TEMPOS INTERESSANTES

Cora Rónai

Tenho inveja de quem vive fora do Brasil — mas longe, bem longe mesmo. Deve ser sensacional acompanhar a história recente do país de um ponto de vista seguro, assim como nós acompanhamos, daqui, a erupção do Kilauea, no Havaí:

— Olha aquela coluna de lava!

— Nossa! Está destruindo as casas…!

— Acabou com as estradas!

— Que magnífico espetáculo da natureza!

De 2013 para cá, o Brasil vive uma sucessão de fatos espetaculares, todos de altíssima voltagem. Morando aqui, porém, fica um pouco mais difícil apreciar o privilégio de viver num momento histórico, e muito mais fácil entender o significado da velha maldição chinesa:

— Que você viva em tempos interessantes!

Deve ser muito reconfortante acompanhar o noticiário brasileiro durante uma hora por dia, e depois voltar para as notícias locais num mundo de tédio. O “Finland Today”, por exemplo, destacava nas manchetes de ontem que a bandeira nacional finlandesa fez cem anos, e que a universidade de Jyväskylä começou um programa piloto com o Kennel Club para que cachorros sirvam de companhia aos estudantes durante as aulas. Já a versão suíça do “The Local” abria com a história de um casal de aposentados que jogou a toalha após quatro anos de desentendimento com a administração do cantão: depois de gastar 27 mil francos com a pintura da casa, Willy e Marie Zysset receberam uma multa de 100 mil francos, porque as autoridades não gostaram da cor escolhida. Os dois se cansaram de discutir com burocratas e resolveram se mudar para Ngoulemakong, na República dos Camarões, onde ela tem família. No “Toronto Sun”, do Canadá, entre um mix variado de esportes, negócios e shows, fica-se sabendo que um jabuti, um lêmure e um macaco foram roubados do zoológico de Ontário.

Já não sabemos mais o que é viver com notícias que conseguimos esquecer ao virar a página. As nossas notícias nos acompanham o dia inteiro, nos assombram, se metem nas nossas conversas ao longo do dia, vão para a cama conosco. Infestam as nossas redes sociais. Estão no escritório, na praia, no almoço com os amigos, no táxi para casa, no jantar com a família. Lemos, vemos, ouvimos, falamos, discutimos — e nem por isso chegamos mais perto de entender o que está acontecendo, ou de alcançar algum consenso.

Greve dos caminhoneiros, por exemplo.

Há uma semana não se fala em outra coisa nesse país, e embora todos os brasileiros tenham subitamente virado especialistas em transporte de carga, ninguém sabe exatamente como aconteceu o que aconteceu, quem estava por trás ou não estava, quem se infiltrou ou deixou de se infiltrar.

A única coisa que ficou clara é que nunca se viu um governo mais despreparado para lidar com uma crise.

* * *

Comecei a temporada a favor dos caminhoneiros, uma das categorias mais sacrificadas de um país rico em categorias sacrificadas. É difícil não se solidarizar com pessoas que correm toda a espécie de riscos para que o país continue funcionando: gente que cumpre jornadas estafantes à base de rebite, que enfrenta estradas em péssimas condições, que não tem a menor segurança no trabalho.

Também é difícil concordar com aumentos diários de combustível — nem tanto pelos aumentos em si, que podem até ter uma sólida justificativa econômica, mas pela insegurança que traz uma maluquice dessas.

E é fácil, muito fácil, fechar com quem peita esse governo incompetente, e dá um berro na cara dozômi.

Aos 20 anos, eu teria corrido para a estrada mais próxima, com o peito em festa e o coração a gargalhar.

Infelizmente deixei de ter 20 anos há muito, muito tempo.

Ainda tenho um lado perverso que gostaria de um país em full stop só para ver no que ia dar; se eu estivesse naquele lugar bem distante lá do primeiro parágrafo, até torceria para isso. O diabo é que, com a minha idade, já não preciso pensar muito para entender que o resultado não seria uma simples freada de arrumação ou uma semaninha de desconforto, mas um caos de longo alcance.

Conservo a minha simpatia pelos caminhoneiros, a respeito de quem li no Facebook, horrorizada, as coisas mais preconceituosas, escritas por pessoas que se pretendem descoladas e progressistas; mas a minha simpatia pelo movimento acabou quando estradas foram fechadas, quando pessoas foram seriamente prejudicadas e animais entraram em sofrimento.

Não dá para concordar com uma greve — ou um locaute, ou o que quer que tenha sido ou ainda seja este movimento — que imponha tanto prejuízo e tormento à população; não dá para concordar com chantagem e com ameaças.

* * *

Do lado positivo, passamos a discutir, enfim, o equívoco que foi o sucateamento da malha ferroviária, e o erro que é manter um país tão dependente de uma única categoria. Se a nossa memória coletiva não se apagar assim que o abastecimento for restabelecido, o transporte de cargas entrou definitivamente na pauta nacional — de onde, aliás, nunca deveria ter saído.

* * *

Lula enchia a boca para falar da “herança maldita” de FHC, mas a verdadeira herança maldita quem recebeu foi Temer — que, para nosso azar, provou mais uma vez que não tem nem moral nem competência para lidar com um abacaxi desse tamanho.

16 comentários

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    • Goiano, 忍者 em 1 de junho de 2018 às 20:35
    • Responder

    Cora Rónai foi indo, foi indo… e foi fondo! Ia indo tudo bem, até que ela descola seu apoio dos caminhoneiros porque a greve, paralização, locaute ou o que for começou a incomodar, a causar desconforto e prejuízos, como se as greves não tivessem sua força exatamente nisso.
    Vi algumas pessoas aplaudindo uma certa greve no Japão – acho que só pode ser fake news – greve que consistia em o cara continuar suas atividades usuais, trabalhando normalmente, só que com uma fitinha preta, acho, amarrada no braço, dizendo “estou em greve”. Ora, vai pra puta que pariu se isso pode ser chamado de greve! Vai ser educado assim na casa do caralho, japonês.

    • Arre-égua! em 1 de junho de 2018 às 20:46
    • Responder

    Se até o Goiano entusiasmou-se e parabenizou a Cora, vai aqui, também, meu integral apoio às palavras da colunista. Gostei, principalmente, da estória da herança maldita deixada pela petista Dilma.

    • DECO em 1 de junho de 2018 às 23:11
    • Responder

    Quantas greves existem nos EUA “Meca” do capitalismo por ano? E dou um doce quem me dizer quem é o presidente, o mandatário, aquele que o povo coloca no trono pra mandar, o dono da verdade na Suíça?

      • Goiano em 2 de junho de 2018 às 09:50
      • Responder

      Agora vamos ver as questões relativas à greve dos petroleiros. Só para lembrar: a greve dos petroleiros de 1995 ajudou a impedir a privatização da Petrobras (foi longa e enfrentou inclusive repressão das Forças Armadas).
      Temos essa força nas mãos, agora que existe a suspeita de que a redução das áreas de atuação da Petrobras, vendendo seus ativos que não sejam exclusivamente relacionadas ao petróleo, e diminuindo radicalmente o refino, para concentrar-se no óleo bruto, tem a finalidade de criar as condições para a venda da estatal, os petroleiros poderão, novamente, constituir o nosso poder de barrar isso.

        • Jairo Juruna em 2 de junho de 2018 às 14:45
        • Responder

        Não seria melhor privatizar a Petrobras?

      • Goiano em 2 de junho de 2018 às 14:58
      • Responder

      “Entre os dados sobre o mercado de trabalho americano divulgados em fevereiro, um deles chama a atenção: a baixíssima quantidade de greves registradas em 2017. Segundo o Escritório de Estatísticas do Trabalho, foram apenas sete paralisações no ano — no país inteiro. É o segundo número mais baixo já registrado. Só fica atrás de 2009, quando ocorreram cinco greves. O curioso é que, até os anos 80, as paralisações eram mais comuns, mas quase desapareceram na última década. Alguns fatores explicam a mudança, como o crescimento do setor de serviços, o surgimento de novos modelos de contratos de trabalho e o enfraquecimento dos sindicatos. Hoje, um em cada dez trabalhadores americanos faz parte de sindicatos. ”
      Saiba mais em: https://exame.abril.com.br/revista-exame/as-greves-sumiram/

    • Naldo em 1 de junho de 2018 às 23:35
    • Responder

    Texto perfeito ! Também fiquei indignado ao saber de um assassinato com pedra pelas mão dos próprios caminhoneiros! Este pagou com a própria vida A GANÂNCIA destes vermes (políticos) no dinheiro da estatal. O governo teria de simplesmente cortar nos impostos pra não quebrar a Petrobrás pensou muito ! demorou! A população pagou e vai pagar mais, com alimentos mais caros a partir de hoje, o pequeno produtor quebrou, mas o governo(situação e oposição), os petistas, e os baderneiros “de esquerda ” se deram bem ! com a demissão do presidente que tentava gerir o rombo . Agora poderão enfiar a mão no pote novamente!

    • Sergio em 2 de junho de 2018 às 07:28
    • Responder

    Muito interessante está abordagem.
    Gostei muito.

    • João Francisco em 2 de junho de 2018 às 10:23
    • Responder

    Esta crise dos caminhoneiros começou a ser anunciada quando os Governos Lula-Dilma passaram a financiar caminhões a juros subsidiados de 2% ao ANO.

    Muita gente comprou caminhões e o preço do frete caiu, a ponto de deixar muitos donos de caminhão em situação difícil, especialmente de um ano para cá quando o preço do diesem subiu mais de 20% e não havia margem para aumentar o frete, por causa da crise.

    Com o auxílio das grandes transportadoras de combustíveis (v. Dalçóquio) pararam tudo para sequestrar e extorquir o Governo.

    Para a tristeza da esquerda era gente em sua maioria que queria intervenção militar ou apoiava o Bolsonaro, que adotou posturas opostas. No início apoiou, depois pediu o fim da greve.

    No começo teve grande apoio popular, pois o povo, está por aqui com os privilégios dos políticos e funcionários públicos em geral (executivo, legislativo e judiciário).

    Só que quando se abre a caixa de pandora, todo o tipo de mal é solto. Aproveitadores que não eram nem caminhoneiros, políticos e sindicalistas radicalizaram a “luta”.

    Animais morreram de fome, faltou remédio em hospitais, transplantes deixaram de ser feitos e, principalmente, faltou combustível nos veículos. Aí já era demais para o povão. Pau nos caminhoneiros.

    A solução tem que partir de decisões estratégicas: mudar o modal de transporte de cargas para o sistema pluvial (o Brasil tem muitos rios navegáveis) e por trem. Subsidiar, isto sim, a produção de biodísel, que é menos poluente e é produzido pelo agronegócio, que já o usa , sem a necessidade de mandar soja e receber de longe diesel.

    Tudo isso fere interesses poderosos, especialmente da Petrobrás estatal, que não vê com bons olhos seu monopólio da produção e venda de combustíveis sair de suas mãos.

    É uma dura batalha que somente com as eleições vindouras poderemos trazer para o nosso lado. Votemos nos candidatos mais liberais, para que a libre concorrência sobressaia e tenhamos, enfim, uma luz no fim do túnel.

      • Ex-microempresário em 2 de junho de 2018 às 14:16
      • Responder

      Não, João, não !! Não subsidiar biodiesel. Não subsidiar coisa nenhuma. Por favor, João, risque essa palavra do dicionário. Chega de subsídio.

      Subsídio é tirar dinheiro de todos para sustentar algo que não é útil nem eficiente. (afinal, se fosse útil e eficiente, não precisaria de subsídio)

      Liberdade é o que precisamos. Liberdade para trabalhar, para empreender, para negociar, para escolher o que fazemos de nossas vidas e o que fazemos com nosso dinheiro.

        • João Francisco em 2 de junho de 2018 às 18:54
        • Responder

        Sou contra o subsídio também. Acho que o agronegócio pode produzir biodiesel a preço competitivo.

        Acho que me expressei al,.

        A verdade é que, se é para subsidiar algo, que seja o biodiesel e não o produto fóssil poluente.

        Mas sim, sou a favor do livre mercado e que o produtor rural tenha condições de produzir o máximo dentro de sua porteira.

        • João Francisco em 2 de junho de 2018 às 18:56
        • Responder

        Lula prometeu muita coisa, porém não entregou nada.

        Prometeu em 2007 que o Brasil seria a Arábia Saudita verde, porém, depois do pré sal, viu outros Horizontes para faturar muito e deu no que deu.

          • Ex-microempresário em 2 de junho de 2018 às 20:34
          • Responder

          Nossa, se for lembrar de todas as lorotas da época…
          – Brasil é auto-suficiente em petróleo.
          – Brasil vai entrar para a OPEP.
          – Brasil pagou sua dívida.
          – Brasil vai exportar etanol para o mundo inteiro.
          – Petrobrás vai ser a maior empresa de petróleo do mundo.
          – Brasil prestes a ter uma pujante indústria naval (quando “inauguraram” o João Cândido, que quase afundou no mesmo dia.)
          E a grande mídia, essa que os petistas dizem que é contra o PT, aceitava tudo, publicava tudo do jeito que o governo queria, jamais questionava nada. Como dizem nos EUA, engolia o anzol, a linha e a chumbada.

    • Philippe Gusmão em 2 de junho de 2018 às 11:19
    • Responder

    Tia Cora ! Sempre precisa, lúcida e absolutamente transparente em tudo o que fala e escreve !

    Prazer imenso em voltar a ler os seus magníficos artigos no JBF !

    Grande abraço.

    • ALTAMIR PINHEIRO em 2 de junho de 2018 às 12:16
    • Responder

    EU VENHO AFIRMANDO CONSTANTEMENTE: O LULA É UMA AMEAÇA PARA COM A NOSSA DEMOCRACIA. A BANDALHEIRA PETRALHA VAI CAUSAR UMA BAGUNÇA ELEITORAL JAMAIS VISTA NESTE PAÍS. QUEM VIVER, VERÁ!!!

    P.S.: – Na presidência, Dilma se transformou numa sujeita que não governava nem a coerência do seu discurso, quanto mais o país. Hoje, Dilma é matéria prima de excelente procedência para a Polícia Federal…

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