30 maio 2018IL EST TROP TARD



Lisboa. Maio de 1968. A França em fogo. Parecido com essa greve das empresas de transporte. Estudantes, pelas ruas, faziam lembrar as barricadas vistas na Revolução de 1848 (Primavera dos Povos), contra a Monarquia. Tudo sob o comando de um jovem (de 23 anos) franco-alemão, Daniel Marc Cohn-Bendit (ele e mais Alain Geismar e Jacques Sauvageot). Não há consenso em relação ao preciso significado dessa insurreição de 1968. No início com estudantes, apenas. Depois, também agregando trabalhadores e gente do povo. Contra, difusamente, tudo que pudesse representar autoridade – exclusão social, horário de trabalho, baixa qualidade na educação, repressão sexual. Cito resumo do que aconteceu, por lá, em palavras do ator francês André Glucksmann: “Maio de 1968 é um momento tanto sublime, como detestado, que nós queremos comemorar ou enterrar”. Seja como for era, sobretudo, um ato em favor da liberdade. Mais tarde Cohn-Bendit, Danny le Rouge (O Vermelho), acabou no partido ecologista Die Grünen. E Deputado Europeu. Mas essa é outra história.

No fim de 1968, indo ao Sacré Coeur, passei pela Place de Tertre. E encontrei escrito, num muro, Il est trop tard; mais, au mois de mai, tout est possible (É demasiado tarde; mas, no mês de maio, tudo é possível). Pichada meses antes, claro, e ainda não apagada. Converti a citação em lema de vida. Por aqui, ainda naquele ano de 1968, e sob as mãos da junta militar, começava a mais negra fase da Ditadura de 1964.

Mestre Zuenir Ventura escreveu livro que retrata bem aqueles tempos, 1968, o Ano que não Terminou. Ele está certo. Como sempre. Não terminou porque sobrevive dentro de nós. Complicado é que agora, 50 anos depois, a desesperança bate novamente à nossa porta. Com um Brasil fragmentado, em conflito e sem horizontes. Sendo cada vez mais necessário que vivamos uma nova utopia. Lembro lição do amigo Eduardo Galeano (em Las Palavras Andantes, citando Fernando Birri): “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Mas qual o sentido dessa utopia?, nos anos que correm. Essa é a pergunta certa. Andar só por andar é quase nada. Especialmente num país fraturado pela exclusão social. Sem rumos. Perdido. Onde o debate foi substituído por ofensas. Sinto isso ao constatar que poucos são otimistas com o futuro. Outubro vem aí. Será um novo mês de maio?, onde as esperanças florescem. Ou será uma antevisão do caos?, prenunciando anos ainda mais difíceis. Difícil saber. Melhor, então, apenas acreditar naquela frase que foi sempre uma lição de não perder as esperanças. Nunca. Mesmo quando tudo pareça trop tard. Sendo bom lembrar que, aconteça o que acontecer, tout est possible. Deus nos proteja.

10 Comentários

  1. Dr. Cavalcanti, seu texto, como sempre, excelente. Parece que este nosso sofrido país banânico, está sem rumo, sem um caminho que nos leve, em segurança, para o futuro. Lendo suas palavras lembrei-me de uma citação (desculpe a ignorância, pois desconheço o autor) que diz mais ou menos o seguinte: “No existen caminos. El camino se hace al caminar”. É isso, precisamos continuar caminhando, abrindo picadas ou, quem sabe, avenidas. Nunca chegaremos ao horizonte mas não podemos nos dar ao luxo de parar, sob a proteção de Deus.

    • Trata-se do poema Provérbios y Cantares, de Antonio Machado. O verso é quase esse, amigo. Se interessar, lhe mando. Abraços lisboetas.

  2. Dr. José Paulo Cavalcanti: Um intelectual extraordinário, sempre bem intencionado com tudo que escreve, principalmente a bem do Brasil e do mundo!

    Orgulho-me de, mesmo à distância, ser seu amigo! Deus ou a Natureza, nesse ponto, me faz um homem ainda mais feliz!

    Obrigado Mestre, pelos artigos publicados no JBF!

    Reli “SOMENTE A VERDADE”! Recomendo a todos os colunistas, comentaristas e leitores do JBF! Vale apenas lê-lo! Cada história real, mas ficcionada, uma lição de vida!

  3. País fraturado pela exclusão social . Sem rumos, perdido. E chegamos a este ponto como ? não foi juntando resultados? Antes do governo militar estava ruim, após a saída dos militares , tiveram todo este tempo para piorá-lo. E conseguiram!. Estão aí todos eles exceto o falecido Itamar e a soma de tudo ,Sarney, Collor,Fernando Henrique,lula, dilma e Temer é o resultado atual. Criticar os outros e fazer pior sob o manto da “democracia”.

  4. Mestre, o que me preocupa, é sua interrogação em seu último paragrafo: “Ou será a antevisão do caos?”. Quero crer, que nós somos maiores que os quatro cavaleiros do apocalipse: Lula, Zé Dirceu, Dilma eo STF. Ou estou errado?

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