No ponto onde o mar
se extingue
e as areias se levantam
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra
e levantaram seus muros
do frio sono das pedras.
Depois armaram
seus flancos:
trinta bandeiras azuis
plantadas no litoral.
Hoje, serena flutua,
metade roubada ao mar,
metade à imaginação,
pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Carlos Pena Filho

Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro”, na descrição da Prosopopea (1601) do poeta cristão-novo Bento Teixeira, escrita em Pernambuco na segunda metade do século XVI, seria a origem humilde da povoação do Recife.

Situada no cruzamento do paralelo, a oito graus e três minutos e 45,8 segundos de latitude sul, e do meridiano a 34 graus e 52 minutos e 14,8 segundos, de longitude oeste, a Barra do Arrecife, assim chamada no Diário de Pero Lopes de Souza (1532), veio a ser a Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios, a que se refere o donatário Duarte Coelho Pereira em sua impropriamente chamada carta foral de 12 de março de 1537, uma minúscula povoação de mareantes e pescadores que viviam em torno da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles denominada de Corpo Santo.

Era o Recife um porto por excelência, o de maior movimento da América Portuguesa, escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco. Tal riqueza logo despertou a cobiça da Holanda que, em guerra com a Espanha, voltou suas atenções para o açúcar, produzido por 121 engenhos e exportado através desse porto.

Em 14 de fevereiro de 1630, utilizando a maior esquadra que até então cruzara a linha do Equador, formada por 65 embarcações e 7.280 homens, os holandeses vieram se instalar na antiga Capitania Duartina, iniciando uma dominação que se estendeu até janeiro de 1654.

Durante 24 anos, passou o Recife de povoação acanhada do século XVI e início do século XVII a capital do Brasil Holandês. Foi tanto o crescimento do primitivo Arrecife dos Navios, foram tantos os melhoramentos obtidos, particularmente durante o governo do conde João Maurício de Nassau (1637-1644), que, mesmo após a expulsão dos holandeses (1654), o Recife jamais voltou a depender de Olinda. O Povo dos Arrecifes era coisa do passado. O primitivo porto veio a ser disputado até pelos governadores que teimavam em ocupar o Palácio de Friburgo, construído pelo conde Nassau na primitiva ilha de Antônio Vaz, deixando de prestar assistência à sede da capitania, Olinda, motivando assim os reclamos junto ao rei de Portugal.

Para o recifense, no Bairro do Recife encontra-se a origem de toda a cidade. No subúrbio ou mesmo nos bairros centrais de Santo Antônio e de São José, é comum a expressão como referência certa ao nascedouro do antigo Arrecife dos Navios: Lá dentro do Recife …

Quem chega a Pernambuco, ao começar seu roteiro, vai logo ao encontro do velho bairro do Recife: Ali é que é o Recife/mais propriamente chamado.

Em torno dele, ao longo de seu porto, com os seus 3.000 metros de cais acostável, estão as origens do povoamento do Recife quatrocentão. Dele se avistam as ondas quebrando sobre a muralha dos arrecifes, ponto onde o visitante sentirá na alma os versos do cristão-novo Bento Teixeira, escritos ainda nos primeiros anos de nossa colonização:

Hé este porto tal, por estar posta,
Huma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva;
Antre a praya, e pedra decomposta,
O estranhado elemento se diriva,
Com tanta mansidão, q. hua fateyxa
Basta ter à fatal Argos anneyxa.

Prosopopea (1601)

Ao contemplar esta muralha, o sábio inglês Charles Darwin (1809-1882), autor da Teoria da evolução das espécies, que esteve no Recife a bordo do navio H. M. S. Beagle, aportando em 12 de agosto de 1836, assim registrou no seu Diário¹:

O objeto mais curioso que observei nesta vizinhança foi o recife que forma o ancoradouro. Duvido de que em todo mundo haja outra estrutura natural que apresente aspecto tão artificial. Percorre uma extensão de vários quilômetros em absoluta linha reta, paralela à praia e pouco distante desta. A largura varia entre 30 e 60 metros e tem superfície nivelada e macia; compõe-se de arenito duro de estratificação obscura. Durante a preamar as ondas se quebram sobre ele, mas na vazante a parte superior fica seca, de sorte que se apresenta como um quebra-mar construído pela mão de ciclopes.

Depois de afirmar que a formação dos arrecifes da costa pernambucana se deve a um aglutinado de restos de animais marinhos, “pelo sucessivo crescimento e morte das pequenas conchas Serpulae, juntamente com algumas bernaclas e nulliporae”, conclui:

Esses insignificantes seres orgânicos, especialmente as Serpulae, prestam excelente serviço ao povo do Recife; pois, sem o auxílio da sua proteção, a barreira de arenito, de há muito, teria sido inevitavelmente destruída, e sem essa barreira nunca haveria de existir um ancoradouro.

Para a construção do atual Porto do Recife, observa Tadeu Rocha², “alteou-se a muralha dos arrecifes, construíram-se quebra-mares, fizeram-se extensos cais, ergueram-se armazéns e montaram-se guindastes. No dia 12 de setembro de 1918, o vapor São Paulo, do Lóide Brasileiro, acostou ao novo cais de cabotagem. E em 2 de outubro de 1924, o paquete Gelria, do Lóide Real Holandês, atracou no cais de dez metros, sob os aplausos do povo que acorrera ao porto para receber o belo transatlântico”.

As suas obras, porém, já eram consideradas conclusas em 15 de abril de 1922, quando o Arlanza, transatlântico inglês de 14 mil toneladas, atracou no seu ancoradouro interno.

O Recife, a exemplo de outras cidades portuárias, nasceu e se desenvolveu em torno do seu porto, segundo ensina com muita propriedade o também recifense Josué de Castro:

A cidade nasceu como porto e a serviço imediato do porto. É este um dos seus aspectos mais singulares: em regra, constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso, levantaram os holandeses uma cidade para servir a seu porto. O seu primeiro fator de progressão foi o crescimento desse porto a serviço de uma região fértil, onde a indústria açucareira prosperava a largos passos. Foi o açúcar produzido nos solos aluvionais e de decomposição do Nordeste, nas famosas terras de massapê, da chamada região da Mata, que constituiu, desde o começo e durante quase todos os períodos da história nordestina, o fator fundamental de propulsão e de evolução da cidade do Recife. Foi no Vale do Capibaribe, nas suas margens alongadas em várzeas fecundas, que se iniciou o plantio da cana no país – plantio que se mostrou de logo extremamente vantajoso. Quando os holandeses se preocuparam em invadir Pernambuco, fizeram-no antes de tudo atraídos pelo cheiro do açúcar, produto tão disputado na época pelos mercados mundiais, e aqui chegando assentaram na entrada do vale cultivado para receberem, o mais diretamente possível, o produto da região, transportado em barcaças através do próprio rio. […] A localização desses engenhos e de outros, plantados no Vale do Beberibe, tiveram uma extraordinária influência na direção que tomou a cidade em sua evolução. Como já tivemos ocasião de aludir, anteriormente, o Recife viveu, desde suas origens, sempre atraído por duas seduções opostas: pela atração do vasto mar salpicado de caravelas e pela atração do ondulado mar dos canaviais espalhados nas grandes várzeas³.

As obras do Porto, desenvolvidas entre 1908 e 1924, fizeram passar o Recife por uma grande reforma urbana. Seculares prédios do seu bairro portuário, testemunhas do crescimento do velho burgo desde os primeiros anos da colonização, alguns deles da primeira metade do século XVI, vieram ceder lugar às novas avenidas Alfredo Lisboa, Rio Branco, Marquês de Olinda e Barbosa Lima, e Rua Álvares Cabral, parte das ruas Vigário Tenório e Bom Jesus, com novo traçado.

Com tais demolições também sumiram da paisagem, em outubro de 1913, a Igreja do Corpo Santo, também conhecida por São Telmo (Santelmo), por conta do seu padroeiro São Frei Pedro Gonçalves, cujos primórdios datavam do início da Capitania Duartina. Quatro anos mais tarde, foram demolidos os arcos de Nossa Senhora da Conceição e Santo Antônio, que se encontravam desde o século XVIII nas cabeceiras da Ponte do Recife, Maurício de Nassau.

A paisagem vista do porto, com as ondas arrebentando-se contra os arrecifes e os grandes navios cruzando a entrada da barra, inspirou certa vez o pintor Cícero Dias ao dar nome a uma das suas obras: Eu vi o mundo! Ele começava no Recife…

Sob a inspiração daquele pintor, a antiga Praça do Comércio recebeu, em dezembro de 1999, uma nova roupagem, obedecendo ao traço do arquiteto Reginaldo Esteves, que a transformou numa grande esplanada, de cerca de 7.000 metros quadrados, cercada de bancos em granito e 32 bandeiras azuis, a relembrar o poema de Carlos Pena Filho, tendo no meio uma rosa-dos-ventos concebida pelo mesmo Cícero Dias. No seu centro, foi fixado o atual Marco Zero, um disco de bronze, de 105 cm de diâmetro com uma singular inscrição:

DESTE MARCO PARTEM AS DISTÂNCIAS PARA TODAS AS TERRAS DE PERNAMBUCO – ANO 2000.

No mesmo disco estão fixadas as coordenadas de localização do Recife, no cruzamento do paralelo de 803’45,8”, de latitude sul, e do meridiano de 34052’14,8”, de longitude oeste, e a altitude de 4.700 metros acima do nível do mar.

Para esta praça, oficialmente denominada de Praça Rio Branco, convergem as Avenidas Marquês do Recife, Rio Branco e Barbosa Lima, que têm por esquinas os prédios do Espaço Cultural Bandepe, Associação Comercial e a antiga Bolsa de Valores, exemplos da arquitetura eclética que tomou conta do Bairro do Recife no início do século XX. Estes exemplos de ecletismos se destacam pela homogeneidade de suas edificações, em sua maioria dotada de três e quatro pavimentos, representando um estilo que marcou o Brasil no início do século XX, no qual predominam exemplares desta escola inspirada na arquitetura europeia de então.

Do lado leste da praça, sobre a muralha dos arrecifes, o arquiteto Reginaldo Esteves projetou um parque de esculturas, entregando sua realização ao artista pernambucano Francisco Brennand, que o concluiu no ano de 2001.

No extremo sul da praça, ergue-se a estátua pedestre do barão do Rio Branco, inaugurada em 19 de agosto de 1917. A peça em bronze, confeccionada em Paris com 280 cm de altura, é obra do escultor francês Félix Charpentier, tendo sido, na época, colocada sob um pedestal, com 420 cm de altura, esculpida em pedra por Corbiniano Vilaça.

O conjunto de construções do Bairro do Recife vem a ter sua importância reconhecida em 1998. Nesse ano, por decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em reunião realizada em 14 de março, no Rio de Janeiro, que teve como relator o professor Joaquim de Arruda Falcão, o Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico do Antigo Bairro do Recife veio a ser considerado Monumento Nacional, nos termos do Decreto-lei n.º 256, de 30 de novembro de 1937. Em 28 de julho do mesmo ano, a decisão daquele colegiado foi homologada pela Portaria n.º 263, assinada pelo ministro da Cultura, Francisco Weffort.

O velho bairro, porém, tem outros encantos, que o olhar do cidadão comum por vezes não registra, havendo até quem o veja como uma República, uma espécie de Vaticano dentro da cidade do Recife. Com esse espírito o vislumbrou Gustavo Krause, que antes de ser prefeito, governador e ministro, é também boêmio e poeta do Recife e assim, legislando em causa própria, escreveu a Constituição da República Independente do Bairro do Recife.

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¹ DARWIN, Charles. “A muralha de Pedra”. In: O Recife: quatro séculos de sua paisagem. Leonardo Dantas SILVA e Mário SOUTO-MAIOR. (Organizadores). Recife: Editora Massangana, 1992. p. 166.

² ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes). 4. ed. Recife: ed. do autor, 1972. Ilustrações de Hélio Feijó.

³ CASTRO, Josué. Fatores de localização da cidade do Recife. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947. p. 65-66.

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