DELAÇÃO PREMIADA

Acredita-se que o sucesso da Lava Jato tem relação com as delações premiadas. Não se descarta essa associação, mas não se pode conceber que a justiça assista, passivamente, essa corja de ladrões que tomou o estado brasileiro, usar este instrumento como uma válvula de escape da lei. A questão é a postura dos saqueadores do erário. Vejamos o caso de Palocci. Desde seu depoimento a Moro que ele tenta um acordo de deleção premiada que o Ministério Público Federal não aceitou. O descaramento de Palocci ao dizer que tinha informações que poderiam prorrogar a Lava Jato por mais tempo é absurdo. Deveria mofar na cadeia porque acima dos interesses pessoais deveria estar o interesse da sociedade. Agora, a Polícia Federal colheu seu depoimento e encaminhou a proposta de delação para o STF4, apesar da posição contrária do MPF. A briga está na posição do MPF que entende que apenas ele pode firmar tais acordos. Mas, já existe maioria no STF sobre acordos firmados com a PF, por isso o pedido de vistas do processo é somente uma protelação.

Outro exemplo de abuso (diga-se com todas as letras: abuso) é o caso de Paulo Preto que decidiu não fazer deleção premiada, por enquanto. Veja bem: por enquanto. Então, fica a pergunta: quando fará? Quando perceber que não haverá socorro suficiente para lhe tirar da cadeia. Então, o que se tem é uma pessoa que conhece as nuances de um crime e por interesse próprio não denúncia. Alguns dirão: a constituição diz que ninguém é obrigado a produzir provas contra si, mas neste caso não é mais contra ele, propriamente dito, porque já se tem sua digital em dinheiro podre.

Fica, absolutamente, claro que estas pessoas sabem muito mais do que externam e que não relatam, imediatamente, porque usam a delação como moeda de troca não apenas para reduzir seu tempo atrás das grades, mas para pressionar os possíveis delatados a se mover no sentido de falar com o ministro certo e este influenciar outro para tirar o sacripanta da cadeia. No caso de Gilmar Mendes, independe de credo, cor, raça, religião, tamanho do roubo ou qualquer outra prerrogativa. Qualquer um que estiver preso por roubo ou falcatrua tem em Gilmar um santo protetor. São Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, soltou o operador do PSDB antes que ele se desesperasse e entregasse Alkmin e companhia bela. Gilmar Mendes soltou o operador do MBD, antes que ele intensificasse as denúncias contra Temer, por exemplo.

Ao longo dos depoimentos das pessoas no processo do Guarujá, um dos argumentos de Lula era que a PF ou MPF só fechavam acordos se os delatores prometessem envolver o seu nome. Na verdade, os delatores fizeram de tudo para não envolver Lula nas falcatruas, mas é preciso dizer que o pessoal que investiga não é burro. O cara conta uma história fantasiosa e, imediatamente, as pessoas percebem que aquilo não poderia ocorrer sem a interferência de alguém com mais poder. Então, rejeitam por ocultação de informação. O cara tripudiou da sociedade desviou recursos públicos e agora quer tripudiar dos investigadores contando lorotas.

Gilmar Mendes já criticou publicamente, inúmeras vezes, as prisões preventivas de Curitiba. Já comentou que os presos só seriam soltos mediante delação. Mas, na essência não deveria haver mais rigidez com a soltura? Está se colocando nas ruas uma pessoa que cometeu crimes isolada ou coletivamente; que sabe quem mais participou daquela tramoia, então o correto não seria deixar o cara pensando um bom tempo nas bobagens que fez para que ele entendesse que o crime não deveria compensar?

Paulo Preto sabe muito dos roubos do PSDB ao longo de todos esses anos governando São Paulo. A prisão dele seria a oportunidade de descobrirmos quem mais de locupletou dos recursos públicos. Precisa dizer que Gilmar Mendes colocou na rua um cara que tem R$ 113 milhões depositados em contas de bancos suíços? Esquecemos que na campanha presidencial de Serra, este cidadão fez sumir R$ 4 milhões de doações e ainda ameaçou Serra com recados diretos e públicos alegando ter documentos com a assinatura dele? José Serra chegou a ponto de dizer que não conhecia Paulo Preto.

O Brasil só mudará certos costumes se houver mudança na lei. Enquanto nós tivermos o interesse social abaixo dos interesses individuais e enquanto tivermos canalhas fazendo leis em benefício próprio, não seremos capazes de erguer a bandeira da credibilidade. Veremos dinheiro da educação, saúde, segurança, etc. sendo canalizado para contas particulares, preferencialmente no exterior, de pessoas que deveriam trabalhar pela sociedade.

Em outros países, a corrupção é combatida com rigor. A ladroagem é punida com execuções, até. Aqui, precisamos do trânsito em julgado para dizer que um cara que enriqueceu ilicitamente é culpado..

13 comentários

Pular para o formulário de comentário

    • CARLOS EDUARDO CARVALHO DOS SANTOS em 18 de maio de 2018 às 11:01
    • Responder

    Caro Assuero,
    Mais um dos seus elucidativos comentários.
    E eu vou lendo e aprendendo.
    Grato por mais esta lição noticiosa.

    • Maurício Assuero em 18 de maio de 2018 às 12:02
    • Responder

    Carlos, fiquei corado, vermelho, não!. abs

    • João Francisco em 18 de maio de 2018 às 15:51
    • Responder

    Acordo é uma troca, uma negociação. Como tal cada parte tenta tirar suas vantagens.

    No caso do acordo de colaboração, quem tem a delatar troca por uma redução de pena.

    Do outro lado o MPF ou a PF têm que tirar informações e provas que faltam para implicar peixes mais graúdos.

    É óbvio que pór se tratar de uma negociação, a parte que delata vai tentar dizer apenas o que os outros querem.

    Dizer “tudo” é muito relativo, pois quem delata não é ou se torna um Santo e tenta entregar apenas aquilo que a outra parte precisa. Sabe que se depois suas informações forem falsas, a coisa fica pior.

    Vejam o caso do Joesley JBS:

    Procurou o PGR antes de ser preso. Prometeu derrubar a Presidência da República, porém ele já era topo da cadeia alimentar.

    Como o PGR queria se consagrar e tinha pretensões mais altas, costurou um acordo hiper favorável, com o apoio do Facchin e da Globo, que recebeu em primeiríssima mão as gravações direcionadas.

    O resto é história, a JBS lucrou com a especulação do mercado, o Governo, se não caiu, acabou. A reforma da previdência que iria alavancar a economia atravessou o samba e a economia que dava sinais de recuperação estancou por mais 2 anos.

    Caso típico de acordo que não deu certo para a Justiça.

      • Maurício Assuero Lima de Freitas em 18 de maio de 2018 às 19:57
      • Responder

      João, tem um ditado que diz ” falar a verdade não é dizer tudo que sabe, mas responder o que perguntam”. Se o cara entregasse, então se saberia a extensão do crime. Marcos Valério teve oportunidade de contar os lances da morte de Celso Daniel e não fez. Quando tentou, ninguém deu credibilidade. Se tivesse feito, hoje a gente saberia quem tinha interesse no fato.

    • Ex-microempresário em 18 de maio de 2018 às 16:02
    • Responder

    Maurício, na teoria seus pensamentos estão corretos. Mas no mundo real, certas verdades se impõem. Uma delas diz que as pessoas reagem a estímulos. Então, um sujeito que já não é flor que se cheire é preso, condenado, sabe que vai passar um bom tempo na cadeia. Vamos esperar que ele seja bonzinho e resolva colaborar com aqueles que o estão prendendo, a troco de nada? E não esqueçamos que em nossa justiça o tempo joga a favor dos criminosos.
    Infelizmente estamos em uma situação em que é preciso aceitar que alguns “levem vantagem” para podermos seguir adiante. Tanto polícia federal quando ministério público e judiciário, já afirmaram diversas vezes que sem as delações premiadas a lava-jato nem teria começado. Corrupção, tráfico de influência, desvio de dinheiro são muito mais difíceis de achar e de provar do que um assalto ou um homicídio. É mais intrincado, mais fácil de esconder, afinal é um crime em que duas partes estão de acordo ao praticá-lo, e a vítima (nós) nem sabe o que está acontecendo.
    A idéia da delação premiada é nova em nossas instituições. Com certeza o passar do tempo aumentará sua eficiência.

      • Maurício Assuero em 18 de maio de 2018 às 19:45
      • Responder

      Meu Ex-micro (quem é ex-micro, agora é macro?), na verdade a questão não é trocar apenas. Claro, que o meliante vai delatar para ganhar benefício, mas o que se faz é retardar o máximo esse momento na esperança de que os ameaçados tomem uma atitude salvadora. Palocci deu a Lula um recado público quando disse que tinha mais coisa e desde então não parou de tentar habeas corpus. Quando havia perspectiva de julgamento as trativas recuavam.
      Nesse sentido, seria interessante deixar o cara lá apodrecendo para ele entender que a justiça deve prevalecer. Aí ele entregava até a localização do corpo de Judas. Sem tortura, como no passado. Apenas isolando o canalha.

        • Ex-microempresário em 18 de maio de 2018 às 20:30
        • Responder

        Se deixar o cara “apodrecendo” muito tempo, os crimes que ele entregar já prescreveram…..

    • ALTAMIR PINHEIRO em 18 de maio de 2018 às 19:45
    • Responder

    O comentarista Ex-microempresário soltou uma bem legal, SENÃO VEJAMOS “……….A ideia da delação premiada é nova em nossas instituições. Com certeza o passar do tempo aumentará sua eficiência… É VERDADE, TUDO ISSO É UMA QUESTÃO DE TEMPO….

      • Maurício Assuero em 18 de maio de 2018 às 20:00
      • Responder

      Altamir, se levarmos em conta a negociação que Calabar fez, então esse negócio é bem antigo. Se a gente considerar Judas, então….

    • Maurício Assuero em 18 de maio de 2018 às 20:52
    • Responder

    Não é assim. Quando bater a constatação de que ele não vais sair cedo, ele vai ceder!

    • ALTAMIR PINHEIRO em 18 de maio de 2018 às 23:25
    • Responder

    é preciso que se saiba, Assuero, que se trata de coisa pública, de roubo do erário, então, a delação é feito a tortura. Apesar de você está ou ser submetido a um pau-de-arara que poderíamos chamar de democrático. Ou seja, você confessar um crime sem sofrer dores físicas. Claro e evidente que OS BOLSONAROS da vida odeia este método…

    • Maurício Assuero em 19 de maio de 2018 às 12:31
    • Responder

    Eu entendo a reflexão do cara seria na direção de mostrar que ele seria punido e outros não. Marcos Valério é o único que está preso.

    • Goiano em 19 de maio de 2018 às 21:57
    • Responder

    Quando alguém tem uma carta delatória não pode esperar como quem tem uma carta na manga, tem de correr e delatar rápido, antes que alguém use o mesmo argumento e lhe passe a perna. Quem delatou delatou, quem não delatou não delata mais. Ou tem, ou não tem. O resto é melancia.

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.