GEOGRAFIA DAS MÚSICAS – “PINDURADO NO VAPOR”

“Pindurado no Vapor”: o rock rural magistral de Sá, Rodrigues e Guarabyra

“Pindurado no Vapor” é uma das mais lindas melodias produzidas por Sá, Rodrix e Guarabyra, o ponto alto do movimento de rock-rural brasileiro. Tomo a liberdade de chamá-los de fundadores da road-music nacional, mesmo que a viagem seja de trem ou de vapor.

O trio aparece num momento pouco antes ou pouco depois, do ocaso precipitado do samba-canção, da nova onda, a bossa-nova, da música de protesto, dos festivais, da psicodelia e por aí vai.

Ecológicos de primeira hora, poetas do vento, do pó da estrada, e da madeira dos vapores, sabiam da importância das matas ciliares e da necessidade da conservação de um Brasil rural, por preservação e contemplação.

É possível que tenham deixado escola – Renato Teixeira, Almir Sater e indicado professores – Helena Meirelles – mas como eles e com tanta qualidade não vi tantos.

Sá e Guarabyra – já sem a presença fundamental de Rodrix – continuam na estrada e nos palcos, pois os rock-rural ainda não acabou.

“Pindurado no Vapor”, Sá Rodrix e Guarabyra (1973)

Em Pindurado no Vapor, os três cantores-compositores-músicos-arranjadores, descrevem uma longa e aventureira viagem no vapor Benjamim Guimarães (o úlimo a funcionar), de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a Pirapora, em Minas.

Foram cinco dias pendurados no vapor, subindo a correnteza do rio São Francisco. Ninguém registrou isso melhor do que eles..

Velho Chico: Trecho entre Bahia e Minas Gerais

O ‘Benjamim’, foi um dos três últimos dos tradicionais vapores que há mais de um século, desde 1871, singravam as águas do rio São Francisco. Na época, os vapores tinham extrema importância para o transporte de passageiros e mercadorias, atuando como forte fator de integração social e econômica no país.

Vapor que fez o trajeto Bom Jesus da Lapa-BA a Pirapora-MG

Esse tipo de embarcação se tornou parte integrante da paisagem, compondo a cultura e o imaginário popular de todo o trecho médio e alto da da Bacia do São Francisco.

Chegaram a coexistir mais de 30 vapores de linha, fazendo o trajeto de Pirapora, em Minas, até os sertões nordestinos.

Em meados do século passado, foram considerados obsoletos e antieconômicos.

Substituídos por rebocadores a diesel, foram enconstados, sucateados e desmantelados. A hegemonia do transporte rodoviário foi o golpe de misericórdia.

Para quem não conhece, vale a pena escutar com atenção o som dos meninos. Um bônus com outros trabalhos do trio:

Casa no Campo/Caçador de Mim/Espanhola

Semana que vem, tem mais..

2 comentários

    • C Eduardo em 8 de maio de 2018 às 11:02
    • Responder

    Paty Not Set do Alferes, 07/05/2018

    Eu havia planejado uma viagem nos gaiolas que ainda funcionavam na década de 70. Infelizmente, por motivos de trabalho e estudo não consegui fazer esse trajeto na época. No ano de 1999, resolvi fazer o percurso por terra, com automóvel e passei uns 20 dias percorrendo o mais próximo possível o Véio Chico. Foi uma aventura inesquecível. Guardo boas fotografias e lembranças muito divertidas daquela viagem. Gostaria de refazer o caminho para conferir a situação atual do Rio da Integração.
    Numa travessia de balsa na altura de Carinhanha, ou Manga (se não estou enganado) houve uma situação curiosa e engraçada. Eu estava num gol branco esperando a balsa para atravessar num lugar absolutamente improvisado e percebi um sujeito atrás da moita observando. Achei que fosse assalto. Na verdade era um caminhoneiro escondido, também esperando para atravessar (para fugir da fiscalização). Ele achando que eu era fiscal, com medo de mim e eu com medo dele achando que era ladrão. No final atravessamos conversando e dando risadas.
    Essa matéria me trouxe boas recordações.
    Valeu Quincas.

    • Eva em 8 de maio de 2018 às 12:25
    • Responder

    Quincas,

    Você tem razão , quando diz, que “Pendurados no vapor “de Sá, Rodrix e Guarapira, é uma das mais belas canções, do grupo. Ela nos faz viajar no “vapor”, pelas águas do Velho Chico.
    E cá entre nós, o acervo de músicas do grupo, é algo fantástico.
    Bela crônica!

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