aliados e liberar verbas parlamentares, o presidente Michel Temer; de outro, com o arco e flecha nas mãos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Ambos lutam contra o tempo. Temer precisa resistir no cargo, até 17 de setembro, às investidas de Janot – nesse dia, termina o mandato do procurador-geral. Janot precisa derrubar Temer até 17 de setembro, quando terá de abandonar o comando da cruzada. No dia 18, ambos terão encontrado seu destino: Janot festejando a glória de derrubar um presidente ou amargando a lembrança dos dias em que seu poder era temido; Temer, lutando pela sobrevivência, talvez afastado do cargo enquanto o Supremo o investiga, ou livre para governar – espera-se que com ministros menos alvejáveis.

Livrando-se da tragédia que ele mesmo semeou, ao assumir o Governo ao lado de tipos discutíveis, Temer poderá ancorar sua estabilidade na economia. A inflação está abaixo da meta prevista, as exportações deram um salto, a Petrobras recupera produção e rentabilidade, as estatais deram R$ 10,5 bilhões de lucro nos primeiros três meses do ano. Mas, para se livrar, reduziu as reformas ao mínimo possível. Uma oportunidade perdida. Janot transformou a denúncia contra Temer num jogo tático, dividindo-a, para, se perder uma, ter outra a atrapalhá-lo. Nenhum dos dois, obcecados pela vitória, pensou no país. Para ambos, o Brasil é apenas um detalhe.

Dia D

Temer é acusado de corrupção passiva: seria o destinatário dos R$ 500 mil entregues pelos delatores premiados da JBS ao então deputado Rocha Loures. A entrega da mala de dinheiro foi filmada, e as imagens de Loures correndo com ela até seu carro são inesquecíveis. Temer pretende defender-se dizendo que não era o destinatário da rica mala e desafiando os acusadores a provar que era. A defesa de Temer deve ser entregue à Comissão de Constituição e Justiça ainda hoje. O presidente quer que o plenário decida antes de 17 de julho, quando começa o recesso parlamentar.

Questão de placar

Temer passou ontem algo como 14 horas recebendo parlamentares. Ele precisa de 34 votos na Comissão de 66 deputados para que a denúncia não seja aceita, e tem hoje, calcula-se, entre 25 e 35. Mesmo que tenha 35, a margem é pequena e ele corre risco. Deputados detestam apoiar quem esteja perdendo. Por isso, mesmo tendo na Comissão 44 integrantes de partidos aliados, que indicaram ministros e ganharam cargos, luta para se salvar. No plenário, que votará em julho, salvo imprevisto, o acusador é que tem de conquistar a maioria: são 342 votos. Se o número não for alcançado, a denúncia estará rejeitada. Neste momento, Temer tem folga. Até a votação final, entretanto, há inúmeras possibilidades de mudança.

Firula

O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, diz que, em nome da transparência, exigirá que cada deputado anuncie seu voto no microfone. É jogo para a torcida: os deputados favoráveis a rejeitar a denúncia não precisam votar contra (podem abster-se, ou nem comparecer à sessão). Se 172 parlamentares não comparecerem, todos os demais podem votar contra Temer que não atingirão o número de 342, e a denúncia será rejeitada.

Jogo bruto

Os acusadores têm ainda, entretanto, muitas armas: se o acordo de delação premiada do doleiro Lúcio Funaro for homologado, não se sabe o que poderá dizer sobre Michel Temer e seus aliados mais próximos. Há mais: Geddel Vieira Lima, preso nesta semana, estará disposto a delatar? E Lula? Quais modificações no cenário político pode causar sua condenação ou absolvição pelo juiz Sérgio Moro?

Reforma que reforma

Esta é uma semana movimentada no Congresso: enquanto a Câmara recebe a defesa de Temer, o Senado estará iniciando a votação da reforma trabalhista. É esta reforma que levou dirigentes sindicais à oposição: nela é abolido o Imposto Sindical, grande fonte de receita dos sindicatos e suas centrais. O Imposto Sindical é um dia de salário de cada trabalhador do país, seja ou não filiado a algum sindicato. E sua existência: a) desobriga os sindicatos de representar adequadamente a categoria, já que, com ou sem associados, tem uma bela verba à disposição: b) torna a abertura de novos sindicatos um excelente negócio.

Hoje, temos 15 mil sindicatos no país.

Reforma que não reforma

E é em torno desta reforma que se trama um jogo sujo: há quem diga que o presidente Temer se comprometeu com os sindicalistas a vetar o fim do Imposto Sindical; ou aprovar a reforma e, em seguida, distribuir um agrado permanente aos sindicatos e suas centrais, de maneira a compensar a perda do Imposto Sindical. Pelego de bolso cheio é muito mais dócil.


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