JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

ESCRAVIZAÇÃO DOS BRASILEIROS

Custa acreditar! Os mesmos tempos modernos que alforriaram o jumento por haver-se em desuso agora impõem escravidão aos brasileiros. Sai a escravidão colonialista, entra a escravidão moderna. Claro, vão dizer que minha afirmativa padece da exageração hiperbólica de Castro Alves, mas é pura verdade. Dentro do binômio domínio/obediência verifica-se, hoje, a escravização dos brasileiros. Um grupo menor puxa a todos pelo cabresto impingindo-os a total submissão.

Reflexionemos: os sucessivos aumentos dos combustíveis fizeram recrudescer o já cambaleante e trôpego bolso da “rica e bem-sucedida” classe dos caminhoneiros. Estes, – que são o emblema genuíno de bravura e resignação e que, confinados em “suntuosas” cabines conduzem a riqueza nacional no lombo de quatro rodas, (antes fosse modal ferroviário) – reagiram com paralisações generalizadas, mas estas chegaram eivadas de excessos. A circunstância ocasionou o imediato desabastecimento do País com reflexos cruéis nas áreas de saúde: cirurgias, ambulâncias, tratamento de água para beber, etc.

Esse é mais um incidente que reforça a condição de escangalho em que se encontra o gigante brasileiro; uma pátria (com a cara da graça vegetal das frutas, mas bolorento por dentro) que realiza esforço titã para combater a corrupção asilada na classe política. Esta classe, protagonista de episódios mal-afamados, faz o Brasil frequentar rotineiramente as páginas internacionais sobremodo quando do inimaginável e espetaculoso momento de abrir a porta do xadrez para que figuras, celebradas, do grêmio saqueador possam saldar as suas dívidas. Ilustrando: um ex-presidente da república, um ex-governador do Rio, um ex-governador de Minas Gerais, um ex-presidente da câmara dos Deputados e por aí além.

Antes de o governo alegar que fora assaltado por decisão súbita dos caminhoneiros, melhor admitir sua incapacidade de avaliar as consequências provenientes das majorações amiudadas dos preços dos combustíveis (ainda que por imperativos internacionais). Não precisa ter faculdades divinatórias para saber os efeitos devastadores de aumentar o combustível amiudadamente. Aliás, episódio semelhante vê-se nos fastos do governo Cardoso.

Esses caminhoneiros, aos quais os governos ligam pouca ou nenhuma importância, individualmente são tidos pelas autoridades como fiapos frágeis, inofensivos, mas quando agrupados em centenas de milhares, transformam-se numa cordoalha poderosa, capaz de levar ao mourão qualquer nelore ou derrubar a estátua do “meu padim”, ou a de Buda.

A população brasileira, atônita e atropelada por um tumulto babélico causado pelo suplício da escassez, vive intraduzível angústia: em meio ao desacordo dos contendores nada pode fazer senão privar-se de quase tudo, flagelar-se nas filas até que os discordantes possam se avir: bombeiros de um lado, grevistas, de outro.

Mas no meio dos escombros há um benefício. Os caminhoneiros fizeram o favor de alertar que são capazes de fazer o Brasil retroceder ao tempo do transporte animal: carros de boi, carroças e até os charmosos cabriolés, estes, aliás, nessas horas em que o sumiço da gasolina causa mais lástima que espanto, poderiam se prestar ao papel de ambulância, evidentemente nos casos em que a morte do paciente não tenha sido agendada.

Já que não temos Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Castro Alves e tantos outros, quem se candidata ao posto de abolicionista para proceder ao livramento dos brasileiros, para fazer a liberdade triunfar sobre a dominação? Todo esse estado de confusão e de desordem enseja, mesmo ao preço da “teoria do fato consumado”, também conhecida por “apagar incêndio”, a ocasião sob medida para se aprender que o planejamento é para que as ações ocorram proativamente e não reativamente.

Aos que tomarem conhecimento deste grito brasileiro (de que a minha boca apenas se serviu para gritar), por favor, faça-o ecoar Brasil afora. Imprensa, publique-o!

Que este grito lacrimoso possa ser ouvido em socorro daqueles que, permanentemente distantes dos seus familiares, são os mais assaltados, assassinados, nas estradas brasileiras, confeitadas de buracos.

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