3 outubro 2017 FULEIRAGEM

GENILDO – CHARGE ONLINE


Viajando de Itapeva a Brasília. Com escala em Ribeirão dos Pradas
ESPECIALISTAS EM PASSA-MOLEQUES

Pode ser somente devaneio de um cérebro devastado pela ociosidade, mas, ao ler o livro “Os Meninos de Ouro”, escrito por Daniel James Brown contando os dramas e as tragédias vividas pelos nove integrantes da equipe norte-americana de remo na categoria “oito com” (oito remadores e um timoneiro) que sobrepujaram obstáculos quase intransponíveis para ganhar a medalha de ouro na Olímpiada de 1936 realizada em Berlim, na Alemanha dominada pelo nazismo de Adolf Hitler, me deparei com uma estranha coincidência que aproximava aquela história a um evento acontecido 78 anos depois aqui no Brasil, paralisado pelo petismo de Lula da Silva.

Em terras germânicas, determinado em esconder do resto do mundo o sanguinário projeto de dominação ariana em andamento, a Renânia desmilitarizada já havia sido invadida, o “Fuhrer” viu na grandiosidade daquele evento esportivo a oportunidade perfeita de mostrar às delegações estrangeiras, aos turistas e à imprensa internacional uma Alemanha democraticamente consolidada e voltada apenas para o desenvolvimento do seu povo. No entanto, dissociado do embuste engendrado seguia célere o processo de purificação dos alemães.

Abduzidos pelo carisma do comandante supremo, somente os purificados eram capazes de ouvir a voz tonitruante de Hitler ordenando que se asilassem nas profundezas do nacionalismo inconsequente. Almas ainda adolescentes transbordavam de júbilo. Mentes ainda em formação recitavam extasiadas o mantra vagabundo e assassino que prometia hegemonia e poder, mas que entregaria somente vergonha e dor: “Queremos um povo obediente, vocês devem praticar a obediência. Diante de nós está a Alemanha. Dentro de nós arde a Alemanha. Atrás de nós, segue a Alemanha!”.

Confiante na passividade inglesa, na fragilidade francesa e no desinteresse norte-americano, comportamento que as autoridades dessas nações viriam a lamentar profundamente, incumbiu seu ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, de colocar em prática a mais fraudulenta campanha publicitária até então por ele elaborada, com a única finalidade de mostrar aos críticos do nazismo a face mais bonita do país. Cumpliciado com a cineasta Leni Riefensthal, vendeu com excepcional competência a imagem de uma Alemanha livre do antissemitismo e imbuída da mais pura índole pacifista. Manchetes como “O judeu é a desgraça da Alemanha!”, publicada meses antes pelo jornal “Der Sturmer” foram habilmente trocadas por matérias mais amenas, saudando a igualdade proporcionada pelo esporte e dando boas vindas aos visitantes.

Extasiados com a magnificência alemã encarnada na figura de Hitler, os governantes da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos da América não foram capazes de vislumbrar nas entrelinhas daquelas peças de publicidade a confirmação dos cada vez mais distorcidos anseios nazistas. Não perceberam que a utopia do espírito esportivo havia chegado ao seu destino, onde cerveja e sangue judeu fluíam em abundância e os robôs hitlerianos atormentavam os mortos-vivos. Milhões de Reichsmarks investidos em propaganda conseguiriam sepultar a barbárie em curso nas valas da insensibilidade oficial enquanto perdurasse a competição. Entretanto, tão logo os Jogos Olímpicos terminassem, seus túmulos seriam profanados e os mortos voltariam a perambular pelo cotidiano da Alemanha real.

1936 foi o ano em que Adolf Hitler e Joseph Goebbels aplicaram um passa-moleque nos líderes das nações mais poderosas do planeta.

No Brasil, 78 anos depois, aconteceria uma competição diferente, que transcendia o universo esportivo e se enveredava pelos caminhos nem sempre retos da política. Apesar de distintos, os dois acontecimentos traziam nos seus enredos uma similaridade inquietadora. A busca incessante pelo domínio absoluto.

O desespero batia à porta do Partido dos Trabalhadores. A vitória dada como certa no primeiro turno das eleições presidenciais não se confirmou e a possibilidade de uma derrota no segundo já não mais se apresentava como uma quimera fugaz. Suas principais lideranças tinham ciência de que um fracasso nas urnas traria consequências desastrosas. Além de verem cair por terra o projeto de dominação perseguido com método e perseverança durante os últimos doze anos, sabiam, também, que uma devassa nas contas do governo poderia arrastar quadros de alta patente do partido às barras dos tribunais.

Sem perda de tempo convocaram o ministro honorário responsável pela propaganda do governo e que nas horas vagas emprestava (por 70 milhões de reais!) seus serviços à legenda partidária. Despudoradas quantias de reais foram disponibilizadas para que João Santana elaborasse um plano dedicado a mostrar a face mais bonita do partido. Parido nos laboratórios da hipocrisia e legitimado pelo santanismo desvairado, desembarcava na disputa o protótipo do petista perfeito, inquestionável senhor das virtudes e incontestável proprietário da verdade. Estava inaugurada a temporada de caça ao inimigo, iniciando aquela que seria considerada a mais sórdida campanha de nossa história política.

Apostando na farta distribuições de benesses, na potencialidade eleitoral dos benefícios, na gratidão aterrorizada dos beneficiados e na devoção remunerada da militância, João Santana recorreu a elaboração de filmes tecnicamente primorosos, mas com seus conteúdos deturpados desde a sua criação pelo descompromisso com a verdade vendendo a imagem da presidente competente e enaltecendo a pureza da candidata ética. Espontâneos flashbacks oriundos do longínquo 1936 teimavam em vadiar pela minha memória: “Queremos um povo submisso. Vocês devem implantar a submissão. Diante de nós está o poder. Dentro de nós arde o poder. Atrás de nós segue o Brasil!”.

Perseguindo fielmente as pegadas do seu criador e sentada confortavelmente no colo do seu ventríloquo, a candidata reverberava nos palanques os desatinos perpetrados por aquele que a criara, e, na televisão, reagia ao comando daquele que a manipulava. De dedo em riste e caráter em baixa, acusava: “O meu adversário é o candidato dos banqueiros. “Se ele for eleito, preparem-se para o aumento dos juros”. “Ele é representante da direita”, como se a direita fosse a desgraça do Brasil.

Confirmada sua reeleição, o primeiro ato da presidente foi elevar a taxa de juros. Com mais quatro anos de mandato garantido, mandou o constrangimento às favas e, tresloucada, saiu à procura de algum banqueiro que topasse ser seu ministro da Fazenda. Esperta, absteve-se de comparecer à entrevista coletiva convocada para confirmar o nome do banqueiro Joaquim Levy como ministro da Fazenda do seu governo. Insatisfeita com o tamanho da perfídia imposta aos seus eleitores, convidou a senadora Kátia Abreu, uma das mais importantes representantes da “desgraça do Brasil”, para chefiar o ministério da Agricultura. A utopia do socialismo do bem havia chegado ao seu destino, permitindo fluir em abundância de suas entranhas corrompidas uma torrente inesgotável de mentiras vis e promessas vãs.

2014 foi o ano em que Dilma Rousseff e João Santana aplicaram um passa-moleque em pouco mais de 51% dos eleitores da nação mais poderosa da América do Sul.

A vida passa, a hora passa, até a uva passa. No entanto, mais dia menos dia, em algum lugar da história sempre é barrada a passagem dos especialistas em passa-moleques. O que sobra, então, são só suas biografias. No mais das vezes, degradadas.

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

SINOVALDO – JORNAL NH (RS)

A CONTA DOS ALQUIMISTAS

Neste domingo, a manchete da Folha resumiu a principal descoberta da primeira parte da mais recente pesquisa sobre a sucessão presidencial: VOTO EM LULA RESISTE A ESCÂNDALOS E CONDENAÇÃO. A julgar pela sopa de índices servida pelo Datafolha, a condenação a nove anos e meio de cadeia e as revelações de Antonio Palocci só se prestaram a anabolizar a candidatura do chefão. Ele continua liderando a corrida rumo ao Planalto, agora com 35% das intenções de voto – um salto de cinco pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

E supera com folga todos os possíveis adversários no segundo turno. (Menos Sergio Moro. Mas o juiz da Lava Jato só permanece na lista de concorrentes porque o jornal, alheio aos enfáticos desmentidos do juiz da Lava Jato, faz questão de apresentá-lo como inimigo de Lula, ainda sem partido). No confronto com João Doria, por exemplo, o ex-presidente alcança 48% das preferências, porcentagem bem mais vistosa que os 32% do prefeito. Tudo isso, insista-se à exaustão, segundo o Datafolha.

Na segunda-feira, agora amparada na segunda metade da pesquisa, a manchete da Folha entrou em colisão frontal com o destaque da véspera: MAIORIA NO PAÍS QUER QUE LULA SEJA PRESO E TEMER PROCESSADO. O texto explica que 54% dos brasileiros recomendam a imediata transferência para uma gaiola do farsante que, segundo a Folha da véspera, não fora afetado pelos mísseis disparados de Curitiba. Os alquimistas do instituto precisam desfazer o mistério: anotações no prontuário ajudam ou atrapalham?

Há enigmas estatísticos mais densos. No gráfico com a maior descoberta da segunda-feira, ao lado dos 54% que querem Lula numa cela aparecem os 40% que não veem motivos para prendê-lo e outros 5% que ainda pensam no assunto. (O 1% que sumiu ninguém sabe onde foi parar). Admita-se que os indecisos concluam que Lula deve ficar solto e resolvam votar no condenado. Chega-se a 45%. Admita-se que o mesmo ocorra com o 1% que sumiu. A soma dá 46%. Como chegar aos 48% ostentados por Lula no embate com Doria?

Isso só será possível se 2% dos eleitores acham que Lula deve estar preso e, ao mesmo tempo, governar o Brasil. Quem acha pouco deve fazer a conta em números brutos: 2% significam 1 milhões de cabeças. Os donos da fábrica de pesquisas precisam pesquisar essa imensidão de malucos. É coisa que só existe no Brasil. Melhor: só no Datafolha.

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3 outubro 2017 FULEIRAGEM

CLAYTON – O POVO (CE)

VOZES DO NORDESTE – ZENILTON & GENIVAL

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01 – Bota no toco – (Zenilton) – Zenilton – 1986

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02 – Não despreze seu coroa – (S.Ramos/G.Lacerda) – Genival Lacerda – 1979

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03 – Picada de muriçoca – (Zenilton/João Caetano) – Zenilton – 1983

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04 – Radinho de pilha – (Namd/Graça Góis) – Genival Lacerda – 1979

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05 – A tristeza do jacu – (João Caetano) – Zenilton – 1982

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06 – Mate o véio mate – (J.Gonçalves/G.Lacerda) – Genival Lacerda – 1984

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07 – Deixe comigo – (José V.Silva/José D.Filho) – Zenilton – 1982

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08 – A radiola – (N.Terranova/G.Lacerda) – Genival Lacerda – 1982

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09 – Deixei de fumar – (Durval Vieira/Graça Góis) – Zenilton – 1981

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10 – O chevette da menina – (Durval Vieira) – Genival Lacerda – 1982

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11 – Ela é rica e orgulhosa – (Zenilton/Cesário Silva) – Zenilton – 1985

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12 – Rock do jegue – (Célio Roberto/Bráulio de Castro) – Genival Lacerda – 1979

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13 – A gente tem que ir – (Zé Duarte/Zenilton) – Zenilton – 1986

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14 – Severina xique xique – (J.Gonçalves/G.Lacerda) – Genival Lacerda – 1975

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15 – Eu sou cômico – (João Caetano/Zenilton) – Zenilton – 1986

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16 – Levante o véio – (G.Lacerda/J.Caetano) – Genival Lacerda – 1985

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3 outubro 2017 FULEIRAGEM

JORGE BRAGA – O POPULAR (GO)

3 outubro 2017 DEU NO JORNAL

SANTO E JUSTIFICADO ESTARRECIMENTO

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta segunda-feira, 2, que ficou “estarrecido” com o resultado da pesquisa Datafolha, na qual 54% dos entrevistas afirmaram que apoiam a sua prisão.

Todo dia eles me prendem, todo dia inventam um crime que não cometi“, disse o petista.

* * *

É de estarrecer mesmo.

Elegem com 113% e pedem a prisão do eleito com 54%.

O fato é que a criatividade banânica é uma característica que faz nosso país ter um destaque especial.

Inventar crimes que um multi-réu inocente não cometeu é uma maldade das instituições oficiais, encarregadas da apuração de malfeitos e ladroagens.

Lula acerta na bucha quando diz que “todo dia inventam um crime que não cometi“.

Eu diria mais. Todo dia, não, Lula: toda hora, todo minuto.

Promotores que fizeram concurso, a Polícia Federal, a Magistratura, a Justiça, a Constituição, a Grande Mídia Golpista, a CIA, o Capitalismo, a Burguesia Reacionária, Eles, as Zelites Milionárias, o FBI e,  pra completar esta sacanagem, o povo da rua que responde pesquisas do Datafolha, todos juntos querendo botar no cu de um pobre inocente.

Isto tudo sem contar com uma sacanagem istranjeira conhecida como “lawfare” (vôte!).

Um negócio que, segundo Ceguinho Teimoso botou num comentário, foi inventado pelos zamericanos única e exclusivamente pra fuder a imagem de Lula.

Quem quiser saber que coisa horrível é este tal de “lawfare” antilulista basta clicar aqui para ver um vídeo sobre o assunto.

Aviso logo: vale a pena ver o vídeo. Vale mesmo. Do começo ao fim. Uma obra-prima como poucas.

Querido e amado ex-presidente Lula – homem sincero, probo, ético, honrado e mais honesto que Jesus Cristo -, o Editor desta gazeta escrota presta publicamente solidariedade a você, lembrando uma frase do compositor Dicró: “se tem coisa que não presta, é o tal do eleitor“.

É tudo traidor.

Traíram o nosso ex-presidente desejando, num percentual de 54%, que ele seja preso.

Relaxe, estarrecido Lula. Relaxe ouvindo um pouco de música.

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

GENILDO – CHARGE ONLINE

3 outubro 2017 EVENTOS

PARA OS FUBÂNICOS DE CARUARU – APRESENTAÇÃO DO COLUNISTA JESSIER QUIRINO

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3 outubro 2017 FULEIRAGEM

SPONHOLZ – JORNAL DA BESTA FUBANA

EVOCAÇÃO

Poesia, o outro lado do espelho…

É. Realmente não sabemos o que somos, ou quem somos. Existência/ser; ser/não ser nada. Mas há um lugar/instante – para além de toda filosofia -, onde se pode permanecer sendo: na poesia! (Por certo cada anjo vela por ela…). Nela vivemos: por baixo de coisas como tabuletas (não é mesmo, Fernando Pessoa?), por cima de coisas como tabuletas… (essas nossas asas…), – por baixo/cima da grande e primordial explosão? -, (na pós-explosão?), no Jardim de Proserpina (com Algernon Charles Swinburne), em todos os lagos ( de Alphonse de Lamartine, de Victor Hugo…), por todos os lados (bem espalhados, esparramados…). Nela os homens ocos têm alma (meu caro T.S.Eliot…)! (E já não se teme o reino de sombras da morte?!).

Pois com ela podemos assuntar os dias e libertar a fome. E por ela podemos contar dos desejos do ser e dos medos do não ser. E podemos essas coisas exteriores, e ir por mundos interiores, e falar do que é banal, do que é universal, do que é transcendental e de toda embriaguez. Com ela repelimos os absurdos cotidianos (como um Maiakovski)! Ligamos a poesia e ouvimos música… Podemos nela sentir o cheiro de terra molhada (da terra molhada da pós-hora que vai chover). Ela é ponte entre o eu e o tudo, formando um todo conosco pra nos acudir nos vazios. Saciadora de nossas sedes, de nossas sedes de infinito. Perfeição perfeita do imperfeito em nós, venha com forma ou sem forma.

Pois que: conforma, deforma, reforma, transforma, reporta excessiva e comporta toda construção. Toda plástica e efígie. Toda metáfora. Todo símbolo e figura. Todo lirismo. Toda ode. Toda elegia. Evocadora encantada que permanece mudando. Vara de condão, conto de fadas na realidade do mistério, no mistério real. Imperfeita harmonia. Perfeita desarmonia. Tudo em você cabe. Passeio por tudo. Viagem inteira. Caminhos todos. Paisagens todas. Todos os sítios. Todas as imagens. Todas as metas… Todas as físicas. Metafísicas.

Transcendências… Colírio e fonte da juventude ante a nossa ainda finita imanência do ser; causa de permanência perante a fugacidade das horas, diante do éter das coisas. Receptáculo perfeito dos infinitos quereres, cada ponte no dizer, cada gota de emoção. Pacificadora dos espíritos nas porfias, libertadora nas algemas da alma. Toda emanação tu és, os lampejos tu principias, ó poesia, todo assomo de vir a ser… Asas e berçário das ideias que esvoaçam, acalanto das palavras. Conivente desaguar para os desejos, nascente e foz para as paixões…

Toda esgueirada e furtiva sombra pelas noites, toda chama acesa das manhãs. Tudo que inflama o incêndio e alastra, arroubo que queima e arrebata, ígnea composição que faz arder. Pórtico e brecha para tudo, janela cúmplice que se abre pra olharmos nossos nus e expiarmos por inculpáveis nossos pecados…

Porta aberta, desmesurada, escancarada para tudo! Por ti falam: homens de fé e que duvidam de fé, esperançosos e sem esperanças. Ó Deusa cósmica! Ó Grande mito! Ó Confluência das almas! Ó Harmonia no caos: os surdos te ouvem! Os mudos falam por ti! Os cegos te vêem! Todos te pressentem e sentem teu cheiro e sabor! Unguento e bálsamo nas feridas, lágrima que escorre, pranto que desata junto aos nós em nossas gargantas. Ranger ainda de nossos ossos quando o tempo nos é pó. Plenitude que nos foi concedida… Sem cessar de possibilidades: da língua, do espírito. Alma para o corpo da linguagem. Vestimenta dos homens. Desnudar-se humano.

Olha, poesia, vamos fazer um trato, celebrar um contrato: eu não te deixo. Tu não me deixas. Nunca! Como um marsupial conduz sua cria, te conduzirei comigo! Quero que cresças, mas não te desentranhes de mim. Que não me sejas etérea. Nem me escapes, como água, por entre as mãos. Preciso de ti para falar do indizível! Quero que conspires comigo… E que sejamos escravos um do outro, cúmplices, “escravamente” cúmplices. E assim sigamos pela vida, mundo afora como ciganos. Onde fores, irei. Teçamos juntos nossa teia de inspiração!

Como um mergulhador que mergulhasse num oceano, mergulho na poesia. Estou cheio de imagens e meu corpo presente transcende. Passo por um túnel, vou ao encontro das imensidades, das eternidades em mim. Sou todo sensação. Estou brilhando com as estrelas e nada mais me causa estranheza. Sou todo, estou inteiro. Tudo é maravilhoso! Sou tudo e tudo é. Já nem sou eu, porque somos. Eu e o infinito, o infinito e eu. Eu e o mistério, o mistério e eu. Agora recobro os sentidos do meu tempo presente. Retorno. E espero o momento do mergulho derradeiro…

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

BAGGI – CHARGE ONLINE

3 outubro 2017 A PALAVRA DO EDITOR

PEDOFILIA E PTFILIA

É pra arrombar a tabaca de xolinha a cabeça destes zisquerdóides muderninhos.

Criança percorrendo com os dedos o corpo de um adulto nu, numa exposição de “arte”, é coisa normal.

Normalíssima.

Arte pura.

O canalha deitado no chão – com a piroca ao vento e sendo alisado por uma menina -, deve ser o David mudernosinho de algum Michelangelo banânico. 

Quando acabo de matutar sobre este assunto – pedofilia com patrocínio e liberada por uma autoridade municipal -, o meu pensamento, como num passe de mágica, se transporta pro eleitorado da República Federativa de Banânia.

Saber que um bicho do calibre de Lula já foi presidente deste país (por duas vezes!!!) é também normal neste recanto de mundo macunaímico. Tão normal quanto crianças alisando adultos nus.

Eleger Lapa de Canalha é símbolo do “amadurecimento” do eleitorado altamente politizado de Banânia.

É normal, gente!

Na verdade, cheguei à conclusão de que o anormal sou eu.

Eu que ainda não fui “curado” da capacidade de me espantar.

A capacidade de espanto é uma doença horrível e dolorosa, sobretudo nos dias de hoje.

O ideal é ser indiferente e manso feito um bíblico cordeiro.

Este semana eu estava relembrando uma música que me comoveu desde a primeira vez que ouvi, há muito tempo, lá pelos anos 70.

Uma moda de viola intitulada “Disco Voador“, interpretada por Jacó e Jacozinho.

E, relembrando esta música, me lembrei que Raul Seixas pediu que “parassem o mundo”, pois ele queria descer.

Eu já estou mesmo pensando é em sair do mundo, pegar carona no disco voador exaltado na moda de viola e morar em outro planeta. 

Bem longe desta cambada de felas-da-puta daqui.

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

PAIXÃO – GAZETA DO POVO (PR)

3 outubro 2017 PERCIVAL PUGGINA

DEU A LOUCA NAS MOSTRAS DE CULTURA E “ARTE”

Só alguém excessivamente conservador fica indignado com a exibição a olhos infantis de garatujas representando um homem negro fazendo sexo anal e oral com dois brancos enquanto, na mesma tela, duas pessoas buscam prazeres violentando uma ovelha, uma mulher se diverte com um cão, e, noutro grupo, tudo sugere pedofilia. Só alguém delirante aponta naquelas imagens um traço deliberadamente infantil para atrair olhos de crianças. Só o miserável legado moral da tradição judaico-cristã pode impedir alguém de se empolgar ante o que toscamente manifestam. Só alguém degenerado pelas aberrações da estética ocidental seria capaz de afirmar que tais peças são monstrengos em conteúdo e forma. Como não nivelar em excelência Leda e o Cisne de Leonardo da Vinci e aquela senhora com seu totó? É preciso ter sobre a infância e sua proteção ideias incompatíveis com a modernidade para não compreender o quanto resulta artística e pedagógica a performance de um homem pelado, mãos dadas com um grupo de meninas, ou a de outro deitado, manuseado por criança. É preciso ser muito fascista para não quedar em êxtase estético e comoção espiritual diante da performance de um homem nu ralando o gesso de uma imagem de Nossa Senhora.

Levei nota zero. Errei uma a uma as respostas que os profetas dos modismos dizem esperar, mas sei que meu gosto não faz norma e este é um país livre. Contanto que se protejam as crianças e não sejam cometidos quaisquer crimes, “o que é de gosto regala a vida”. Exibam, façam e curtam o que bem entenderem! Lambuzem-se em porcarias! Mas me permitam dizer: vejo uma clara matriz política e ideológica nessa sequência de episódios e na linha de zagueiros que os protege mesmo quando crimes são praticados. Todos se posicionam bem à esquerda do bufê ideológico, num tipo de esquerdismo que disso se alimenta. Tais exibições são manifestos políticos de seus militantes, dedicados à empreitada de destruir as bases da cultura ocidental, sem o que não prosperam suas ideias e projeto de poder. Não é por acaso, então, que as obras põem alvo no cristianismo, na educação e na infância. Atuam na imprensa, em instituições públicas ligadas a Direitos Humanos, nos meios culturais e na liberação de recursos da LIC inclusive para o Queermuseu, em vista de sua declarada finalidade pedagógica…

Não defende a infância quem, em nome de alguma liberdade, a exponha à libertinagem, nem protege a arte quem atribui esse nome a qualquer aleijão. Muitos que, em funções de Estado, deveriam estar na linha de frente protegendo a infância, e em atividades culturais defendendo a arte, sacralizam o profano e o execrável enquanto, sob suas vistas, o sagrado é profanado e crimes são cometidos.

Affonso Romano Santana, em entrevista a Adroaldo Bauer em Porto Alegre, no ano de 2008, não hesitou: “Lamento muito informar que ao contrário do que se acreditou no século XX, a arte não acabou, a arte é uma fatalidade do espírito humano e arte não é qualquer coisa que qualquer um diga que é arte, nem é crítico qualquer um que escreva sobre arte”.

Os fatos a que me referi se desenrolam sob nossos olhos, numa cadência cotidiana de avanços que confiam na tolerância de uma cultura superior que querem destruir. Há neles um núcleo comum, um objetivo final essencialmente mau para a arte, para sociedade, para as famílias e para as crianças.

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

MIGUEL – JORNAL DO COMMERCIO (PE)

WASHINGTON LUCENA – VISTA SERRANA-PB

Mote e glosas de Washington Lucena

O pincel que a seca pinta
O quadro do sofrimento
Pintando a todo momento
Sem trocar a cor da tinta.
Sertanejo aperta a cinta
Nos maus tratos do verão
E por não ter condição
Deixa vazia a panela
E a seca desbota a tela
Que a chuva fez do Sertão.

O trovão não toca mais
A canção do nevoeiro
Olha tristonho o vaqueiro
A fome dos animais
Não tem gado nos currais
Já morreram sem ração
E o vaqueiro sem gibão
Chora no pé da cancela
E a seca desbota a tela
Que a chuva fez do sertão.

A seca tem devastado
O bioma sertanejo
E trazendo malfazejo
Como a força do tornado
O sertão tem o legado
De seca com destruição
E a faca da precisão
Corta fazendo sequela
E a seca desbota a tela
Que a chuva fez do sertão.

A seca tomou de conta
Matando a relva da terra
E o cinza do pé da serra
Toda paisagem remonta
O sertanejo se afronta
Por não ter mais alazão
E nas cenas desse chão
A fome vira novela
E a seca desbota a tela
Que a chuva fez do Sertão

O Sertanejo tem garra
Pra cortar palma e cardeiro.
Cortando o desfiladeiro
Ouvindo o som da cigarra
No nascente não tem barra
Nem o estrondo do trovão
E a zuada do carão
Nunca mais ouviram ela
E a seca desbota a tela
Que a chuva fez do Sertão

3 outubro 2017 FULEIRAGEM

SINFRÔNIO – DIÁRIO DO NORDESTE (CE)

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXIX

Rossini Ferreira 1919-2001

Rossini Ferreira nasceu em Nazaré da Mata, em 7/7/1919. Músico e bandolinista. Filho do clarinetista Antonio Sabino, mestre de banda de música em Timbaúba e Nazaré da Mata, teve contato com o bandolim ainda criança e tirava os sons “por intuição”, conforme afirmava. Aos 12 anos, a família mudou-se para o Recife e, aos 17, formou o primeiro grupo, um conjunto vocal que imitava o “Bando da Lua”, que acompanhava Carmen Miranda. Aprendeu a tocar sozinho seu instrumento.

Na década de 1930, com a ascensão do rádio como meio de comunicação de massa, emergiram os grupos regionais. Os programas aconteciam nas rádios com música ao vivo, interpretada por grupos que tinham na figura de um dos instrumentistas – geralmente o mais performático dos solistas – a liderança do regional. Na Rádio Clube de Pernambuco, o som do regional e da orquestra era ditado pelo flautista Felinho. Quando este se afastou, Rossini deixou o Bando Pernambucano para se integrar ao cast da rádio. Ele se orgulhava ao recordar que tocava contratado como funcionário. “E de carteira assinada”.

A atividade de músico, no entanto, começava somente a partir das 20h. Durante o dia trabalhava no Setor de Carteira de Resseguro da empresa Seguradora Indústria e Comércio. “Naquele tempo não se ganhava dinheiro como músico”, explica. “Jacob (do Bandolim) mesmo, era escrivão em cartório”.

Em 1959 empreendeu uma lendária viagem de músicos pernambucanos ao Rio, onde foram recebidos com honras na casa de Jacob do Bandolim, numa reunião com músicos do porte de Radamés Gnattali, Pixinguinha, César Farias e o então garoto Paulinho da Viola. Dez anos após a viagem veio a morar no Rio de Janeiro, onde ganhou diversos concursos de choro, como o “Brasileiro”, promovido pela TV Bandeirantes. Aos 70 anos de idade foi convidado a voltar à Recife para lecionar no Conservatório Pernambucano de Música e ser solista de um dos mais geniais grupos instrumentais brasileiros, a “Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco”.

Nesta orquestra gravou um LP pela Funarte, posteriormente lançado em CD. Possui ainda um CD com 20 composições suas, gravado pela Kuarup (KCD 098) em 1999. Autor de dezenas de choros, maxixes, valsas, scottish etc. seu colega W. M. Santos editou em 1996, em Campina Grande, um livro de partituras com 55 composições suas. Recife é reconhecido como uma das “sedes” do choro, e ali estão alguns dos melhores bandolinistas da história da música brasileira, como Luperce Miranda e Rossini Ferreira.
Foi autor de uma obra invejável, grande parte desta inédita em gravação e publicação, e que merece maior atenção das gravadoras e editoras. A exemplo da maioria dos chorões de sua geração, o bandolinista teve que dividir as atividades de músico autodidata com profissões fora do perímetro artístico. Ainda assim, aposentado, mostrou-se aberto a novos desafios, como o de aprender a ler música e lecionar, já septuagenário. Faleceu em 16/3/2001.


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