No Brasil do século XIX, para a grande massa escrava, que integrava a sua população do Brasil e que acalentara na Independência o seu sonho de liberdade, a imprensa periódica que surgia no início da segunda década nada mais era que uma nova forma de negócio.

O Diario de Pernambuco, surgido em 7 de novembro de 1825, a exemplo de todos os demais jornais de sua época, não fugia à regra, como se depreende do enunciado do seu primeiro número:

Faltando nesta cidade assaz populosa um Diario de Anúncios, por meio do qual se facilitassem as transações, e se comunicassem ao público notícias, que a cada um em particular podem interessar, o administrador da Tipografia Miranda & Comp. se propôs a publicar todos os dias da semana, exceto aos domingos somente, o presente Diario, no qual debaixo dos títulos de Compra e Vendas – Leilões – Aluguéis – Arrendamentos – Aforamentos – Roubos – Perdas – Achados – Fugidas e Apreensões de escravos – Viagens – Afretamentos – Amas de Leite etc., tudo quanto disser respeito a tais artigos; para o que tem convidado todas as pessoas, que houverem de fazer estes ou outros quaisquer anúncios…

Sobre o assunto, observa Joaquim Nabuco em 1883, quando da publicação de O Abolicionismo, cuja reedição, fac-similar da primeira, fizemos incluir na abertura desta Série Abolição:

Em qualquer número de um grande jornal brasileiro – exceto tanto quanto sei, na Bahia, onde a imprensa da capital deixou de inserir anúncios sobre escravos – encontram-se com efeito as seguintes classes de informações que definem completamente a condição presente dos escravos: anúncios de compra, venda e aluguel de escravos em que sempre figuram as palavras mucama, moleque, bonita peça, rapaz, pardinho, rapariga de casa de família, (as mulheres livres anunciam-se como senhoras, a fim de melhor se diferenciarem das escravas): editais para praças de escravos, espécie curiosa e da qual o último espécime de Valença é um dos muito completos [Valença, 23 de abril de 1883]; anúncios de negros fugidos acompanhados em muitos jornais da conhecida vinheta do negro descalço com a trouxa no ombro, nos quais os escravos são descritos muitas vezes pelos sinais de castigos que sofreram, e se oferece uma gratificação, não raro de 1.000, a quem o apreender e o levar ao seu dono – o que é um estímulo à profissão de capitães-do-mato… (p. 120-122)

Esses anúncios de jornais, de que trata Joaquim Nabuco, despertaram o interesse de Gilberto Freyre que contou com as pesquisas de José Antônio Gonsalves de Mello para escrever a conferência pioneira, “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, depois transformada em livro de grande sucesso(14). Os anúncios de jornais, particularmente os do Diario de Pernambuco, já vinham sendo utilizados por Gilberto Freyre desde 1933, quando da publicação da primeira edição de Casa-Grande & Senzala (p.330, notas), como identificação das “nações” africanas aqui existentes.

O material reunido – cerca de dez mil anúncios típicos – chega para uma tentativa de interpretação social e psicológica, quase exclusivamente através desses retalhos, de um dos períodos mais significativos de nossa história. É todo um largo espaço social, cheio de sombras, por onde os historiadores oficiais ainda tropeçam agarrados às crônicas ilustres, que se deixa às vezes iluminar ou esclarecer, de modo decisivo, por um simples anúncio de negro fugido. E em pesquisas sociológicas e de antropologia cultural ou de História Social, devemos seguir o conselho das Escrituras: aprender até com as formigas. Aprender até com os anúncios de jornal(15).

Dos anúncios transcritos por Gilberto Freyre, aparecem escravos claros, a denunciar a mestiçagem que tomava conta do Brasil, formadora da morenidade de que tanto nos orgulhamos nos dias atuais:

– Alvo também era Francisco, que tinha tatuagens representando uma cruz e o signo-de-salomão (DP, 28.3.1834).

– vende-se para fora da província uma mulata bem alva, de idade de 20 a 22 anos, muito prendada, fiel e sem vício algum (DP, 30.11.1836).

– O mulatinho que desapareceu da ponte da Boa Vista era “alvo e de cabelo estirado e louro (DP, 16.9.1837).

– De peitos grandes, pés e mãos pequenas, dentes grandes separados, era a mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838).

– Vende-se uma escrava de dezoito anos, de bonita figura e bons costumes, e que serve bem a uma casa, por ter sido educada por uma senhora inglesa, a qual também fala inglês, cose, cozinha, engoma e lava; na Rua do Livramento n.º 36 (DP 31.7.1848).

– … estatura alta, bem alvo e bonito, seco de corpo, braços compridos, dedos finos e grandes, sendo os dois mínimos dos pés bastante curtos e finos, tem dezoito anos de idade, cabelos corridos e pretos, levando eles rentes… mãos e pés bem feitos e cavados, olhos pardos e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, não buça, leva calça de brim branco já usada e camisa de chita com flores roxas (DP, 21.1.1865).

– … bem alvo e bonito, seco de corpo, braços e pernas compridas, dedos finos e grandes, cabelos corridos e pretos, olhos grandes e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, era Ubaldo cuja fuga é anunciada (DP. 5.4.1870).

Os anúncios de jornais eram retratos falados de uma época, servindo não somente para demonstrar as marcas de castigos corporais, impostos aos escravos fujões pelos capitães-do-mato e senhores, mas também outros aspectos da população de cor. Através desses retalhos podemos estudar as origens tribais (Moçambiques, Angolas, Caçanges, Benguelas, Nagôs, Bantos, etc.), as habilidades profissionais – como aquele que sabia tocar piano e marimba, que chamou a atenção do inglês Alexander Caldcleugh, in Travels in South America, during the years 1819-20-21, Londres, 1825, ao ler anúncio em jornal do Rio de Janeiro.

Por tais anúncios podemos saber sobre divertimentos dos escravos – Catarina frequentava aos domingos o maracatu dos coqueiros, no Aterro dos Afogados (DP.1.7.1845) –; erudição – Delfina falava muito bem espanhol (DRJ, 4.5.1830) –; trajes – Isabel vestia preto, “por o Sr. trazer de luto”(DP, 31.1.1842) –; temperamento (tristes, alegres, falantes, ladinos, brigões), vícios (fumo, álcool, comer terra); doenças (marcas de bexiga, boubas, bichos-de-pé etc.); ajuntamentos – a preta Ricarda era canhota, “mais ou menos alta, seca, cabeça chata, cara redonda”, que, “muito pachola”, gostava de “súcias e batuques” (DP, 16.7.1845) –; adornos; penteados; deformações profissionais; constituição física – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (DP, 4.5.1839) –; comportamento – … “mulata de linda figura, sabe labirinto, é engomadeira e costureira, de boa conduta”, como não poderia deixar de ser, “própria para uma noiva” (DP, 7.8.1857) –; marcas de ferro e/ou de nação; dado a feitiços – alguns com culto instalado na Estrada de João de Barros (DP, 7.2.1859) –; não faltando escravos fugitivos pertencentes a ordens religiosas, como bem retrata o anúncio publicado no Diario de Pernambuco de 11 de setembro de 1838:

Do engenho Maraú, ribeira do rio Parnaíba, propriedade do Mosteiro de São Bento da cidade da Paraíba, fugiu Bonifácio, crioulo, idade de 50 anos, seco, pernas finas, pouca barba, e já toda branca; João Batista, crioulo, carpina, de 30 anos de idade, estatura ordinária, cheio de corpo, e muito barbado, tem os calcanhares brancos, e pernas fouveiras por queimadura de fogo de pólvora, e o andar um tanto embaraçado; quem os prender e levá-los ao dito engenho ao abaixo assinado, ou ao Mosteiro de Olinda, será satisfeito de todas as despesas e bem recompensado; consta ao abaixo assinado que eles têm andado por Paudalho, Nazaré e Limoeiro, portanto ele roga a seus amigos residentes nesses lugares, toda a pesquisa a respeito, e deles espera tal favor Fr. Galdino de S. Inês Araújo.

O mais curioso do anúncio acima é que os padres do Mosteiro de São Bento, em capítulo realizado a 15 de janeiro de 1831, em Olinda, haviam libertado todos os escravos dos mosteiros de Pernambuco e Paraíba, “por ser a escravidão oposta a razão, a consciência e a religião”, segundo informa F. A. Pereira da Costa em artigo publicado na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, v. 42, Recife 1891, p. 261.

Por muitos anos a imprensa viu no negro escravo um objeto de negócio, classificando entre os semoventes – tratado por “cabra” a se confundir com o próprio animal –, e só muito depois é que veio despertar para a chaga da escravidão.

Em 1847, em sua edição de 1º de julho, o Diario de Pernambuco anuncia a criação da Sociedade Protetora dos Homens Pardos:

Acha-se pública e licenciada pelo Sr. Doutor Chefe de Polícia a Sociedade Protetora dos Homens Pardos e Pretos Livres da Província de Pernambuco, na Rua das Águas Verdes nº 22, segundo andar, com o fim de proteger não só seus irmãos sócios, como todos os mais homens de cores em geral: o que se faz ciente ao respeitável público para sua inteligência. – Luís Cyríaco da Silva, primeiro secretário.

Em 16 de janeiro de 1839 o padre Miguel do Sacramento Lopes da Gama, no jornal O Carapuceiro, ao analisar a sociedade de então e indagar sobre o futuro do Brasil, aponta crimes que, de serem cometidos com tanta habitualidade, já passaram a ser legais:

Uma filosofia toda sensualista inoculou-se na população do Brasil: o egoísmo é o ídolo das classes elevadas da sociedade, gozos materiais são os únicos incentivos da maior parte dos corações …

E denunciando as claras transgressões ao que preceituava a Lei de 7 de novembro de 1831, regulamentada pelo Decreto de 12 de abril de 1832, ao arrepio do Código Penal de então, denuncia o polêmico jornalista:

Temos um exemplo disto no infame tráfico de escravaria. A princípio havia susto, havia receios; mas pouco a pouco foram-se aventurando os especuladores de carne humana, e hoje é espantosa a importação de escravos da costa da África …

E, mais adiante, denuncia a formação de quadrilhas de ladrões de escravos:

A ambição cresceu a olho em todos os corações, e tem chegado a ponto de haverem aparecido homens de mão armada a roubarem escravos uns dos outros, e já tem havido reencontros, e mortes por causa disto! Querem argumento mais cabal da nossa corrupção, e imoralidade?

PRIMEIRO JORNAL ABOLICIONISTA

Em 13 de janeiro de 1876, surgiu o semanário O Homem, jornal impresso na Tipografia do Correio do Recife, sob a direção de Felipe Nery Colaço, com o “fim de promover a união, instrução e a moralização dos homens de cor pernambucanos. Advogará a causa dos interesses legítimos deles e defenderá seus direitos políticos, propugnando para que a Constituição seja uma realidade para todos os brasileiros, sem distinção de classes. As injustiças que lhes forem feitas serão levadas ao conhecimento do público, para que a maldição geral caia sobre aqueles que as tiverem praticado e o mesmo terá lugar relativamente à opressão e perseguição que sofrerem”… “Todos os outros cidadãos que, sentindo-se oprimidos ou perseguidos recorrem ao O Homem, encontrarão também benigno acolhimento, qualquer que seja a posição social do opressor ou perseguidor”.

No formato 38 x 27 cm, com sua matéria disposta em quatro páginas, este semanário das quintas-feiras, em seu segundo número denunciou o dúbio comportamento do jornal A Província e acusou o governador de Pernambuco, Henrique Pereira de Lucena, “que não admitia pardos ocupando lugar de destaque em seu governo”.

O Homem circulou com regularidade, defendendo sempre o elemento de cor e os princípios do abolicionismo, até 30 de março do mesmo ano (nº 12), quando veio a sair de circulação.

Estava assim lançada a semente da imprensa abolicionista em Pernambuco, continuada depois por outros órgãos. Os anúncios de escravos fugidos diminuíam no seu tamanho e o Jornal da Tarde, aparecido em 22 de maio de 1885, sob a direção do historiador José Higino Duarte Pereira, em polêmica com O Tempo, jornal conservador, afirmava ser este “a página negra da imprensa pernambucana”, acusando-a de viver da “desgraça alheia… com anúncios de escravos fugidos”.

No livro A IMPRENSA E A ABOLIÇÃO (Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massangana, 1988), de nossa autoria, integrante da Série Abolição, comemorativa do Centenário da Abolição da Escravidão Negra no Brasil, reunimos vinte e quatro títulos de jornais pernambucanos com matérias pertinentes à causa abolicionista. A análise de cada periódico antecede a sua publicação fac-similar, de modo a facilitar o entendimento do leitor, chamando a atenção para a época da publicação. No mesmo sentido fizemos publicar na mesma série (v. XII) a coleção do jornal O Abolicionista, editado pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão, no Rio de Janeiro (1880-1881), então sob a direção de Joaquim Nabuco.

Este trabalho só veio a ser possível graças à colaboração da Prof. Esther Caldas Bertoletti, do Plano Nacional de Preservação dos Periódicos Brasileiros (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), e dos colegas da Fundação Joaquim Nabuco, Maria Laura Menezes, Luiz Gomes de Freitas, Edilice de Santana Pessoa e Rosa Martins que, empenhando o melhor dos seus esforços na microfilmagem dos originais e conclusão deste volume, muito contribuíram para sua realização.

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