Os vizinhos de longa data estavam inconformados. Vladimir, filho de dona Maria e de seu João, rapaz criado no bairro, voltara a ser internado na véspera, menos de dois meses após ter saído da clínica de tratamento para alcoólatras e dependentes químicos. Com 25 anos de idade, Vladimir tem um caminhão de internações (seis, com a atual) nas costas. Seu currículo não lhe serve para nada, mas sua folha corrida lhe fecha todas as portas.

Desde cedo, o filho de dona Maria e de seu João consome em doses industriais cachaça ordinária, crack, cocaína e tudo mais que lhe aparecer à frente. Para tanto, não mede esforços: furta, rouba, trafica, falsifica cheques etc. Vendeu diversos objetos dos pais, passou nos cobres a motocicleta do irmão caçula, dublê de entregador de pizza e office boy. Afinal, o vício em primeiro lugar. Ainda não caiu nas garras da Justiça, mas está jurado de morte por mais de um traficante.

A vida de Vladimir fora das clínicas tem rota conhecida: casa – bar – biqueira; biqueira – bar – casa. Frequentemente, some por duas, três semanas. Faz da cracolândia seu amargo lar. Dona Maria e seu João nunca sabem se ele está vivo ou morto. Os velhos já não acreditam em recuperação. A razão que os leva a internar o filho de novo é evitar que ele morra de overdose, de bala de bandido ou de tiro de polícia.

As recaídas de Vladimir são cada vez mais intensas. Quando sente o peso da barra, ele pisa no acelerador: bebe, cheira e fuma sem descontinuar. Não há quantidade que satisfaça sua fissura. Então, ele furta, rouba e trafica no mesmo ritmo alucinante. Inconscientemente, ele força a barra para ser internado. Nas clínicas, em pouco tempo, passa a comer feito leão (a falta de drogas precisa ser compensada de alguma maneira), ganha peso, exibe seus conhecimentos sobre os doze passos e as reuniões dos Narcóticos Anônimos. Vive a repetir, em alto e bom som, orações e expressões como “Glória a Deus” e “Aleluia”.

Brincalhão, não reclama de nada, faz da clausura involuntária um spa para gente de posses poucas, como ele e família. Nos cultos evangélicos, canta, toca violão, lê a Bíblia, simula entrar em transe ante “a palavra do Senhor”. Participa ativamente dos shows da fé. Nos momentos de orações, que precedem as cinco refeições diárias, agradece a Deus por ter lhe enviado a uma “casa como esta”. Amém.

Não há dia em que o filho de dona Maria e seu João não repita “n” vezes que está recuperado – muito embora não se esqueça da cachaça, da cocaína, do crack e da maconha. Adora funk e tatuagem. Diz para quem se dispõe a ouvi-lo que não sossegará enquanto não cobrir todo corpo com imagens de muitas cores e formatos.

Terminada a internação, Vladimir volta para casa com muitos quilos a mais. Por economia e estratégia de marketing, as clínicas de recuperação – que na verdade recuperam poucos (segundo a Organização Mundial da Saúde, só 3%, em média, não voltam a reincidir) – abusam dos carboidratos. Quem era pele, osso e pó vira gorducho. Ainda que não queira. Muitos ainda acreditam que bochechas vermelhas e quilos a mais são sinônimos de saúde.

Vladimir não foge à regra. Diz que a atual será sua última internação, que não volta mais para um lugar daqueles, que já planejou uma nova vida, que nunca mais decepcionará mãe e pai, que quer cuidar do filho pequeno etc. Mas, antes de colocar em prática seus muitos planos, vai dar um instante no bar e uma passadinha na biqueira. Para dar adeus à velha vida.

6 Comentários

  1. Grande cronista Orlando Silveira:

    Fantástica crônica! De testa – como dizem os cearensês – eu adorei!

    Gosto de história que me emociona! Para mim o maior escritor é aquele que escreve para todo mundo entender e se encantar com o escrito! O nobre cronista é um deles!

    Parabéns mais uma vez!

  2. Sinceramente? Não tenho dó de drogado, não! Roubam, matam, maltratam, infernizam a vida de toda a família e depois vem com a história que são “doentinhos”! A família só descansa quando um bosta desses bate as botas! Também discordo dessa nova visão “maternalista” do drogado. Não são doentes e sim criminosos além de responsáveis por financiar toda essa violência que acompanha o tráfico de drogas. Não existissem usuários os traficantes iriam vender para quem? E antes que eu esqueça, não venham as “Marias do Rosário” dizer que são frutos de uma sociedade desigual e todo aquele blá-blá-blá idiota! A imensa maioria dos pobres (que é infernizada por esses imbecis) não usa e tem horror de quem usa drogas.

  3. Pois, por mim, o governo deveria fornecer quantidades industriais de todos os tipos de drogas aos fissurados.
    Assim, batiam as botas mais rápido e paravam de encher o saco dos outros e acabava rapidinho com o tráfico e todas as suas mazelas associadas.
    Pense a redução de custo na polícia, em vidas desperdiçadas por balas perdidas das guerras entre traficantes, na paz que reinaria no mundo dos “normais”, já que a turma da doideira ficaria confinada em um ghetto a fim de melhor poder curtir seus baratos.
    A regra seria mais ou menos assim:
    Quer entrar? Meta bronca! Vá fundo!
    Só não me venha depois com xurumelas, querendo socializar suas mazelas e misérias. MORRA! E de preferência, bem rápido. Não fará falta.

  4. O colega Orlando Silveira é um daqueles cronistas que fazem inveja à quem gosta de um texto atraente, enxuto e convincente. É um inveja saudável que me leva a dizer: Cabra bom! Queria escrever assim! Fico orgulhoso de ser seu colega neste JBF

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