QUEM MENTE MAIS, HEIN?

A guerra insana, separando famílias unidas e antigas amizades, que divide o Brasil entre a esquerda vendida ao populismo e à corrupção e a direita chucra, que considera a ditadura militar de 1964/68 uma ampliação interrompida de um jardim do Éden sobre a Terra tem suas bases em mentiras históricas absurdas e falácias políticas farsescas. Na verdade, os comunistas armados dos grupos soit-disants guerrilheiros e acusados de terroristas pelos inimigos do outro lado na luta e no espectro ideológico combateram por uma ditadura de sinal oposto, e não pelas velhas e boas liberdades burguesas proclamadas pela Revolução Francesa. E as Forças Armadas comandaram um regime que apodreceu e ruiu sobre os próprios pés de barro de seus erros, minado pela corrupção desenfreada e protegida por um feroz sistema de censura que ocultava seus malfeitos.

O golpe militar – equivocadamente chamado de Revolução pelos que o praticaram, de março/abril de 1964 – começou a ser engendrado havia 10 anos na denúncia encampada pela Aeronáutica, liderada pelo brigadeiro Eduardo Gomes, derrotado nas eleições presidenciais de 1946 e 1951, a primeira para o general Eurico Dutra e a segunda para o caudilho Getúlio Vargas, de um “mar de lama” instalado no Palácio do Catete em torno do presidente, eleito, empossado e submetido a uma saraivada de críticas feitas pelo líder do partido derrotado, a União Democrática Nacional (UDN), na Câmara, Carlos Lacerda, que não poupava o ex-ditador do Estado Novo fascista, et pour cause, populista, com apoio dos sindicalistas filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O pronunciamento militar, que parecia inevitável, terminou sendo adiado pelo tiro que Vargas disparou no coração em seu quarto de dormir, provocando enorme comoção no acompanhamento do cortejo fúnebre até o avião que levou o cadáver para ser enterrado em São Borja, cidade de onde saíra para voltar à Presidência e dar a guinada ideológica, que tornou distante sua imagem de ditador.

Um grupo de oficiais, reunidos na Escola Superior de Guerra (ESG), que tinha o codinome de Sorbonne, se reorganizou em 1961 para impedir a posse de João Goulart, um estancieiro de São Borja que se havia aproximado de Vargas e sido seu ministro do Trabalho na gestão democrática. Vice na chapa de Juscelino Kubitschek, eleita em 1955 por outro partido fundado pelo caudilho, o Partido Social Democrático (PSD), reunindo coronéis provincianos que ele havia nomeado interventores das unidades federativas durante o Estado Novo, Jango, como era conhecido, elegeu-se vice de Jânio Quadros, apoiado pela UDN. Isso porque, sob a égide da Constituição de 1946, depois da queda da ditadura, em 1945, titular e vice da chapa concorriam duas eleições paralelas.

Milionário e populista, o delfim de Gegê era muito malvisto pelos comandantes militares, seja por seu próprio currículo, seja pela proximidade do cunhado, Leonel Brizola, que no governo do Rio Grande do Sul havia privatizado a Light, chamada pela esquerda de “o polvo canadense”. A renúncia de Jânio, em 1961, alcançou o vice na China e, durante sua volta, os ministros militares tentaram lhe impedir a posse, que foi garantida pela resistência de Brizola na chamada “rede da legalidade” e pelo acordo costurado pelo ex-ministro da Justiça de Vargas, Tancredo Neves, que articulou um parlamentarismo de ocasião. Mas logo Jango conseguiu vencer um plebiscito e retomou o poder de fato. Os militares o apearam do poder, alegando que o presidente preparava um golpe de esquerda para dar o poder aos comunistas e aos sindicalistas.

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada pela petista Dilma Rousseff, que tinha sido guerrilheira e presa, colheu documentos também sobre uma vasta rede de corrupção, que chegou a ser um crime pelo qual muitos políticos da velha ordem foram condenados. Neste conflito insano de hoje, notícias importantes não ganharam destaque e esta foi uma delas.

O Partido Comunista Brasileiro (PCB), filiado ao Komintern fundado por Stalin, foi posto na clandestinidade quando achava que já estava no poder e lhe faltava tomar o governo, no qual já controlava postos relevantes. No entanto, reflexo da divisão no comunismo internacional, esfacelou-se em várias tendências: o PCB manteve-se fiel a Moscou, mas de seus quadros muitos saíram para a luta armada contra a ditadura adotando a linha chinesa da dissidência de Mao Tsé-tung (e depois mudando para a albanesa de Henver Hoxha), no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). A maior influência era da Cuba dos irmãos Castro, sob a aura heroica do argentino Ernesto Che Guevara. O PCdoB tentou uma aventura de guerrilha rural na região de Goiás e Tocantins. Leonel Brizola, usando fundos cubanos, ensaiou outra na Serra de Caparaó, em Minas Gerais. E todos foram esmagados pela irracionalidade de uma guerra em que nenhum dos componentes das miríades de grupos guerrilheiros ou terroristas tinha capacidade de enfrentar as Forças Armadas, no poder.

A guerra suja entre a esquerda armada e a direita fardada produziu ícones impróprios para serem confundidos com heroísmo. Os militares endeusam figuras abjetas como o torturador Brilhante Ustra, cujo sobrenome tem sido usado pelos direitistas que defendem ainda hoje a intervenção militar. No entanto, a figura de maior relevo era o delegado do Dops paulista Sérgio Fleury, que se destacou como matador de bandidos comuns num grupo conhecido como Esquadrão da Morte. O outro lado também endeusa seus facínoras: um foi o militante comunista Carlos Marighela, reconhecido pela capacidade de escapar dos cercos dos agentes dos órgãos de repressão pela força física. Outro, Carlos Lamarca, oficial do Exército, não é lembrado como teórico, mas, sim, como exímio atirador.

Assim como na guerrilha esquerdista, a repressão militar dividia-se em facções que lutavam pelo poder e essa luta intestina a debilitou. Mais do que pela vontade de abrir o regime numa democracia de forma lenta, segura e gradual. De fato, quando assumiu a Presidência da República, Geisel deve ter pensado em articular uma sucessão civil com o empresário e político paulista Paulo Egydio Martins. A tortura e a morte nos porões da ditadura, caso do DOI-Codi na rua Tutoia, em São Paulo, faziam parte de uma política de Estado, como confirmou agora o documento da CIA descoberto pelo pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor. Mas naqueles porões não havia obediência à ordem dada por Geisel de submeter execuções de “subversivos perigosos” ao chefe do SNI e depois sucessor João Figueiredo. Duas execuções célebres foram as do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho. Elas deram o “tiro no pé” dos torturadores, pois nenhum dos dois era subversivos perigosos, mas apenas simpatizantes do PCB e da Teologia da Libertação.

A acorrência ao culto ecumênico na Sé em homenagem a Herzog foi a primeira demonstração pública de que, desarmada e desorganizada, a sociedade descobriu que o regime autoritário não combatia apenas os “subversivos perigosos”, mas também desrespeitava a liberdade e os direitos humanos. Geisel derrotou os que se opunham a seu plano de ter um sucessor civil, mas teve de indicar um militar para seu lugar, aquele mesmo que, segundo a CIA, indicou para escolher quem matar e quem salvar na política consentida de execuções, que herdara de Médici, conforme a CIA.

Os oficiais subalternos resistentes à abertura do sistema reagiram de forma brutal e provocaram um escândalo que feriu de morte a ditadura: em 1.º de maio de 1981, no governo Figueiredo, o capitão Wilson Machado e o sargento Guilherme do Rosário levaram para o Riocentro uma bomba para jogar num show cuja principal atração seria Chico Buarque. E o artefato explodiu no colo do sargento. O general Job Santana adicionou o toque de farsa à tragédia presidindo um inquérito militar absurdo, que, de certa forma, serviu de modelo para a postura alienada do Exército, em particular, e das Forças Armadas, em geral, quando se trata de investigar e punir volações aos direitos humanos por grupos terroristas que foram derrotados na História, mas continuam impunes, pelo visto, até a eternidade.

A ditadura ruiu, a democracia foi instalada, mas as mentiras de ambos os lados persistem, fazendo mal às instituições, que continuam fragilizadas tanto de um lado quanto de outro. A esquerda erige templos a heróis da democracia que lutaram por uma ditadura e esconde os próprios crimes numa fantasia endulcorada de realismo socialista de fancaria. E seus repressores reproduzem as lorotas ao estilo Job Santana, evitando que a revelação da verdade dos fatos contribua para fortalecer as instituições.

14 comentários

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    • Sergio Rieffel em 15 de maio de 2018 às 09:46
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    O que dizer? Magistral!

    • Alfredo Massaranduba em 15 de maio de 2018 às 10:13
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    Ou a ditadura direitista ou a esquerdista stalinista, vivenciamos a primeira, mas a segunda seria menos pior?
    Tirante a tortura e as mortes, o militarismo teria dado certo, pelo menos até uma redemocratização consciente, sem a voracidade “ladroística” dos civis petistas, peemedebistas, peessedebistas e nanicos.

    • alberto santo andre em 15 de maio de 2018 às 10:16
    • Responder

    quando se quer ver a verdade tem que se expor os dois lados da historia , o que naoocoreu e nunca ocorrera , no brasil , principalmente pela esquerdopatia , queve mas continua a apoiar seus criminosos de estimaçao , sempre com a frase , que os fins justificam os meios , para atingir os ideais podres da esquerdopatia ,,, nao hove santos no periodo dos governos militares em nenhum dos lados , porem hoje o que vemos e a bandidagem e a corrupçao enraigada na defesa de suas tetas. ,,, e hoje o brasil ao inves de ter aprendido com estas liçoes, seguir em frente para se tornar uma naçao , na realidade ve a mediocridade da esquerdopatia retrogada eputrefada , querendo reviver , ao inves de viver .. na dacada de sessenta nao tivemos democratas nem de um lado e tampouco do outro simplesmente tinhamos os dois lados de ditadura vigente a epoca , a de direita , dos militares e da esquerda dos terrorista , como dlma roussef e jose dirceu , entre outros , e ainda bem que foram os militares que ganharam a epoca , caso contrario o maximo que seriamos hoje , como comprovamos , com a chegada tardia destes esquerdopatas populistas ao poder , no maximo uma venezuela , e a historia esta ai para comprovar … quanto ao arigo , simplesmente uma analise primorosa dos dois lados da historia , e sem contar estorias .

    • Paulo Terracota em 15 de maio de 2018 às 11:17
    • Responder

    O período de chumbo e o crescimento da direita radical dentro das FFAA deu-se exclusivamente pela luta armada desencadeada pelo radicalismo esquerdista. A partir do atentado terrorista em Jaboatão dos Guararapes, os militares mais radicais, praticamente assumira para si a missão de combater e “esmagar” a luta armada. Deu no que deu , sofrimento e morte para ambos os lados. Vamos ver se aprendemos com os erros do passado para que não tenhamos a tristeza de velos novamente, pois, certamente, não vale a pena ver de novo;

    • Ex-microempresário em 15 de maio de 2018 às 12:07
    • Responder

    E este passado corre sério risco de ser substituído pelo “passado fictício” que é repetido e amplificado sem descanso pela ideologia que domina nossas universidades, nosso jornalismo e nossa produção literária, televisiva e cinematográfica.

    Crianças e jovens brasileiros ouvem diariamente – na escola, na tv, no cinema – que os anos 70 tinham bichos-papões de um lado e santos de outro, e que apenas a maldade “da direita” impediu que o Brasil se tornasse um paraíso nas mãos de “gênios” como Jango, Brizola, Darci Ribeiro, Prestes, Arraes, etc.

    Como já foi dito tantas vezes, um povo que não conhece seu passado está condenado a repeti-lo.

    • João Francisco em 15 de maio de 2018 às 12:38
    • Responder

    Análise perfeita. Apenas com uma diferença:

    A narrativa da esquerda através dos meios de comunicação, intelectuais, universidades, igreja, sindicatos, etc.; quer nos vender a ideia que todos estavam contra a ditadura e que esta surgiu de forma espontânea.

    Isso leva à reação atual, em que o povo revoltado com as roubalheiras para perpetuação da esquerda no poder; acaba pendendo para o outro lado. Esta radicalização começou com a história do nós contra eles propagada pelo Lula e o PT.

    • a verdade está lá fora em 15 de maio de 2018 às 13:27
    • Responder

    Não existe ditadura fardada de direita.

    Não existe ditadura de direita: você já viu algum empresário assumir algum país e dizer que todos são obrigatóriamente livres, que estão extintas todas estatais e orgão públicos? Que só teremos mercado livre em tudo? Que a democracia de direita será universal?

    • Arre-égua em 15 de maio de 2018 às 13:58
    • Responder

    Coerente e responsável, o primeiro parágrafo diz tudo.
    Parabéns!

  1. O BRASIL É O ÚNICO PAÍS DO MUNDO, EM QUE A HISTÓRIA É CONTADA PELOS DERROTADOS! Vão se fuder petistas/esquerdistas/comunistas e outros “istas”, vocês perderam, nossa bandeira jamais será vermelha! Vão tomar no _ú (com underline), vocês são a escória e como tal, devem ser exterminados, vão ficar presos, com direito a ouvirem todos os discursos da Dilma quatro vezes por dia, entremeados por discursos do Lula sobre sua honestide e as sentenças do Dr. Sérgio Moro, se aguentarem 1 ano sem suicídio, serão soltos, com deportação para Cuba, por cinco anos, recebendo salário cubano;

    • Maurício Assuero em 16 de maio de 2018 às 04:50
    • Responder

    Uma revisão histórica. Muito bom o texto

    • a verdade está lá fora em 16 de maio de 2018 às 09:05
    • Responder

    Brizola estatizou a LIght e não privatizou como disse o colunista. “Leonel Brizola, que no governo do Rio Grande do Sul havia privatizado a Light”

    • Policarpo em 16 de maio de 2018 às 20:53
    • Responder

    Quem mente mais? Aqueles que por meio dessas mentiras obtiveram todo tipo de vantagens, inclusive apoiados pela cumplicidade de jornalistas oportunistas que silenciaram sobre as tretas e mutretas. Mentiram todos que: embolsaram indenizações milionárias; recebem a bolsa-ditadura; os que ganharam cargos públicos; os que, na imprensa, recebiam empréstimos, patrocínios e contratos milionários para espalhar mentiras como se fossem verdades. Enfim, quem mente mais e melhor é a corja esquerdista.

    • Nikolai em 18 de maio de 2018 às 14:16
    • Responder

    Nêumanne tá naquela fase de cagatório jornalístico atravessada há uns meses atrás pelo Marco Antônio Villa chamando Bolsonaro de nazista e afins. Tá precisando tomar um processinho pra trancar o boga e sua diarreia cognitiva.

    Acredita em meios humanitários para combater gente suja, isentão do tipo mais capcioso… De fato, a classe jornalística nesse país não deveria ter reconhecimento acadêmico a ponto de declarar jornalismo como formação de grau superior.

    Jornalismo no Brasil é apenas entretenimento de ataque ao invés de fiscalização e defesa das instituições e da História. Para essa gente, destruir é mais fácil do que preservar.

    • Alfeedo em 21 de maio de 2018 às 07:30
    • Responder

    A inveja mata!

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