FRASES E REFLEXÕES DE CÂMARA CASCUDO

“Comer de pé é modalidade de pasto, indispensável, justo, mas não humano, não natural, não social.”

“Andei e li o possível no espaço e no tempo. Lembro conversas com os velhos que sabiam iluminar a saudade. Não há recanto sem evocar-me um episódio, um acontecimento, o perfume duma velhice. Tudo tem uma história digna de ressurreição e de uma simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória.”

“A biblioteca é a minha Babilônia. E nela todos os volumes me interessam. Cada livro que leio – ou releio – me fascina. Mas a leitura é um hábito. Só a repetição traz o costume, o prazer.”

“Meu pai dizia que a rede fazia parte da família. A rede colabora no movimento dos sonhos.”

“Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou pior das intenções, me chamam de folclorista. Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando.”

“Foi apresentado a um figurão da diplomacia, no Itamaraty.
– Luís da Câmara Cascudo, Câmara Cascudo… parece que já ouvi falar no seu nome.
– O senhor é muito mais feliz do que eu. Estou absolutamente certo de que nunca
ouvi falar no seu.”

“Termino com saudades meu trabalho, libertador das erosões destínicas e demais cortesãos da velhice.”

“O que eu acho que define o homem brasileiro, é a rapidez da sua adaptação. É a sua miscigenação mental. O pau-de-arara, quatro anos depois, em São Paulo, é tão paulista como o caipira de Santos ou de Piracicaba. No Amazonas ninguém pode diferenciar o cearense de um local. Assim, vejo a adaptação do brasileiro em toda parte: em Portugal, na Espanha, na França, só é diferente a pele e a pronúncia, mas os hábitos, as interjeições, o andar, são impecáveis. É o que eu acho. É um perigo, porque essa descaracterização brasileira não muda e não toca a perenidade medular do seu temperamento. Em certos momentos ele é o brasileiro legítimo.”

“Sendo sempre o homem que emigra, o mestiço está sempre em forma para irradiar, com sua volubilidade verbal, tudo quanto pensa e crê.”

“Fecha esta máquina fotográfica, meliante. Há 70 anos que sou perseguido por tua espécie. Agora, repórter eu já fui. Lembro-me que, quando íamos entrevistar, nossa liberdade era grande. Se o homem não dizia nada, a gente inventava. Em 1915, meu pai possuía um jornal. Nele comecei como repórter.”

“Comparar é sempre mais cômodo porque estabelece a referência e com ela a compreensão.”

“É o cinema em casa, o mundo em casa. É o tapete mágico de Aladim, em que você viaja sem sair do lugar. Tem função deturpadora, e não orientadora ou elevadora. Mas para os velhos surdos, meio cegos e jumentos como eu, aos 83 anos, é a vida. Para quem não chega à janela, não lê jornais como eu, a televisão é minha vida, a minha viagem.”

“Pescado é profissional do mutismo; deve ficar silencioso dentro da selvagem musicalidade do mar.”

“Quando eu viajar, mais cedo ou mais tarde, a Universidade vai acabar comprando dos meus herdeiros a minha biblioteca. Ninguém é tão burro para dispensar livros tão incríveis.”

“Domingo, 21 de abril, 39.º aniversário do meu casamento. Ao despertar, a noiva de 1929 desaparecera. Fora assistir à missa na capela do Hospital. De regresso, beijos, abraços, congratulações. Dália declara não estar arrependida e me confesso capaz de reincidência com a mesma vítima.”

“Quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos.”

“O sexo pode ser adiado, transferido, sublimado noutras atividades absorventes e compensadoras. O estômago, não. É dominador, imperioso, inadiável. Por isso os alemães dizem que o sexo é fêmea e o estômago é macho.”

“Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida. Cultura popular é aquela que até certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é mestre, que sabe contos, mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer caretas, apertar mão, bater palmas e tudo quando caracteriza a cultura anônima e coletiva.”

Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986) foi historiador, antropólogo, advogado, professor universitário, jornalista e, principalmente, folclorista brasileiro. Era apaixonado pelas tradições populares, superstições, literatura oral e História do Brasil. Ele passou toda sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) , cujo o Instituto de Antropologia leva seu nome. O conjunto de sua obra é considerável em quantidade e qualidade: ele escreveu 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore brasileiro, em um total de 8.533 páginas, o que o coloca entre os intelectuais brasileiros que mais produziram. É também notável que tenha obtido reconhecimento nacional e internacional publicando e vivendo distante dos centro s Rio e São Paulo.

11 comentários

Pular para o formulário de comentário

    • Marcos Ribeiro em 11 de junho de 2018 às 11:07
    • Responder

    Boa a matéria, mas me recordo que você já havia publicado algo sobre ele ou estou enganado!

    • Aristeu Bezerra em 11 de junho de 2018 às 11:53
    • Responder

    Marcos Augusto,

    Grato por seu valioso comentário. A sua memória está excelente. Câmara Cascudo já foi assunto de três artigos no Jornal da Besta Fubana. Ele é considerado um dos gênios da cultura brasileira e um dos maiores ativistas culturais do mundo em todos os tempos. O mestre Câmara Cascudo, infelizmente, amarga ainda hoje o esquecimento de seus compatriotas. São poucos os que o conhecem e menos ainda o número dos que leram sequer um dos seus 31 livros. Espero que tenha gostado das frases e reflexões desse grande folclorista!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Carmen em 11 de junho de 2018 às 11:54
    • Responder

    Aristeu,
    Tua coluna de hoje dispensa comentários pois, tuas pesquisas nos trás sempre boas leituras.
    Escolhi;
    “Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida. Cultura popular é aquela que até certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é mestre, que sabe contos, mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer caretas, apertar mão, bater palmas e tudo quando caracteriza a cultura anônima e coletiva.
    Só isso já nos trás muito a refletir.
    Grata.
    Carmen.

    • Aristeu Bezerra em 11 de junho de 2018 às 12:12
    • Responder

    Carmen,

    Muito obrigado por suas generosas palavras que incentivam o prazeroso trabalho de explorar as preciosidades da nossa rica cultura popular. Quanto a reflexão sobre cultura popular, acrescento um breve comentário.
    Muitas vezes classificada como cultura tradicional ou cultura de massas, a cultura popular é um conjunto de manifestações criadas por um grupo de pessoas que têm uma participação ativa nelas. Ela é de fácil generalização e expressa uma atitude adotada por várias gerações em relação a um determinado problema da sociedade. A grande maioria da cultura popular é transmitida oralmente, dos elementos mais velhos da sociedade para os mais novos. Alguns estudiosos indicam que cada pessoa tem no seu interior a noção do que é popular, que é definido pela vertente de tradição e comunidade. Valeu, prezada leitora!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Flavio Feronato em 11 de junho de 2018 às 12:32
    • Responder

    Sr Aristeu tudo que postou desse brasileiro único é de grande valor. Eu só conhecia Câmara Cascudo pela fama, já que muitos falavam dele (e falam pouco!) . Mas de mais concreto aprendi nos teus textos e queria que escrevesse mais a respeito dele.

    • Aristeu Bezerra em 11 de junho de 2018 às 15:12
    • Responder

    Flávio Feronato,

    Agradeço o seu comentário. Quanto a sugestão de publicar mais artigos sobre Câmara Cascudo, irei aceitar com prazer. Sou um admirador da obra desse historiador, antropólogo, advogado, professor universitário, jornalista e, principalmente, folclorista, então constitui uma alegria saber que um leitor fubânico mostrou interessa na vida do genial Câmara Cascudo. Aproveito a ocasião para compartilhar uma reflexão desse homem apaixonado pelas tradições populares, superstições, literatura oral e história do Brasil:

    “É evidente que somos bem pouco, muito pouco felizes com a espantosa aparelhagem possuída para fazer-nos conhecer a terra, céu e mar. A vida tornou-se febril e nas cidades grandes são anfiteatros onde o homem se debate, sofrendo como se fosse submetido a uma vivisseção. Os complexos tradicionais de ‘amigo’, ‘compadre’, ‘companheiro’ sofrem restrições calamitosas e vão cedendo à maré montante dos interesses crescentes. Vivemos sob o signo da angústia. Angústia significa justamente o nosso estado de compressão, opressão mental, asfixia econômica, hostilidade ambiental”.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • violante Pimentel em 11 de junho de 2018 às 15:14
    • Responder

    Parabéns pela rica postagem, prezado Aristeu Bezerra! A obra do grande Luis da Câmara Cascudo, orgulho do Rio Grande do Norte, é inesgotável. Por mais que se escreva sobre ele, sempre será pouco. Por isso, continue nos brindado com suas maravilhosas pesquisas sobre esse grande Mestre. historiador, antropólogo, advogado, professor universitário, jornalista e, principalmente, folclorista brasileiro. Estudioso apaixonado pelas tradições populares, Câmara Cascudo atravessou fronteiras, tornando-se conhecido e respeitado nacionalmente e internacionalmente.

    As frases e reflexões de Câmara Cascudo, selecionadas por você, são geniais.

    Destaco essas, onde se percebe o seu lado amoroso:

    “Domingo, 21 de abril, 39.º aniversário do meu casamento. Ao despertar, a noiva de 1929 desaparecera. Fora assistir à missa na capela do Hospital. De regresso, beijos, abraços, congratulações. Dália declara não estar arrependida e me confesso capaz de reincidência com a mesma vítima.”

    “Quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos.”

    Um grande abraço da sua fiel leitora,

    Violante Pimentel Natal (RN)

    • Aristeu Bezerra em 11 de junho de 2018 às 21:44
    • Responder

    Violante,

    É gratificante receber a energia positiva do seu comentário. Luís da Câmara Cascudo viveu quase toda sua vida no Rio Grande do Norte. Lia muito, recebia visitas, escrevia demais. Em suas viagens fazia amigos e ouvia histórias. Trocava muita correspondência. Por ser um homem muito estimado, recebia por escrito ou ao pé do ouvido muitas notícias sobre causos que embalaram o sono e assustaram gerações e gerações. Professor Cascudo, como historiador que era, também pesquisou os caminhos trilhados pelo homem e seu legado nos deixou as mais preciosas informações sobre a cultura brasileira.
    Aproveito a oportunidade para compartilhar uma reflexão de Câmara Cascudo sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) com a prezada amiga:

    “Eu não conheço Carlos Drummond pessoalmente, mas somos amigos íntimos. Ele ainda estava em Minas Gerais e já se correspondia comigo. O que acho é que Drummond é superior ao prêmio Nobel. Você vai entender essa minha independência de julgar. Quem concede o prêmio Nobel? Ninguém sabe o que é a Academia de Ciências de Estocolmo. Você não sabe o valor dos homens que a compõem. Não conhece nenhum livro, nenhuma frase, nada deles. Eu faço muita questão de conhecer a idoneidade do juiz para julgar a sentença.”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

      • violante Pimentel em 12 de junho de 2018 às 00:07
      • Responder

      Obrigada, prezado Aristeu, por mais uma inteligente reflexão do Mestre Câmara Cascudo!
      Um abraço.

      Violante

    • CÍCERO TAVARES em 11 de junho de 2018 às 22:39
    • Responder

    Grande Aristeu Bezerra:

    Suas contribuições ao JBF o engrandecem mais ainda devido à qualidade dos textos!

    Forte abraço do admirador!

    • Aristeu Bezerra em 12 de junho de 2018 às 09:12
    • Responder

    Cícero Tavares,

    Agradeço o seu estimulante comentário. Gratidão é dívida que não prescreve, alguém muito sábio disse esta frase. Saiba que sempre leio os seus textos e admiro a sua coragem de escrever sobre temas polêmicos – um exemplo é o artigo sobre o suicídio – com talento de quem tem a pena leve. Compartilho uma reflexão do mestre Câmara Cascudo com o amigo:

    “Pertenço a famílias do Sertão onde vivi e deixei já rapazinho. O material desse depoimento constitui cenário de infância e juventude. Gado, cavalo, vaqueiros e cantadores. Residindo em Natal, a casa de meu Pai era o ‘Consulado do Sertão’ , cheia de exilados das caatingas e derrubadas. Como não entender a referência temática de minha Raça? A imagem que me aplicavam na inquietação menina, ainda emprego, maquinalmente, aos netos inocentes de Sertão: ‘Você está adivinhando chuva’? (CÂMARA CASCUDO, Luis da:Tradição, ciência do povo. Pesquisas na cultura popular do Brasil. São Paulo, Editora Perspectiva)

    Saudações fraternas,

    Aristeu

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.