Para nós que gostamos de escrever e temos oportunidade de publicar, cabe comentar modos de vida de tantos anos passados, neste caso, o comportamento dos meninos entre 10 e 15 anos, que viveram em 1950.

Já se disse que em certo momento se chega a uma fronteira de vida. A fase em que a gente nota que de repente, tudo fica restrito; como se notássemos que a vida se transforma num nada.

É o tempo da maturidade. Dos acertos de consciência. De dar um balanço e verificar o que vai perdurar; o que poderemos deixar para os nossos pósteros; o saldo do que ficará para servir de amostra do que fomos.

Assim, para quem ultrapassou a fronteira das oito décadas de existência, vale transmitir ao leitor de hoje, partes de tempos vividos, quando tudo era diferente; o Recife sombreado e bucólico. Até parece que estamos vivendo em outro mundo.

Vale conhecer para avaliar e comparar. A exemplo, na década de 50, quando eu tinha 12 anos, o grande divertimento semanal eram as matinés de domingo principalmente no Cinema Eldorado, de Afogados, tão ansiosamente esperadas.

Cinema Eldorado

Projetado especialmente para ser sala de cinema, teve a construção a cargo do engenheiro Jorge Martins Jr. e foi inaugurado em 1937, com capacidade para 790 pessoas.

Ali entravamos no mundo-maravilha que a cinematografia americana oferecia aos nossos olhos ávidos por emoções e conhecimentos do que se passava nos “outros mundos”. Os filmes surgiam acompanhados de lindas músicas que ficariam para sempre em nossas memórias.

Mas havia impedimentos. Quando os filmes eram impróprios para menores de 14 anos, notava-se a presença de um policial; um homem enorme, mal encarado, de chapéu atolado na cabeça; o cão em pessoa, conhecido como “Investigador de Menores”, que se postava na fila da bilheteria para impedir as transgressões.

O policial conhecia nossas idades pelas faces e nos “barrava”. Éramos porém solidários. Se um dos quatro do grupo fosse barrado todos sairiam da fila.

Acabava-se nossa “festa” se o filme não fosse “Sensura Livre.” Aí, a única saída era ir a pé para o bairro do Prado, a fim de assistir gratuitamente as insípidas corridas de cavalos, coisa para nós sem emoção nenhuma.

Hoje, temos o cinema e os jogos eletrônicos na ponta dos dedos; sem restrições nem “Investigadores de Menores”. As crianças vão absorvendo tudo quanto é ruim sem quaisquer censura dos pais. Como serão nossos bisnetos amanhã diante de tanta facilidade de escolhas?

Dos tempos vividos observo que o majestoso prédio do Eldorado se transformou numa igreja evangélica e os meninos de hoje não têm pavor a Seu Abelardo, o “Investigador de Menores”.

Todavia, s tempos e modos não se misturam. São bem diferentes entre si.

7 Comentários

  1. Meu caríssimo cronista Carlos Eduardo Carvalho:

    Já estava com uma saudade da porra de suas Crônicas Cheias de Graça, onde o nobre amigo rememora casos, causos, cousas e histórias do passado com uma riqueza de detalhes de fazer inveja aos melhores contadores de história de pescaria!

    O INVESTIGADOR DE MENORES está supimpa! Dá de dez a zero em Barrados no Baile!

    Parabéns pela excelente crônica!

  2. Cícero,
    Seu comentário funciona como um Ibope, onde avalio o que escrevo.
    Por isso, mais uma vez, lhe agradeço e informo que tomei boa dose do seu “estimulante”.

    E aproveitando a deixa me lembro de um dos “reclames” divulgados pela Rádio Clube de Pernambuco, quando eu era ainda pixote:, de responsabilidade do Laboratório Cícero Diniz, que era um instituto de análises clínicas que tinha sede em Serra Talhada e depois veio para a Capital, onde se expandiu, tornou-se indústria farmacêutica e lançou um xarope., cujo nome não me lembro, mas ganhou mercado pela qualidade e inusitada propaganda..

    Era um famoso remédio composto de alho do mato e uruçú. O que ficou na memória foi a forma como o locutor José Renato o divulgava: “O melhor xarope para tosse. Um produto do Labortório “Cicer-ó D. Diniz”. É tiro e queda.” E com relação ao seu nome o tema veio à tona.

    Aquele abraço.

  3. Carlão

    Eu não estou na caso dos 80; ainda não entrei nos 70, mas estou perto e passei pela mesma experiência no cinema de Garanhuns, que também se chamava Eldorado. Enfrentava o olhar desconfiado do guarda na porta e falsificava documentos para assistir os filmes com censura aos 10 anos. Como os filmes chegavam bem mais tarde no interior, assisti muitos filmes da década de 1930 e 1940. Por isso, quando falo pros amigos que meu ídolo cowboy na infância era Gary Cooper, eles estranham e perguntam, mas quantos anos você tem?

    • Assuero: Uma pena mesmo! Os prédios onde existiam os cinemas antigos e que fecharam para abrir supermercados ou edificações condominiais, tudo bem, geraram empregos e muitos empregos! – é o progresso controlando tudo – , mas, os que foram derrubados ou reformados para abrigarem igrejas evangélicas e quejandos para roubarem o povo desassistido, fudido e mal pago, que morre exterminicamente nas filas dos SUSs ou está ali como cabo eleitoral de pastores ladrões visando serem eleitos para quaisquer cargos para roubarem essa mesma gente?

      É triste, mas é a realidade dos tempos modernos!

  4. Por falar no cinema ELDORADO, Por ter hoje 1,80m de altura, quando meninote, nunca tive problema de assistir aos filmes nos matinés ou mesmo noturnos por já ser um gaiolão no tocante à altura. Lembro-me do primeiro filme de cowboy que assisti no cinema ELDORADO de Garanhuns-PE. Chamava-se: “DJANGO, O BASTARDO” com Anthony Steffen e depois vieram grandes películas com o próprio Django, Ringo, Sartana, Sabata, o gaiato George Hilton e o excelente Clint Eastwood…

    A propósito, em se falando de Anthony Steffen, a plateia dos cinemas Eldorado, Jardim e Veneza, da minha cidade, ficava radiante e na ponta dos cascos quando Anthony Steffen entrava em cena, envolto num poncho surrado e com aquela barba por fazer, iniciava-se o tom de algum instrumento penoso, aflitivo e torturante de fundo – um trompete, quase sempre – e a massa já sabia que o pau ia correr solto… ERA UM DELÍRIO PRA GALERA JUVENIL!!!

  5. Coloque lá na postagem, no espaço destinado aos comentários.

    Seu Berto,

    Sei que há razões para não se publicar os e-mails dos articulistas e comentaristas, mas, como minha última crônica – O INVESTIGADOR DE MENORES – mereceu comentários que só vi em dias seguintes, gostaria de que os comentaristas soubessem que agradeci.

    Por isso, peço encaminhar aos mesmos ou me mandar os endereços para que eu o faça:

    Altamir,

    Cícero Tavares e

    Maurício Assuero.

    Do Brito, em tenho:

    Segue a mensagem:

    Caros Altamir, Cícero, Maurício e Brito.

    A todos agradeço e informo que me envaidece a leitura e os comentários.

    Fiquei feliz em constatar que o tema motivou lembranças.

    Carlos Eduardo Carvalho dos Santos

    santosce@hotmail.com

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