Por muito tempo nada foi igual, nada encaixava em mim, era como se eu fosse uma farsa totalmente exposta, mas ninguém realmente via isso. Eu realmente me achava uma fraude, sem vida, sem sentido estar por aqui…Como se faltasse um propósito e que ele fosse realmente válido, tão válido que me aceitassem sem eu precisar de toda essa carga que eu carregava e que no fundo era inútil, só eu mesma é que via assim.

A cor do esmalte, o tipo de roupa, o perfume cítrico… não combinavam com a minha personalidade. Vaguei por muitas ruas, noites e noites, sem ninguém entender a minha confusão. Os dias nem contavam, cheios de compromissos e responsabilidades, enchiam as horas de vazios incansáveis.

Isso se deu por longos meses, ou poucos meses; isso vai depender se você é daquelas pessoas que enxergam o copo meio vazio ou meio cheio. É, vejo vídeos motivacionais, nada a acrescentar sobre eles aqui e nada a exaltar também… enfim, o foco é que tudo era meio vazio mesmo: copo, cama, coração.

Até que teve um começo. Um começo no meio da história. Você veio, chegou com esse tamanho de lucidez. Enxergou tudo. Sentia tudo… e soube, na primeira conversa, quem eu era. Demorei a entender essa organização no meu caos. Fugia de você, das suas cobranças caladas. Achava engraçado sua procura por mim, uma procura na qual eu também compartilhava, entende?

Por que você ficou? Sabe que continuei para simplesmente, de forma egocêntrica, descobrir a resposta desta pergunta… qual o motivo de, ainda vendo tudo e sabendo de tudo, você escolheu ficar? Deixei-nos levar. As brincadeiras foram ficando mais sérias, os carinhos mais intensos e os sentimentos mais verdadeiros. Seus beijos mais tocantes, meus sonhos mais reais e sua estadia mais palpável.

Já não achava que partiria sem voltar, já sabia escolher a cor do esmalte que mais combinava comigo e, com certeza passei a entender que minha personalidade feminina combinava com o perfume doce que me presenteara. Isso, claro, sem contar com a prova cabal de que se inebriava com meu cheiro em meu pescoço quando dele eu fazia uso, propositalmente.

Não consigo admitir que foi meu ‘norte’, mas seu caminho me mostrou o meu. Engraçado como nos deixamos completar por pessoas aleatórias. Veja bem, não se ofenda, não quis dizer ‘sem importância’, mas não era alguém de papel em minha vida… Encontrar-me sentada a ler no pequeno e único espaço coberto do parque foi aleatório, não? Minha leitura o instigou assim como seu interesse fez o mesmo comigo. Por que se interessou?

Hoje isso realmente importa? Eu não sei, acho que me daria uma satisfação infantil saber. Não, deixa pra lá, toda vez que a porta se abre e vejo sua barba a chegar perto de mim, encho-me de certezas e me deixo apenas curtir essa descoberta. Sim, a cada dia sento-me descoberta por você. A cada momento em que passamos juntos eu me vejo uma mulher diferente, ou melhor, uma mulher! E com várias qualidades diferentes, despertadas. Espero que esse interesse continue mesmo após a novidade. Dizem que o tempo tira esse frescor. Ai, sem mais devaneios, pensamentos de copos meio cheios, só beije-me por vários instantes; aleatórios e constantes.

4 Comentários

  1. Sheila Liz – Flor de Lis:

    Sempre que leio suas crônicas, delicadas, sensíveis, meigas, amáveis, me vem à lembrança frase dita pela genial poetisa Clarice Lispector: “Todas as vezes que tentei nem sempre fui bem sucedida; mas todas as vezes que deixei de tentar, fui derrotada”; “sem chance” – como diz um personagem do filme Carandiru do saudoso cineasta argentino-brasileiro Hector Babeco.

    Em: “Você é o meu subterfúgio”, você traz a esperança mais uma vez na alma, feito Olívia de “Olhai os Lírios do Campo”, que nunca deixou de ter esperança em Eugênio Pontes, o pai de ANAMARIA!

    Parabéns mais uma vez por “Você é o meu subterfúgio”! Li, reli e adorei.

  2. Cícero, não, não fez isso! Não citou Clarice aqui! Sabe, ou, imagina, o quanto adoro esta mulher? Já notou que ela transforma toda e qualquer melancolia já sentida em inspiração? Acho-a o máximo. Entendo que a dramaticidade e melancolia que ela transborda é o que inicia todos as demais sensações.

    Enfim, já ali me ganhou e me emocionou com o comentário. Claro, a sua leitura, presença e o fato de fazer questão de escrever-me é tão gostoso!

    Obrigada!

  3. Você merece, Sheila Liz, porque tem sensibilidade na alma e transforma tudo em dramaticidade!

    Clarice Lispector está feliz onde estiver!

    A Natureza lhe fez assim! Você é um anjo bom que tem o poder literário de nos transmitir belezas em tudo que há!

    Parabéns!

  4. Liz, veja que coisa interessante a dualidade.. aleatórios e constantes. O constante no aleatório teria lugar se tivesse o sentido de repetitivo, mas a dualidade, o antagonismo ficou magistral. Lembrei da música de Lulu Santos, “não existiria luz se não fosse a escuridão…. a vida é mesmo assim.. dia e noite, não e sim”… Nunca pensei que meus espaços foram preenchidos, aleatoriamente, por pessoas aleatórias, mas não fosse assim eu teria que dar crédito a tal alma gêmea e eu não consigo conceber uma alma criada especialmente para mim. Bravo!!!!

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