André Rebouças

André Pinto Rebouças nasceu em 13/1/1838, em Cachoeira, Bahia. Engenheiro, abolicionista e inventor. Seu pai, Antonio Pereira Rebouças era advogado, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Ao lado de Machado de Assis, Cruz e Souza, José do Patrocínio, foi um dos representantes da pequena classe média negra em ascensão no 2º Reinado. Em 1842, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou em alguns colégios até ingressar no curso de engenharia da Escola Militar, junto com o irmão Antonio, em 1854. Quatro anos após, concluem o curso e em seguida são promovidos a primeiro-tenente.

Em 1861, os irmãos recebem uma bolsa de estudos e viajam à Europa para aprofundar os estudos de engenharia em ferrovias, portos e transporte marítimo, na França e na Inglaterra. De volta ao Brasil, em novembro de 1862, foram trabalhar no aperfeiçoamento dos portos e fortificações brasileiras. Em 1864 André alistou-se no Exército e foi para a Guerra do Paraguai na condição de engenheiro militar. Na ocasião desenvolveu um torpedo, que foi utilizado com sucesso durante as batalhas. Devido a problemas de saúde, teve que retornar ao Rio de Janeiro antes do fim da guerra. Foi nomeado Diretor das Docas da Alfândega em 1866 e permaneceu até 1871 trabalhando em diversos projetos para novos portos: João Pessoa, São Luís, Maranhão, Recife e Salvador. Junto com o irmão Antônio, apresentou à Corte o projeto de construção da estrada de ferro ligando Curitiba ao litoral, na cidade de Antonina. Na execução do projeto, o trajeto foi alterado para o porto de Paranaguá. Até hoje essa obra impressiona pela ousadia de sua concepção.

Demitido do cargo por motivos políticos, embarcou de novo, em 1872, para a Europa e Estados Unidos, onde sofreu preconceito de cor: foi impedido de se hospedar em alguns hotéis, entrar em restaurantes, assistir operas em teatros etc. Reagiu ao seu modo, discreto, e anotando em seu diário, que manteve durante toda a vida. Na viagem pela Europa, se empenhou na obtenção de recursos para auxiliar Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani. De volta ao Rio de Janeiro, passou a evitar o convívio social na Corte e intensificou a publicação de artigos na imprensa. Contratado pela Escola Politécnica, dividiu suas atividades entre lecionar e batalhar pela abolição da escravatura junto com Joaquim Nabuco e outros intelectuais. Participou da criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, Sociedade Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Seu envolvimento com a abolição não é apenas intelectual. Em 1883 foi eleito tesoureiro da Confederação Abolicionista, destacando-se como financiador e orientador da campanha no Rio de Janeiro. Com visão progressista, contrapunha-se a todos os tipos de escravidão e lutava contra a “reescravização do imigrante pelos donos da terra”. Dentre os abolicionistas, foi o que mais anteviu as profundas implicações da eliminação da mão-de-obra escrava. Em suas palavras: “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome… Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”.

Defendeu a emancipação e regeneração do escravo através da aquisição da terra. A transformação da agricultura brasileira deveria se dar com uma reforma agrária contemplando os negros libertos. Seu pensamento dirigia-se ao dia seguinte, quando os escravos fossem libertos e se mantivessem tão pobres e sem direitos como sertanejos. Tais ideias foram expostas em seu livro Agricultura nacional, estudos econômicos: propaganda abolicionista e democrática. Caso suas propostas fossem adotadas, a distribuição da riqueza e o problema racial no Brasil estariam noutro patamar. Além da reforma agraria, propunha o crédito rural de modo a garantir o desenvolvimento dos pequenos proprietários sejam brancos ou negros.

Tinha grande prestigio junto a Dom Pedro II e a Princesa Isabel, dos quais desfrutava uma amizade pessoal. No último ano do império, recebeu do imperador diversos encargos e participou ativamente dos acontecimentos políticos do País. Ao participar do baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, quase às vésperas da proclamação da república, foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o ocorrido, D. Pedro II solicitou à Princesa Isabel para ser seu par. O fato deixou a nobreza estarrecida ao mesmo tempo em que reafirmava a simpatia da Princesa pela causa abolicionista. Pouco depois, com a instauração da República, manteve-se fiel à monarquia e seguiu junto com a família real no “Paquete Alagoas” no exílio com destino à Europa.

Viveu dois anos em Lisboa, onde atuou como correspondente do jornal “The Times”, de Londres e colaborador da “Gazeta de Portugal”. Em seguida transferiu-se para a França e passou a viver em Cannes até a morte de Dom Pedro II, em 1891. No ano seguinte, aceitou convite para trabalhar em Luanda e passou a colaborar com alguns países africanos. Em meados de 1893 foi viver em Funchal, na Ilha da Madeira, até 9/5/1898, quando foi encontrado morto no mar em frente a sua casa. As homenagens e o reconhecimento público dirigidos à ele e seu irmão Antônio tem se proliferado em diversos estados brasileiros, tais como a grande avenida em São Paulo, o túnel no Rio de Janeiro e a cidade de Rebouças, no Paraná. A mais recente ocorreu em 2015, com seu nome dado ao Navio André Rebouças.

Deixou alguns livros publicados não apenas sobre o abolicionismo: A sêcca do norte, publicado pela Editora do Povo, em 1877, hoje considerado raríssimo, e outros republicados tais como Propaganda abolicionista e democrática; Diário da Guerra do Paraguai; Reforma e utopia no contexto do segundo império, que podem ser encontrados em sebos e antiquários. Sua vida e obra têm sido expostas na bibliografia referente ao 2º Império, além de algumas biografias: O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho (Ed. Revan, 1998); André Rebouças: um engenheiro do Império, de Alexandro Dantas Trindade.(Ed. Hucitec, 2011) e Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de André Rebouças, de Andréa Santos Pessanha (Ed. Quartet, 2005).

5 Comentários

  1. O JBF também é cultura e na vêia! Quantos brasileiros conheciam esta linda história? Idolatramos cantores medíocres, jogadores de futebol, presidentes ladrões e esquecemos de quem realmente dignificou este país. Parabéns ao autor do artigo Sr. José Domingos Brito.

  2. Esse mesmo episódio do baile é contado em minha família como tendo acontecido por pedido do Conde D’Eu, marido da princesa Isabel – mas com Francisco Paulo de Almeida, Barão de Guaraciaba ( o Barão Negro) – primeiro dono do palácio Amarelo, localizado em frente ao palácio Imperial, em Petrópolis. O preconceito racial na época foi grande o suficiente para – ao final do Império – obrigarem o barão a vender o palácio para a prefeitura, que ali montou sua câmara de vereadores. O Palácio Amarelo ainda é uma atração turística. Recentemente foi publicadas teses de mestrado e doutorado em História centradas nos barões do café do vale do Paraíba do Sul, e mais de uma se motivou no Guaraciaba.

  3. Pois é Gil, vão contando a história e vão acrescentando ou subtraindo pontos. Mas, o importante é o fato. Não sei o que estes cineastas brasileiros não se interessam em filmar um fato destes. A princesa retirar um negro para dançar. Um negro recusado por outra dama

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