Arquivos de agosto 2017

SEU ALEIXINHO

Era um camarada pequenininho, muito observador e sempre com uma resposta engraçada na ponta da língua. Foi pai do poeta, escritor e grande folclorista Aleixo Leite Filho que, juntamente com o poeta Zé de Cazuza, concentram o conhecimento de toda a história da cantoria e dos grandes cantadores da nossa terra.

Seu Aleixinho tinha uma farmácia em Bom Jesus (hoje Tuparetama), e era procurado pelos matutos dali pra prescrever remédios (quase todos homeopáticos) para os mais diversos males. E se o cabra não tivesse o dinheiro na hora, levava mesmo assim o remédio, o que fazia dele um sujeito estimado por todos . Se não fosse preciso o remédio, o doente levava pelo menos um bom conselho.

Na crença do sertanejo, existem alimentos que não podem jamais ser ingeridos juntos. O leite costuma fazer mal, ou até matar, se for ingerido com uma série de alimentos, com batata, por exemplo. Geralmente eram leite e outras comidas mais requintadas que não podiam ser misturadas com nada, o que foi na verdade uma artifício criado pelos senhores de escravos para que eles não consumissem jamais esses alimentos ditos nobres. Batata com feijão, podia; batata com leite, jamais.

Foi o que aconteceu uma vez, quando no balcão de seu Aleixinho chegou uma mulher do sítio com um menino pra lhe fazer uma consulta

– Seu Aleixinho, esse menino tá com catarro e quer comer melancia. Melancia com catarro “ofende” seu Aleixinho ?

– Se ofende ou não, eu não sei. Agora, que é nojento é muito!

Outra vez veio um camarada procurando um determinado remédio:

– Seu Aleixinho, “prá quanto” é esse remédio ?

– É dez mil réis!

– Virge Maria! E porque o mesmo remédio, na farmácia de seu Lourival Nunes, em São José, é quinze mil réis?

– Sabe por que é meu filho?

– Sei não seu Aleixinho!

– É por que Lourival não tem medo de ir pro inferno não. E eu tenho!

DEMÔNIOS DA GAROA

O CACHORRO TUPI

Uma mulher da família dos Bernardos morava em Ouro Velho e tinha uma filha empregada em São Paulo.

Tinha também um cachorro chamado Tupi.

Isso foi na época daquela guerra em que os americanos invadiram o Iraque com o pretexto de “salvar” o Golfo Pérsico e foi matéria constante de jornais e televisão onde os Ianques aterrorizavam o mundo com o seu poderio bélico.

A gente ligava a televisão e era aquela bola de fogo, eram os salvadores do mundo matando velhos e crianças no Iraque, pra mostrar quem é que mandava.

A moça coitada longe da mãe era toda preocupação com aquela ameaça iminente, chegando pela televisão.

Um dia falando com a mãe pelo telefone, manifestou toda a sua angústia em relação à segurança física da genitora:

– Ô Mãe, essa guerra todinha aí e a senhora não tem medo não?

A mãe respondeu, do alto da sua matuta sabedoria:

– Ah minha filha, eu estando com as minhas portas trancadas e “Tupi” no meu terreiro, não tem guerra que me assombre!