AOS TEUS OLHOS E AOS MEUS SENTIMENTOS

Penteando meus longos cabelos lisos em frente ao espelho encarava-me profundamente, perdida em meu próprio olhar. Pensamentos desconexos, aleatórios, pensaria uma pessoa se pudessem os escutar. Para mim, autora destes devaneios íntimos, eles seguem uma linha bastante lógica. Fiquei ali por longos minutos, lembrando da enorme e desnecessária discussão da noite anterior. É impressionante como perdemos o controle facilmente, como uma pequena chateação torna-se um questionamento sobre ir ou ficar.

Já imóvel ainda me olhando no espelho, deixei o pente na cama e forcei-me a secar as lágrimas que escorriam pelo rosto, a esta altura, já contavam-se muitas. Forcei-me porque não queria ainda esconder as provas de tamanha infelicidade pelo último acontecimento. Queria deixar escancarado todo meu sentimento de revolta, essas lágrimas mostram a minha insatisfação e isso tem que ficar claro!

No fim, enxugando-as, vejo que não passam apenas de sentimentos meus, meus apenas. Preocupações minhas, ninguém dá a mínima pra isso. E sinto-me ainda mais revoltada, por saber disso e ainda esperar que seja diferente. Deixei meu corpo amortecido por tanto ódio, cair sob a cama, ainda com a bagunça de uma noite mal dormida. Deitei nos lençóis quentinhos e senti-me acolhida. Chorei novamente, de desgosto, de ver minha estupidez, de sentir necessidade de mudar a situação, mas querê-la como está.

Deveria querer sair e respirar a liberdade de ser eu mesma sem ter responsabilidade na vida das outras pessoas. Seria mais fácil andar sem rumo, sem compromisso, e esquecer essas mágoas que marcam meu coração e me enchem de tanta infelicidade. Essa intensidade de sentir, inclusive essas coisas mais pesadas e tristes, dão a impressão de que sou deliberadamente depressiva. Não, não o sou. Confesso ser intensa; uma gota é um oceano dentro de mim, com certeza! Mas isso se dá nas alegrias também… acontece que as melancolias nos abatem mais do que as felicidades nos fazem sorrir pelos olhos.

Ainda deitada, já soluçando apenas, sem mais pranto a me consumir, respirei fundo, quase como se colocasse um ponto final nesta situação. Sinto outra presença no quarto, abro os olhos e ali estava ele, a me encarar, a me cobrar um comportamento diferente. Como se me desse uma lição, mais ainda, como se quisesse provar o que havia me dito noite passada: ‘és muito depressiva, há de aprender a ser diferente!’ Essas palavras ecoaram através do seu olhar feroz naquele instante.

Como explicar que a intensidade tem dois lados? Como mostrar que é a própria tristeza nos faz lembrar que a felicidade é melhor e mais gostosa de se viver? Ainda assim há de se passar por ela… A cobrança que me ele me faz é injusta e inapropriada. Ainda mais pelo seu papel em minha vida e pelo seu papel nesta confusão e drama todo.

Casada, exausta na verdade, só olhei pra ele. Olhinhos marejados novamente, com um nó na garganta, que nem ousava a desatar naquele momento, apenas acenei positivamente com a cabeça, concordando apenas com o gesto não com o sentimento. Há tanto que não sabe, ou se limita a não saber… Me deixa confusa, temos que despertar o melhor em nós, as experiências, boas ou ruins, nos fazem isso. Prefere ser apenas um pedaço de papel em branco, sem cor, sem traço algum. Que seja, que me responsabilize por qualquer que seja a obra que temos que fazem em nós, que deixa como mentora de uma vida que nem eu mesma sei guiar. Sou suficientemente responsável e capaz de nos levar, ambos, para um caminho de rosas, sem dúvidas! Deixe-me apenas curtir, um dia ou outro, a dor que os espinhos me causam por cultivá-las. Sentir este sofrimento me é essencial, faz-me renovar o espírito e buscar o que mais quero: viver plenamente feliz.

Depois de acenar-lhe com a cabeça, virou as costas e saiu do quarto, deixando a porta aberta. Olhei seu caminhar lento até o fim do corredor, apenas onde minha visão alcançava. Notei que estava mais perdido, e em dor, do que eu. Ali, senti mais forte a necessidade de nos fazer caminhar. Sequei a última lágrima a descer, levantei, prendi os cabelos já penteados e saí a te ajudar a terminar o caminho.

6 comentários

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    • CÍCERO TAVARES em 3 de junho de 2018 às 14:42
    • Responder

    Queríssima colunista dos sentimentos bons, Sheila Liz – Flor de Lis:

    Passei semana dessas na frente da Praça Maciel Pinheiro, Recife, sobretudo adentrando à 2.ª Travessas Veras, pelo oitão da famosa casa onde morou a cronista do coração misterioso, Clarice Lispector, infelizmente abandonada pelo Poder Público. De soslaio, me veio à mente essa frase grafada por ela no extraordinário romance “A Hora da Estrela”:

    “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

    Também me veio à mente a grande Cecília Meireles:

    “Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação de meus desejos afligidos.”

    “Aos teus olhos e aos meus sentimentos” é dessas crônicas onde “as melancolias nos abatem mais do que as felicidades nos fazem sorrir pelos olhos.”

    Lindos, Sheila, seus sentimentos melancólicos e felicidades, essa coisa que só os humanos sentem, mas infelizmente não os expõem como os animais domésticos que veem pureza em tudo.

    Também me lembrei de uma entrevista com a cantora e compositora sertaneja de Goiás, Marilia Mendonça, de apenas 22 anos, de enorme talento e sensibilidade, quando o entrevistador perguntou a ela de onde vinha tanta inspiração para compor. Disse: Das dores de amor do povo!

    “Sustentável leveza do ser”

    Por que ler suas crônicas me dar uma prazer enorme, apesar de meu estilo de escrever ser completamente diferente?

      • Sheila em 6 de junho de 2018 às 17:57
      • Responder

      Cícero e seus belos comentários.

      Bom, o que dizer, as três, e mais eu, concordamos que nos movem mesmo, estas dores nos inspiram e, é sim, por elas que vivemos… que seja para senti-las ou matá-las… E mais acompanhada: dores e palavras – que as expressam!

      Que vontade de conhecer este lugar, deve ser muito intenso saber que uma mulher de palavras tão importantes por ali se encheu de pensamentos….

      Obrigada, novamente, por aqui passar, e ficar, e deixar…

    • Maurício Assuero em 3 de junho de 2018 às 16:48
    • Responder

    Cícero tem razão. A gente se transporta por entre os versos do texto.

      • Sheila em 6 de junho de 2018 às 18:00
      • Responder

      Maurício, que gostoso seu comentário. E que lisonjeio saber que os faço sentir assim… Espero sempre proporcionar mesmo boa leitura e boas reflexões.

      Obrigada

    • Maurício Assuero em 7 de junho de 2018 às 08:45
    • Responder

    Eu sempre me admirei muito sua forma de escrever e de externar sentimentos. Seu relato é tão sublime que a gente é capaz de se ver na cena. Por exemplo: o que a gente vê, imóvel, diante de um espelho? Apenas a imagem do rosto ou o passado? Eu me acanho, as vezes, de comentar, para não parecer pieguice ou algo que o valha, mas seus textos tem esse poder transportador. abs

      • Sheila em 12 de junho de 2018 às 18:49
      • Responder

      Maurício,

      O faça! Comente, acho gostosa a interação, além de ser um termômetro dos textos.

      Ah, ótimo saber dos seus sentimentos sobre os textos, vejo meu objetivo atingido quando têm sensações diversas!

      O espero por aqui!

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