8 junho 2018O CAMPEÃO



Décadas atrás, em Natal, na descida do Baldo, um pequeno grupo de boêmios, gostava de se reunir na calçada de uma bodega muito simples, onde só havia uma mesa velha e algumas cadeiras. No começo, eram poucos frequentadores, mas depois houve outras adesões. Os novatos sentavam-se até em caixotes vazios. Não queriam perder as boas conversas e o bom humor dos frequentadores.

O tira-gosto era sardinha, cujas latas ornamentavam as duas prateleiras da bodega. As bebidas disponíveis eram cerveja, cachaça e refrigerantes.

A bodega era humilde e o próprio dono fazia as vezes de empregado da limpeza e de garçom. Era um senhor alto, forte e careca, muito receptivo e carismático. Zé Coroa, como era chamado, era muito querido pelos boêmios. Eles preferiam passar o dia todo nessa simples calçada, bebendo e batendo papo, do que frequentar barzinhos de luxo. Só funcionava durante o dia.

Havia uma hierarquia entre os bebedores, de acordo com a capacidade etílica de cada um. Nilton, o líder dos frequentadores, tinha o apelido de “Campeão”, pois já tinha chegado a beber sozinho, num dia, uma grade de cerveja, ganhando uma aposta. O apelido pegou. Os mais fracos, que não aguentavam o rojão e se embriagavam rapidamente, eram chamados de “sem futuro”. Se atrapalhassem o ambiente, recebiam cartão vermelho do dono da bodega.

Campeão, representante comercial, era o mais falante da turma, simpático e o mais atualizado com as notícias de jornais. Por isso, era muito respeitado, e considerado “intelectual”. Quando falava, sua voz bonita e eloquente fazia com que todos o ouvissem com atenção.

Certa vez, Campeão conheceu Anita, uma jovem muito bonita, novata no bairro. Foi paixão mútua, à primeira vista. Ao vê-lo ser tratado com respeito e ser chamado de Campeão, a moça imaginou que ele fosse lutador de artes marciais.

Pouco tempo depois, conversando com uma conhecida, Anita falou no seu novo namorado, e ficou sabendo que ele era “campeão de bebedeira”. O rapaz era um alcoólico inveterado. Divorciado e com dois filhos, não havia jeito de maneirar a bebida. A cerveja e o cigarro, para ele, eram sagrados. A moça ficou decepcionada, mas preferiu ignorar o que considerou um “boato”. Foi a segunda esposa de Campeão, mas a paixão violenta que os uniu logo se transformou em “fogo de palha”.

O cervejeiro, vencedor de apostas, algum tempo depois estragou sua saúde. Não acreditou nos médicos. Quando resolveu levar o tratamento a sério e parar de beber, já era tarde. Dessa vez, ele perdeu o título de Campeão. Venceu a cirrose.

8 Comentários

  1. A bem da verdade, Budega ou bodega é um pequeno armazém de secos e molhados socado nessas esquinas de cidadelas do interior. É nesse antigo e saudoso estabelecimento comercial onde são vendidas bugigangas de todas as espécies como fumo de rolo, “caixa de fosco”, bainha de foice, rédea de gato, “retrós de linha corrente”, ingredientes para enfeitar caixão e mortalha dos anjinhos defuntinhos, agulha e bicos para enfeitar anáguas, perfume Tabu como também desodorante cashmere bouquet, além de tira-gosto(especialmente sardinha coqueiro) “bulacha mata-fome” bebida alcoólicas, cajuína e uma parafernália sem fim. Geralmente é um ambiente com aspecto sujo, normalmente frequentado somente por aqueles fregueses de sempre(principalmente os papudinhos no tocante à bebida), sem muita higiene, com uma péssima apresentação para os clientes.

    P.S.: – Budega que se preza é aquela que, quando o freguês adentra naquele ambiente se depara com um tufo de papel de enrolar prego no tablado do balcão e uma tora de madeira de cedro puro gasta pelo tempo logo acima daquele feixe de folhas de papel de embrulhar as mercadorias vendidas…

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Altamir Pinheiro! Em Nova-Cruz (RN), onde nasci e me criei, meu pai era comerciante de Secos e Molhados. Ele chamava o armazém de “Venda”, Comercializava mercadorias em grosso e no varejo. Já o meu tio Paulo tinha uma bodega, onde, além de vender alguns artigos de mercearia, despachava, no balcão, “bicadas” de bebidas, como “Zinebra” (Genebra), Cinzano, Cachaça e Conhaque de Alcatrão de São João da Barra. Os fregueses bebiam em pé, pois não havia onde sentar. Tomavam umas “chamadas” e iam embora…rsrs
      A bodega de Zé Coroa, aqui em Natal, era de uma simplicidade franciscana. Ele mesmo pegava na vassoura e varria até a calçada. Lavava banheiro, copos etc. Também servia de garçom. O sortimento de mercadorias era muito pequeno. Apesar da humildade do ambiente, existia entre os fregueses um ar de fraternidade e uma energia muito boa, parecendo uma espécie de confraria.
      Na verdade, há bodegas ricas e outras paupérrimas. O interessante é que todas elas tem o mesmo cheiro e o mesmo ar aconchegante…rsrs

      Um grande abraço e um excelente fim de semana!

  2. Violante,

    A sua crônica torna a sexta-feira especial porque os leitores fubânicos se deliciam com seu talento literário. Gostei do texto, pois me lembrou as histórias que o meu tio Genival Bezerra descrevia com detalhes bem-humorados sobre uma bodega de Iguaraci/PE. Um desses casos jamais esqueci e compartilho com a nobre amiga.
    Ele contava que um dos frequentadores dessa bodega era cleptomaníaco. Certa vez, Genival presenciou a pessoa, que tinha mania de roubar, colocar sob a camisa um bacalhau. Então, o dono do estabelecimento disse: – Pra onde o senhor vai com esse bacalhau. Ele respondeu: – Que bacalhau? O bodegueiro acabou com o mistério: – Esse bacalhau que o rabo está aparecendo no final da sua camisa!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  3. Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Aristeu Bezerra!
    Gostei demais do caso do bacalhau…Ainda bem que o bodegueiro viu em tempo. O final da abordagem foi hilária:

    “Esse bacalhau que o rabo está aparecendo no final da sua camisa!” kkkkkkkkkkkkk

    Um grande abraço e um feliz fim de semana!

    Violante

  4. Os campões cujo títulos advêm desta modalidade geralmente vão contar suas peripécias em baixo do chão. Conheci alguns destes ………, porém como diz o adágio : é melhor morrer fazendo o que gosta, que ser na vida um verdadeiro (a) frustado (a), afinal campeão ou não, todos iremos sem saber dia ou hora. Muito boa a crônica amiga. Beijos.

    • Obrigada pelo comentário, amiga Disterro! Quando a doença bate, os “felizes alcoólicos” amargam o sabor do arrependimento. É quando cai a ficha e eles entendem que já é tarde para deixar de beber. E o sofrimento é grande.

      Beijos e uma ótima semana!

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