O PENSADOR DE IPANEMA

Entre os anos 1978 e 79, em viagem ao Rio de Janeiro, resolvi fazer uma caminhada pela orla indo do Leme ao Leblon. Em Ipanema notei alguém, cuja fisionomia me pareceu familiar, vindo na minha direção num passo acelerado. Tratava-se do desenhista, tradutor, dramaturgo, humorista e pensador brasileiro Millôr Fernandes.

“Celebridade é um idiota qualquer que aparece na televisão”

Naquela época eu nem sonhava em escrever textos para qualquer jornal. Achava-me incompetente sem nada para oferecer de interessante ao leitor. O único predicado que possuía era uma gana desmedida por leitura. Lia até classificados.

“Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”

Vendo-o se aproximar de mim, tomei uma decisão rápida: vou me apresentar e lhe fazer algumas perguntas. O que perguntar, eu não tinha a mínima ideia.

“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”

Emparelhado com o dito, parei, na esperança de que ele também parasse. Deixei escapar um sonoro “Bom dia, Millôr!”, tentando entabular um papo.

“Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida”

Ou não me fiz entender ou ele não quis interromper o seu exercício. Continuou na caminhada deixando-me ali, com cara de paisagem, vendo-o se afastar.

“Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos”

Pus-me então, na posição do pensador, pois eu também não quebraria o ritmo de uma caminhada para atender a um desconhecido desejando insinuar a intimidade que não possuía com um interlocutor famoso.

“Se durar muito tempo a popularidade acaba tornando a pessoa impopular”

Não por isso deixei de admirar o vasto trabalho de Millôr nos livros, revistas e jornais onde ele publicava sua produção autodidata, um misto de inteligência, ironia e sátiras, emolduradas por refinado espírito cômico.

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”

Quanto deleite nos deu a coluna Pif-Paf, subscrita por Vão Gogo, personagem criado por Millôr Fernandes para servir-lhe de pseudônimo. E o que dizer dos desenhos divertidos de Retrato 3×4? Ambos publicados na revista O Cruzeiro?

“Quem fala muito mente sempre porque se esgota seu estoque de verdades”

Na revista Veja, de 1968 a 1982, Millôr ocupou duas páginas com o seu humor gráfico. Deixou o semanário por sentir sua liberdade criativa cerceado por apoiar Leonel Brizola, então candidato ao governo do Rio, em oposição a Moreira Franco.

“Errar é humano. Botar a culpa nos outros também”

Millôr Fernandes morreu em março de 2012. O governo do Rio de Janeiro dedicou-lhe um recanto, entre as praias do Diabo e do Arpoador, chamado Largo do Millôr. Nele existe um banquinho onde se incorporou um monumento com a silhueta do homenageado na postura do Livre Pensador, de Rodin, criação de Chico Caruso.

“O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é”

Numa próxima viagem ao Rio, sentar-me-ei no tal banquinho e, com o mesmo “Bom dia, Millôr!”, terminarei a conversa que sequer iniciei décadas atrás.

17 comentários

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    • ALTAMIR PINHEIRO em 9 de junho de 2018 às 09:15
    • Responder

    Legal!!! Pense num texto enxuto, bem talhado e com frases geniais intercalada entre os parágrafos, gostei!!!

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 10:30
      • Responder

      Obrigado, Altamir!
      Suas palavras servem de incentivo para quarquer escritor, quanto mais para este escrevinhador metido a besta.

    • Jorge C. Silva em 9 de junho de 2018 às 09:55
    • Responder

    Também gostei.

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 10:31
      • Responder

      O comentário acima é extensivo a vosmecê, Jorge.

    • Itaerço Bezerra em 9 de junho de 2018 às 10:03
    • Responder

    Meu caro José Marcelio, fantástico seu texto, falou de um cara que era “o cara” e ainda hoje é no que ele escreveu e no que ele disse.

    Parabéns mestre.

    Itaerço
    Imperatriz-ma

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 10:36
      • Responder

      Concordo com você, Bezerra, ainda por cima se considerarmos que o “cara” era autodidata. Obrigapo por seu comentário.

    • CÍCERO TAVARES em 9 de junho de 2018 às 10:46
    • Responder

    Muito bom o texto, José Narcelio: Honra a obra do Livre Pensador, do Cara, do Homem que deixou um legado de honestidade e simplicidade ímpares!

    Millôr faz falta a esse país esculhambado de hoje, com um congresso beirando da lama ao caos!

    Parabéns!

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 15:39
      • Responder

      Obrigado, Cícaro, pelo comentário. EU também sinto falta da verve de Miller, nas páginas das revistas que ele abrilhantava com a sua inteligência.

    • HELIO ARAUJO FONTES em 9 de junho de 2018 às 11:56
    • Responder

    Porra, Narcelio. Texto genial. Em minhas visitas esporádicas ao Rio, também tive a oportunidade de cruzar, na praia, nas ruas, nos teatros e nos aeroportos, com algumas celebridades brasileiras (do teatro, da TV, da política, do jornalismo e até (cruz credo) da política). Mas minha timidez atávica, impediu-me de me aproximar e tentar entabular uma conversação, que, tenho certeza, seria difícil e artificial. Mas que me daria imenso prazer, podes crer!

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 15:41
      • Responder

      Então ficha pra dois. Obrigado, Hélio pelo comentário sincero.

    • Tito em 9 de junho de 2018 às 13:16
    • Responder

    Lindo texto, mas cabe uma advertência. Não sente no banquinho quando voltar ao Rio, você vai correr um sério risco de ser assaltado.

      • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 15:45
      • Responder

      Tito, você me tirou do pensamento essa possibilidade cruel. Qual o cristão que tem coragem de sentar naquele banco para desfrutar da beleza de paisagem, sem um aparato de segurança?
      Valeu pelo alerta!

    • DECO em 9 de junho de 2018 às 14:24
    • Responder

    Supimpa! Recordar também é viver.

    • José Narcelio em 9 de junho de 2018 às 15:47
    • Responder

    Agradeço o “supimpa”, Deco. Forte abraço.

  1. Todos se lembram de Millôr como humorista, pensador… Eu me lembro dele como um cara que entendia à beça de economia. Antes da posse de Collor, e mesmo durante os primeiros meses desse período de trevas, eu só consultava o Vão Gogo para tomar decisões de investimentos e me dei muito bem naquele período. Os economistas recomendavam comprar ações. Enquanto todos os meus amigos vendiam o que tinham para investir na Bolsa, eu li no Vão Gogo: “e se a bolsa cair, vão comer o que – papéis?” .
    Pois bem, vendi os papeis que tinha e comprei imóveis, sem me endividar demais. Estavam baratos. E tirei o pé da lama.

      • CÍCERO TAVARES em 9 de junho de 2018 às 20:59
      • Responder

      GENIAL, GIL! Millôr Fernandes era tudo de bom para um país desmoralizado pelos políticos!

    • Goiano em 9 de junho de 2018 às 22:37
    • Responder

    Se não me falha a… a… a… como era o nome mesmo?…
    Bem, se ela não me falha, Millôr Fernandes também teve uma época interessante no Pasquim, do qual chegou a ser o editor.

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