MILHÕES EM AÇÃO

Quarta-feira, 3/6/1970. O Brasil se preparava para enfrentar a Tchecoslováquia, do presidente socialista Lodvík Svoboda. Em Santiago do Chile, brasileiros exilados fizeram Assembleia Geral e decidiram torcer contra o Brasil. Que Médici usaria o futebol em busca de se legitimar. 90 milhões em ação, se dizia então. Algo muito ruim para quem sonhava com o retorno da democracia. Pensavam assim, tão longe da pátria mãe.

Parênteses para lembrar do último encontro que tive com Josué de Castro, exilado em Paris. No final do jantar, em seu apartamento à beira do Sena, contei 12 comprimidos escondidos entre os talheres de sobremesa. E perguntei: “Dr. Josué, o senhor está tão bem, por que isso?” Ele respondeu: “Estou bem não, amigo, estou morrendo”. “De que, dr. Josué?”. “De saudade”. Assim foi, pouco depois. Saudades dele. Em Santiago, corria em todos aqueles olhos uma saudade parecida com a de Josué de Castro.

Começa o jogo no estádio de Jalisco, em Guadalajara (México). O grupo se reunia na calçada do Hipermercado Líder, da Avenida Irarrazával. Vendo, por trás das grades, a televisão que ficava dentro da loja. Ainda no começo da partida, gol de Petrás. Euforia geral. Pouco depois, Rivelino empata. E ouviram-se uns poucos gritos de gol. Mais tarde Pelé e Jairzinho (2) completaram a festa. Abraços gerais. Ganhamos! Nossos exilados se perguntavam, o que teria acontecido? E por que ninguém torceu contra?, como ficou acertado. Nova Assembleia Geral decidiu que a Copa do Mundo ficaria fora das questões políticas. E, a partir daí, todos passaram a torcer pelo Brasil.

Lembro desse fato por conta de pesquisa Datafolha mostrando que 53% dos brasileiros não estão interessados na Copa. A vida é dura, por aqui. E o desencanto anda por toda parte. Começando com nossa indigente elite política. A seleção, para quem foi pesquisado, é só mais um símbolo torto de nosso país despedaçado.

Senti a maldição dos símbolos em 1985. É que, anos antes, fui proibido de estudar no Brasil. E, mais tarde, também de dar aulas na Faculdade de Direito. Hino e Bandeira eram, para mim, símbolos da opressão. Ocorre que, por uma conspiração do destino, em 7 de setembro daquele ano eu era Ministro da Justiça. E assisti à parada militar no palanque oficial. À direita do Presidente Sarney. Seguindo o protocolo do Planalto ministros, nas solenidades, se colocavam em função da criação dos seus respectivos ministérios. Primeiro a ser criado, o da Justiça, à direita do presidente. Segundo, o da Marinha, à esquerda. E assim por diante.

Certo é que, vendo a tropa desfiliar, o coração passou a bater descompensado. O hino voltou a ser belo. A bandeira, cheia de significados bons. O limite foi ver ex-combatentes batendo continência, alguns se arrastando. Acredito que chorei mais, nesse dia, que em todo o resto de minha vida. À noite, tentei compreender o que se passou. E conclui que foi como uma catarse. Estava deixando para trás os tempos idos e compreendendo que um país se faz olhando para a frente. Sem esquecer a história, mas sabendo que nos compromete sobretudo o futuro. Como na sentença de Orwell (1984), “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.

Desconfio que domingo, quando começar o jogo contra a Suíça, esses 53% vão esquecer do que disseram na pesquisa. O sentimento de Nação é mais forte. E a Seleção vai voltar a ser, como no título do livro de Nelson Rodrigues, A Pátria de Chuteiras. Reproduzindo o que ocorreu com nossos exilados do Chile. É tempo para suspender o desalento, meus senhores. Ao menos por algum tempo. Depois tudo volta a ser como antes, claro. Nada contra. Mas só depois. Agora não.

5 comentários

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    • Liliana Falangola em 14 de junho de 2018 às 10:37
    • Responder

    BRAVOOOO!!!

    Liliana

    • Cícero Tavares em 14 de junho de 2018 às 11:26
    • Responder

    Se eu estava convencido de que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, lendo MILHÕES EM AÇÃO, mais convencido fiquei e com um detalhes a mais a acrescentar: a seleção brasileira não tem nada a ver com as merdas que os governos praticam de canalhice nos bastidores do poder!

    Nelson Rodrigues tinha razão: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa! Seleção é seleção!

    Obrigado Dr.º José Paulo por mais essa clareza!

    • Adônis Oliveira em 15 de junho de 2018 às 09:07
    • Responder

    Dr. Zé Paulo, como sempre, de uma lucidez imensa.
    Obrigado!

    • Cardeal XICO BIZERRA em 18 de junho de 2018 às 14:45
    • Responder

    Quando menino, encantava-me um canário-belga que pousava em minha janela, cantando alegre e belamente. Em sua homenagem resolvi torcer pela Bélgica nessa Copa que está chegando. Será minha modesta vingança em nome dos que se deitam no chão de hospitais da rede pública à espera de um atendimento que, muitas vezes, não acontecem: a morte chega antes. Será meu insignificante protesto contra a educação do País e o transporte público degradante a que o povo está submetido. Será o meu desagravo àqueles que passaram da extrema miséria ao desemprego e à pobreza enorme graças a alguns contos de réis oferecidos para calar a boca destes. Será o meu não-conformismo aos imensos ‘elefantes -brancos’ construídos às custas do povo que paga o maior imposto de todo o mundo. Será o meu Basta! ao roubo, à corrupção, aos malfeitos dos que se elegem e aos que habitam o entorno do nosso mundo político, não me interessando a coloração partidária de suas ‘ideologias’. E tem mais: se a Bélgica não conseguir ir adiante, estarei, de azul e branco, torcendo pela Argentina. Ou pela Espanha, por Portugal ou Uruguai. Quem sabe, a França? Nada de Pátria de chuteiras: a Pátria está descalça e o caminho é pedregoso.

      • Jose Paulo em 18 de junho de 2018 às 20:42
      • Responder

      Só espero que esse ardor perdure até o fim da Copa, Mestre. Vamos ver. Acho que, no meio do caminho, o amigo vai acabar tendo uma recaída. Vamos ver. Saudações ao gênio, José Paulo.

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