Há quem as amaldiçoe. Eu não. Para mim, cuja opinião pouco ou nada vale, elas são as melhores horas. O telefone não toca, o WhatsApp cochila, a campainha não dá sinal de vida, as vozes da casa dormem o sono possível. Até o galo, sempre atento e arisco, finge-se de morto. As ruas sem gente me dão uma sensação rara e indescritível de liberdade. Claro está que liberdade plena não há. Mas nada é perfeito. Ainda bem. Que graça teriam nossas raras virtudes, sem nossos inúmeros defeitos? Vida insossa, penso eu, a dos candidatos a santo.

Como companhia, nas melhores horas, eu tenho apenas os velhos fantasmas de sempre. Deve ser assim com todo mundo. Ou, ao menos, com quem se dispõe a curtir as horas mortas. No passado, os fantasmas me assombravam. O tempo – sempre ele -, no entanto, mudou minha percepção. Hoje, somos quase íntimos, quase amigos – cúmplices com certeza. Às vezes, eles debocham de minhas poucas ideias. Sabem que, logo, logo, eu as abandonarei no meio do caminho para que ressurjam amanhã como se fossem novidades.

Do futuro espero pouco – o que também não me chateia. Planos são para os jovens, para quem ainda tem uma longa estrada pela frente. Ou, então, para os que fazem de conta que a tem. Iludir-se é uma maneira de sobreviver, uma forma de tocar o barco sem remar. Não os recrimino. Cada um que faça da vida o que bem quer.

Já remoí muito o passado. Hoje, não. O bandido mais machuca que ensina. Procuro me concentrar nas boas lembranças, nem sempre consigo. Mas, em geral, aproveito as horas mortas para sorrir ou chorar. Raramente gargalho. Rabisco palavras e setas. Com as últimas, hábito antigo, eu talvez busque uma saída improvável, embora não saiba para quê nem por quê. Com as primeiras, escrevo besteirinhas que, cedo ou tarde, pouca gente lerá. E ainda dizem que a maior parte dos homens não tem bom senso.

3 Comentários

  1. Parabéns pela belíssima crônica, Orlando Silveira! As horas mortas são somente nossas. São aquelas horas em que podemos conversar sozinhos, com os “nossos botões”. É quando podemos nos perguntar: E nós, aonde vamos?
    Um grande abraço!

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