Linduarte Noronha nasceu em Ferreiros, Pernambuco, em 1930. Advogado, professor, jornalista, critico de cinema e, principalmente, cineasta. Foi o precursor do “Cinema Novo”, na opinião dos cineastas, incluindo Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. Trabalhou como jornalista e critico de cinema nos jornais da Paraíba, onde tomou gosto pela carreira de cineasta. Ainda jovem foi ao Rio de Janeiro para conhecer o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo (1936-1966). Entrou em contato com seu presidente, Humberto Mauro, contou-lhe sobre suas ideias, pretensões e pediu-lhe emprestado uma câmera e outros apetrechos.

O pioneiro do cinema brasileiro achou interessante, mas exclamou entre os presentes: “Esse rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Saiu de lá com uma câmera Bell & Howell, voltou à João Pessoa e passou a filmar sob a chacota dos colegas da redação. Seu primeiro curta-metragem teve origem numa reportagem que fez, em 1958, sobre o trabalho das mulheres numa olaria do sertão, As oleiras do Olho d’Água na Serra do Talhado. O curta Aruanda, lançado em 1959, é um documentário de 20 minutos e conta a história da fundação de um quilombo e retrata a vida do ex-escravo Zé Bento com a família em busca de uma vida melhor. A palavra “aruanda” tem um significado próprio na Umbanda: um lugar utópico, o paraíso da liberdade perdida. A trilha sonora foi definida em conformidade com as imagens, com a escolha genial da comovente canção folclórica “Ô mana deixa eu ir”, recriada por Villa-Lobos.

Depois disso, o cinema brasileiro mudou completamente; inaugurou uma nova estética cinematográfica. Segundo alguns críticos, o filme está para o moderno cinema brasileiro como o romance A Bagaceira está para nosso modernismo literário. O Nordeste, sua realidade, seus mitos, texturas, asperezas, locações e personagens, abria passagem – em 1960 como em 1928, nos filmes como nos livros. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba. O filme deu origem a uma escola de documentários na Paraíba, a partir dos colegas da equipe de Noronha: Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira, Jurandy Moura, entre outros.

O então jovem crítico baiano Glauber Rocha comparou-o ao cineasta Roberto Rosselini, o papa do neorrealismo italiano. Quando viu o filme, Glauber ficou extasiado: “Como fui burro! Como fui burro!” repetia numa referência ao fato de ter começado com o curta O pátio (1959), que pouca coisa teria ver com os caminhos trilhados posteriormente. Glauber pressentiu que o mapa da mina estava ali e lastimou o fato de não ter seguido aquela pegada. Jean-Claude Bernardet, confirmou dizendo que o filme era “simultaneamente documento e interpretação da realidade”. E disse mais: “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.”

Outro renomado crítico, Paulo Emilio Sales Gomes, dizia que o filme era um manifesto. Na década seguinte, o Cinema Novo e o documentário nacional aplicariam suas lições. Nessa época realizou mais um filme em parceria com Rucker Vieira: Cajueiro nordestino (1962), inspirado numa monografia de Mauro Mota, retratando o ciclo do caju e sua importância para as comunidades da periferia de João Pessoa. Mais tarde, realizou o primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba: Salário do medo (1971). Pouco antes tentou adaptar o romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, mas não dispôs de recursos para tal façanha.

Como o cinema que realizava não era uma atividade lucrativa, e precisando trabalhar, foi Procurador de Justiça e de 1971 a 1991 foi presidente do IPHAEP-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba. Aí batalhou pela preservação dos bens culturais, numa época em que não se dava valor ao patrimônio fossilífero. Teve um importante papel na defesa do Vale dos Dinossauros, hoje este patrimônio paleontológico é protegido pelo Governo. Em 2008, o “Festival Internacional de Documentários – É tudo Verdade” prestou-lhe uma homenagem com a apresentação de seus filmes e seu retrato filmado por Geraldo Sarno, outro mestre do documentário brasileiro. Em 2010 foi homenageado pelos 50 anos de carreira no “Cine Fest Aruanda”, festival de cinema paraibano, que leva o nome do filme que entrou para a história do cinema brasileiro. O cineasta faleceu dois anos depois, em janeiro de 2012. Pouco depois, a Fundação Cultural de João Pessoa deu nome à sua sala de cinema: “Cine Funjope Linduarte Noronha”.

5 Comentários

  1. O filme Aruanda(Terra Prometida) é um clássico de nascença. Segundo Glauber Rocha, o filme Aruanda foi uma obra desbravadora do novo cinema brasileiro…

    P.S.: – PENSE NUM MATUTO ATREVIDO E CURIOSO ERA O VELHO LINDUARTE!!!

  2. Pinheiro

    Já ouvi falar que Glauber foi influenciado pelos velhos filmes faroeste, particularmente “Deus e o diabo na terra do sol”, com aquele tiroteio no final, os caras rolando no chão, e bala pra tudo que é lado. Você, que sabe tudo sobre o bang-bang, o que me diz sobre isto?

  3. TEM SENTIDO, BRITO!!! ATÉ PORQUE, NA DÉCADA DE 50/60/70/ OS MAIORES DIRETORES DA CINEMATOGRAFIA MUNDIAL ESTAVAM COM OS OLHOS VIRADOS PARA OS FILMES FAROESTES NORTE-AMERICANO E OS WESTERN-SPAGHETTI. EI-LOS: John Ford – Don Siegel – John Sturges – Sergio Leone – Clint Eastwood(ATOR E DIRETOR) – Henry Hathaway – Sam Packinpah – Budd Boetticher – Billy Wilder – Orson Welles – Roger Vadim – E DANA-SE POR AÍ AFORA…

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