DOIS MOTES BEM GLOSADOS

Poetas repentistas Jomaci Dantas e Zé Carlos do Pajeú glosando o mote

“A velhice sorriu acompanhando
o enterro da minha mocidade”.

* * *

O genial poeta cantador Zé Vicente da Paraíba (1922-2008)

Zé Vicente da Paraíba, pai do colunista fubânico Wellington Vicente, glosando o mote

“Fiz do choro das cordas viola
O maior ganha-pão da minha vida”

Fiz o que desejava em minha infância:
Correr prado de um ponto a outro ponto;
Lá chegando cansado e meio tonto,
Boca aberta, tremendo e tendo ânsia.
Sem pensar ser por causa da distância,
Sem usar nem metragem, nem medida,
Muitas horas esquecia da comida
E trocava a merenda pela bola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz cachimbo de barro e matricó,
Conhecido também por “pai de fogo”,
Onde havia castanha, havia um jogo,
Que eu era o atleta do bozó,
O porreta no fojo e no quixó,
Só não era viciado na bebida,
Mas já tinha a ideia evoluída
Fabricando o alçapão e a gaiola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz um plano de vida pra viver
Com amor, com o riso e a saudade,
Como Deus é amor e é Trindade
Sabe e pode sustar o meu sofrer,
Muitas vezes cantando sem poder
Nem tocar na viola sustenida,
Agradeço à Maria Concebida,
Solitário na minha casinhola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Eu nasci, me criei sem estudar
Até hoje eu nunca aprendi nada,
A primeira viola foi doada
Que eu não tinha dinheiro pra comprar;
Foi papai quem comprou para me dar,
Linda joia mimosa e preferida,
Uma toalha de minha mãe querida
Foi a capa do pinho ou a sacola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Quando pai entregou na minha mão
O mais lindo instrumento que eu já vi
Tive tanta alegria que saí
Para a casa de quem tinha violão
Para ver se aprendia afinação
Encontrei a pessoa definida,
Que também não tornou-se aborrecida
Para ser minha mestra nessa escola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Aprendi afinar o instrumento
Mas fiquei sem ter jeito de tocar,
O trabalho maior foi pra rimar
Pois não tinha o menor conhecimento
E forçava demais o pensamento
Que a matéria ficava deprimida,
Mal sentado na porta da guarida
Sombreada por uma castanhola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Quis um dia mudar o meu destino
E passar da viola ao violão,
Mas achei mais difícil a profissão,
Resolvi comprar um violino,
Quis um dia trocar num bombardino
Já a volta foi grande na pedida,
Eu notei a vontade já perdida,
Esqueci de guitarra e de manola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Comecei a viver da plantação
De arroz, de feijão, de mandioca,
Cortei mato, fiz aceiro, queimei broca,
Pra plantar fumo, agave e algodão,
Fiz barreiro, barragem e cacimbão
Para o gado da Fazenda Santa Guida,
Inda hoje a coluna está doída
De puxar barro e lama em padiola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Inventei de jogar, mas achei ruim:
Joguei bola de mão, joguei peteca,
No baralho, marimba e a sueca,
Lasquinê, bacará e relancim,
Nem buraco deu certo para mim
Que a entrada foi quase sem saída
Minha grana pelos outros dividida
Com anarquia maior da corriola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Trabalhei de enxada no roçado:
Fiz leirão pra cebola, coentro e alho,
Eu lucrei, mas perdi o meu trabalho
Com produto sem preço no mercado,
Sozinho pelo mundo, desgarrado,
Aí foi uma vida mal vivida,
Na cidade por mim desconhecida
Adoeci, só faltei pedir esmola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fui servir o Exército, em plena guerra,
Mas não pude também fazer carreira,
Fui apenas um praça de fileira
Em defesa da Pátria e nossa terra,
Sentinela avançada em qualquer serra,
No quartel, devido a Ordem Unida:
Duas calças inteiras, uma rompida,
Um par de coturnos, uma gandola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

É por isso, colegas, que lhes digo
Que pra mim a viola é joia bela,
Para onde eu viajo vou com ela
Ela tem um cantinho em meu abrigo.
Quando eu me acabar não vai comigo
Por tornar-se bagagem proibida,
Só cordão e mortalha bem comprida
Parecida até com camisola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

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