O PALHAÇO

O mundo mágico do Circo sempre encantou crianças e adultos.

Rute aprendeu a gostar de Circo desde criança. Sempre que chegava um bom Circo ao Recife, seus pais a levavam, nas tardes de domingo, para assistir aos divertidos espetáculos. Entre todos os Circos que passavam temporadas em Recife, o que mais se destacava, pelo luxo, beleza e talento dos artistas, era o Circo Nerino. Eram números de palco e picadeiro, com acrobatas, trapezistas, palhaços, além dos belos animais.

Mesmo passando temporadas em todos os Estados do Brasil, houve ocasião do Circo Nerino permanecer um ano inteiro no Recife, mudando apenas de bairro. Às vezes, também percorria as melhores cidades do interior de Pernambuco.

Depois de muitos anos, as idas do Circo Nerino ao Recife foram diminuindo, até que cessaram definitivamente.

As lembranças do Circo Nerino nunca saíram da memória de Rute, mesmo depois de casada. Seu sonho era levar as duas filhas a esse mundo mágico, no dia em que ele retornasse ao Recife. As meninas ouviam a mãe falar desse fantástico espetáculo de beleza e alegria, como se fosse um conto de fadas.

Certa vez, no final de 1969, Rute soube que havia chegado a Olinda um maravilhoso Circo, chamado Circo Garcia. Entretanto, sendo da “torcida organizada” do Circo Nerino, tal qual uma torcedora fanática de um time de futebol, não admitia que nenhum outro Circo pudesse superá-lo. Mesmo assim, entregou os pontos e numa tarde de domingo, foi com as filhas ao Circo Garcia.

Quando passava pela entrada, Rute olhou para o porteiro, enquanto lhe entregava os ingressos, e no mesmo instante reconheceu nele um dos mais famosos acrobatas do Circo Nerino. Sem conter a emoção, falou:

– Seu Gaetan!

E o homem respondeu:

– A senhora me conhece?

– Conheço! O senhor é do Circo Nerino! .

O homem ficou calado. A mulher insistiu:

– Seu Gaetan, onde está o Circo Nerino? Onde estão os outros artistas? Onde está o Roger?

O porteiro nada respondeu.

Gaetan acompanhou Rute e as filhas até as cadeiras, mesmo ela tendo comprado entradas para os poleiros, de onde se podia ver melhor o Picadeiro.

No intervalo, Rute viu Gaetan vendendo pipocas, pirulitos e balas.

Quando o espetáculo acabou, o homem chamou Rute e as filhas e as levou aos camarins. Foi então que a mulher se emocionou, ao ver Roger, o mais bonito galã do Circo Nerino, e filho do dono, com uma toalha na mão, tirando a maquiagem de palhaço. Era ele que, no Circo Nerino, sabia se equilibrar com perfeição nas ancas de um belo cavalo. Agora, era um simples palhaço, do Circo Garcia.

Rute ficou sabendo que as famílias Avanzi e Garcia haviam se unido, com o casamento de Roger e Anita.

Soube também que, há muito tempo, Roger se tornara o Palhaço Picolino, substiuindo o pai, o saudoso Nerino Avanzi. Sua mãe, Armandine Avanzi e seu tio Gaetan Ribolá estavam com ele, há meses, no Circo Garcia.

A permanência do Circo Garcia, em Olinda, passou despercebida pela imprensa, até que no dia 10 de março de 1970, o Diário de Pernambuco noticiou: “Gaetan Ribolá, do Circo Nerino, que se encontrava no Circo Garcia, está morto.” O artista sofrera um enfarte fulminante.

Gaetan Ribolá, irmão de Nerino Avanzini, foi velado no Recife, na Capela do Hospital Santa Maria, no Bairro Cordeiro. Presentes ao velório, um pequeno número de amigos da cidade e alguns artistas do Circo Garcia.

Roger Avazani passou o dia providenciando os documentos, para transportar o corpo do tio para João Pessoa (PB), onde a família tinha um jazigo. Chegou ao velório no final da tarde, e, logo que anoiteceu, precisou ir para o Circo, porque naquela noite teve espetáculo. E o espetáculo não pode parar. O espetáculo continua!

Sendo palhaço há mais de dez anos, Roger já tinha sentido o amargor de ter que fazer rir, com vontade de chorar. Mas, naquela noite, vestido de palhaço, e executando seu número de ciclismo cômico, ele abriu as comportas e chorou copiosamente.

Ainda de madrugada, encerrou-se o velório. O caixão foi fechado e colocado na carroceria da caminhonete do Circo Garcia.

Roger na direção, sua mãe Armandine e uma amiga apertaram-se no banco da caminhonete, e seguiram para João Pessoa (PB).

Inúmeras vezes, desde a década de 1940, Gaetan percorreu aquela estrada. Dirigiu os primeiros caminhões da frota que o Circo Nerino viria a adquirir, até o início de 1950. Comandava uma caravana de carros-moradia, que ele próprio ajudara a construir.

Ao amanhecer, a caminhonete chegou a João Pessoa, e logo depois estacionou na frente do Cemitério. Um grupo de pessoas aproximou-se. Eram os radioamadores que souberam da morte de Gaetan, por meio de uma colega do Recife, que se encarregara de divulgar a notícia e que se chamava Nerina. Por sinal, essa radioamadora era muito amiga de Dr. Ernani Hugo, ex -titular da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Norte.

Eles estranharam a solidão daquela caminhonete. Esperavam uma grande carreata. O sol já ia alto e os radioamadores precisavam trabalhar. Não puderam ficar até o fim do ato.

E assim, Gaetan Ribolá, que já havia sustentado uma pirâmide de cinco homens, e foi a viga mestra do Circo Nerino, e irmão do dono, foi enterrado sem nenhuma pompa. Não teve grinaldas, salva de tiros, ramalhetes de flores, nem discursos de “autoridades civis, militares ou eclesiásticas”. Não teve, sequer, os aplausos daquele a quem dedicou sua vida: O RESPEITÁVEL PÚBLICO.

“Aplauso não se pede. O povo aplaude quando quer”.

17 comentários

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    • Cardeal Jorge Macedo - Recife - PE em 1 de junho de 2018 às 08:32
    • Responder

    Minha Nobre Amiga e Procuradora Violante Pimentel:

    Emocionante o seu relato da triste despedida de um grande artista que comoveu o coração de multidões.

    Foi difícil, conter as lágrimas!

    Parabéns!

      • violante Pimentel em 1 de junho de 2018 às 09:54
      • Responder

      Obrigada pelo comentário gentil, prezado Jorge Macedo! Desde menina, tenho loucura por Circos. Em Nova-Cruz, minha terra natal, era na nossa rua, Barão do Rio Branco, que eles armavam. O Circo Nerino, só me lembro de ter visto uma vez. Para nunca mais esquecer!!! Era deslumbrante!!!

      Um grande abraço, querido amigo!

    • ALTAMIR PINHEIRO em 1 de junho de 2018 às 08:40
    • Responder

    O sentido humanístico deste excepcional texto é simplesmente espetacular!!! É da baba descer. Muito tocante a frase: O RESPEITÁVEL PÚBLICO…

    P.S.: – A comoção dada nos escritos de PIMENTEL, nos faz entender que, de um certo modo, nós também somos como os palhaços que riem por fora, mas choram por dentro… Fazer o quê?!?!?! Vida que segue!!!

      • violante Pimentel em 1 de junho de 2018 às 10:02
      • Responder

      Obrigada pelo generoso comentário, prezado Altamir Pinheiro! Na verdade, somos verdadeiros palhaços da ilusão, que se chama vida. Quantas vezes sorrimos, disfarçando uma dor que nos dilacera o peito! Repetindo suas sábias palavras: “Fazer o quê?!?!?! Vida que segue!!! ”

      Um grande abraço, amigo!

    • Aristeu Bezerra em 1 de junho de 2018 às 10:16
    • Responder

    Violante,

    Uma crônica emocionante. Sou um fã dos espetáculos circenses, e tive oportunidade de assistir ao Circo Garcia. O choro de Roger provocou a recordação de um soneto do poeta cearense Padre Antônio Tomaz (1868 – 1941), então compartilho-o com a prezada amiga:

    O PALHAÇO

    “Ontem viu-se em casa a esposa morta
    e a filhinha mais nova tão doente!
    Hoje o empresário vai bater-lhe à porta,
    que a platéia o reclama impaciente.

    Ao palco em breve surge…pouco importa
    o seu pesar àquela estranha gente
    E ao som das ovações que os ares corta,
    trejeita e canta e ri nervosamente.

    Aos aplausos da turba ele trabalha
    para esconder no manto em que se embuça
    a cruciante angústia que o retalha.

    No entanto,a dor cruel mais se lhe aguça
    e enquanto o lábio trêmulo gargalha,
    dentro do peito o coração soluça.”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

      • violante Pimentel em 1 de junho de 2018 às 12:44
      • Responder

      Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra! Também sou apaixonada por circos, principalmente os antigos, cuja segunda parte do espetáculo era sempre a encenação de uma peça de teatro, de autores nacionais e até internacionais. O Circo Copacabana, por exemplo, possuía um elenco de palco e picadeiro, que encantava a platéia. O Circo Garcia, também era excelente e foi diversas vezes a Nova-Cruz. Entretanto, o melhor de todos, o CIRCO NERINO, só me lembro de ter visto uma vez. O suficiente para nunca tirá-lo da memória. Era, simplesmente, deslumbrante!!!
      Obrigada pelo belíssimo e emocionante soneto, O PALHAÇO, do grande poeta cearense, Padre Antônio Tomaz!

      Um grande abraço!

    • CÍCERO TAVARES em 1 de junho de 2018 às 11:32
    • Responder

    Prezadíssima Violante Pimentel:

    No início dos anos oitenta um circo humilde, ‘Deus Tomara que não Chova’, instalou-se perto do ‘Sítio São Francisco’ do meu pai, em Lagoa do Carro-PE.

    O palhaço, por falta de dinheiro; aliás, de tudo, saiu divulgando o espetáculo da primeira noite por toda redondeza e, aqui e acola, solicitava comida para ele e a prole. Meu pai, homem de coração generoso, nunca dizia não e o palhaço, chorava sorrindo com tanta comida recebida do ‘Velho’.
    À noite, fomos todos nós e alguns vizinhos ao primeiro espetáculo.

    Eu possuo uma prima, Malvina, que tem um senso de humor extraordinário, ri até das coisas banais. Pois bem, quando o Palhaço adentrou no picadeiro todo ‘malamainhado’ essa prima teve uma crise de riso tão grande, mais tão grande, que tudo que o palhaço tentava fazer, errava, e aí era que o riso dela escandalizava mais!! Kkkkkkkkk!

    O pobre Palhaço, já chateado e não aguentando mais tanta ‘galhofa’, parou o espetáculo e pediu encarecidamente:

    – Moça, por favor! Eu estou perdendo a concentração com suas ‘risadagens altas’. E isso é meu ganha pão! Não faça mais isso não! O povo pensa que o palhaço é a senhora; eu sou o Mané aqui! Kkkkkkkkkkkkkkk!

    Aí foi que minha prima ria mais ainda, ao ponto de o Palhaço encerrar o espetáculo e no outro dia contar a história a meu pai que, sensibilizado e rindo por dentro, deu mais uma feira ao Palhaço, que saiu feliz da vida!

    Por trás de todo Palhaço, há uma história de sofrimento, mas vale apenas viver!
    Contei essa historinha para lhe parabenizar mais uma vez pela extraordinária crônica que, como diz o compositor Maciel Melo: ‘Isso Vale um Abraço’!

    Parabéns de coração.

      • violante Pimentel em 1 de junho de 2018 às 13:02
      • Responder

      Obrigada pelo amável comentário, querido Cícero Tavares! Esse caso da sua prima Malvina, no Circo “Deus Tomara que Não Chova” é hilário e merece uma crônica sua! Há pessoas que tem crises de riso, até em velórios. E o riso é contagiante. Ela deve ter levado a platéia do circo às gargalhadas, a ponto de desconcentrar o Palhaço e ele ter que encerrar sua apresentação!!! Bom demais!!!kkkkkk

      O Palhaço é sempre obrigado a fazer a platéia gargalhar, mesmo quando sua alma está dilacerada.

      Gostei e repito a frase do grande compositor Maciel Melo:
      ” Isso Vale um Abraço!!!”

    • CÍCERO TAVARES em 1 de junho de 2018 às 11:40
    • Responder

    Prezadíssima Violante Pimentel:

    No início dos anos oitenta um circo humilde, ‘Deus Tomara que não Chova’, instalou-se perto do ‘Sítio São Francisco’ do meu pai, em Lagoa do Carro-PE.

    O palhaço, por falta de dinheiro; aliás, de tudo, saiu divulgando o espetáculo da primeira noite por toda redondeza e, aqui e acola, solicitava comida para ele e a prole. Meu pai, homem de coração generoso, nunca dizia não e o palhaço, chorava sorrindo com tanta comida recebida do ‘Velho’.

    À noite, fomos todos nós e alguns vizinhos ao primeiro espetáculo.

    Eu possuo uma prima, Malvina, que tem um senso de humor extraordinário, ri até das coisas banais. Pois bem, quando o Palhaço adentrou no picadeiro todo ‘malamainhado’ essa prima teve uma crise de riso tão grande, mais tão grande, que tudo que o palhaço tentava fazer, errava, e aí era que o riso dela escandalizava mais!! Kkkkkkkkk!

    O pobre Palhaço, já chateado e não aguentando mais tanta ‘galhofa’, parou o espetáculo e pediu encarecidamente:

    – Moça, por favor! Eu estou perdendo a concentração com suas ‘risadagens altas’. E isso é meu ganha pão! Não faça mais isso não! O povo pensa que o palhaço é a senhora; eu sou o Mané aqui! Kkkkkkkkkkkkkkk!

    Aí foi que minha prima ria mais ainda, ao ponto de o Palhaço encerrar o espetáculo e no outro dia contar a história a meu pai que, sensibilizado e rindo por dentro, deu mais uma feira ao Palhaço, uma galinha e um quarto de bode, que saiu feliz da vida com tanta fartura!

    Por trás de todo Palhaço, há uma história de sofrimento, mas vale apenas viver!

    Contei essa historinha para lhe parabenizar mais uma vez pela extraordinária crônica que, como diz o compositor Maciel Melo: ‘Isso Vale um Abraço’!

    Parabéns de coração.

  1. Um texto comovente.

    O circo é uma das paixões da minha vida.

    Grato, querida colunista fubânica.

      • violante Pimentel em 1 de junho de 2018 às 13:08
      • Responder

      Querido Editor Luiz Berto:

      Obrigada pelo seu honroso comentário!
      Fiquei muito feliz com as suas palavras!

      Um grande abraço.

    • Goiano em 1 de junho de 2018 às 21:24
    • Responder

    Violante, é sempre gratificante ler tuas crônicas suaves, cheias de poesia e que retratam a realidade de uma forma tão comovente!

    • violante Pimentel em 2 de junho de 2018 às 01:53
    • Responder

    Obrigada pela gentileza de suas palavras, prezado Goiano! Seu comentário me deixou feliz!

    Um grande abraço!

    • Diana em 2 de junho de 2018 às 23:54
    • Responder

    Linda e emocionante cena.
    Parabéns.
    Beijos.

      • violante Pimentel em 3 de junho de 2018 às 11:05
      • Responder

      Obrigada pelo elogio, querida Diana! Fiquei feliz, por você ter gostado dessa cena do caminho.

      Beijos.

  2. Viola, você resgatou uma linda história . O circo Garcia era muito conhecido e prestigiado. O Betina não lembro , porém um sempre esteve contigo no outro por ducessao. Amei a forma descrita e também por ter tido ciência praticamente dá origem e continuidade da vida dos picadeiros , ou simplesmente da arre. Parabéns. Beijos

    • violante Pimentel em 7 de junho de 2018 às 15:54
    • Responder

    Obrigada pelo comentário, amiga Disterro! Sempre gostei muito de Circo. Em Nova-Cruz, eles armavam perto da nossa casa. A cidade ficava em festa. Bons tempos!!!

    Beijos.

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