MARIA PEREBA

Papai viajou muito pelas cidades Paraíba, pois era Representante de Vendas de produtos farmacêuticos. Ouviu histórias que ao recontar obtinha boas gargalhadas dos seus ouvintes e assim aumentava o cartel de amizades. Dentre elas uma que sempre gostei de que ele repetisse.

De certo cabaré que estava no auge na década de 40 – “Fados & Fodas” – de propriedade do portuga conhecido por Célio Novelino, localizado em Bayeux, havia uma cidadã, já meio derrubada, que só era requisitada para “Serviços de Emergência”, dias em que as boazudas queimavam o expediente.

A infeliz, embora ainda jovem, tinha afecções de pele, muitas perebas pelas canelas, o rosto já estava maltratado pelo tempo, as pernas eram cangalhas e falava gaguejando. Mas as cochas chamavam a atenção. A “turma do fiado” era seu alvo “de caderneta”. Diziam que era “barata e boa”.

Chiquita del Fuego era Maria Pereba

Mas a sorte lhe favoreceu conhecendo um Produtor de Talentos que levando-a pro Rio de Janeiro lhe deu um trato geral, capacitando-a a compor a equipe de segunda linha de Carlos Machado, no Cassino da Urca, amiga íntima de Chico Anysio e José Santa Cruz, que estavam começando suas carreiras.

Fez tratamento dermatológico de forma que limpou a pele das “medalhas de bom comportamento”. Com a equipe de estudantes do Dr. Pitangui, na época recém-diplomado, reformou a “fachada geral”, transformando-se em tipo semelhante a uma estrela de Hollywood.

Aprendeu alguma coisa de castelhano vulgar. Mas não teve ortopedista que resolvesse o problema de suas pernas “agarrinchadas”, embora atraentes. Só deixava tirar fotos das coxas quando estava sentada, como está foto que ora publicamos.

Amarildo Neves, o empresário de Emilinha Borba, deu um jeito de botar a moça no estrelato.

Criou um artifício artístico inovador: ela só cantava sentada num banquinho e sabia provocar o público, pois era da mesma laia da saudosa Dercy Gonçalves.

Fazia perguntas indecorosas aos homens da platéia e soltava palavrões cabeludos, o que era permitido na época. Para esquentar os frequentadores sacudia uma das grossas pernas para o ar, disfarçando, com classe, a má formação das canelas.

Entrosada com Carlos Manga, Colé, Silvino Neto e outros artistas, começou a fazer sucesso, dando alguma “canja” para eles, naturalmente. E dizia-se que dava adoidado.

Amancebou-se com seu empresário e amigo e foram residir no Uruguai, fazendo de Punta del Leste seu “centro de operações”. Apresentava-se como “Chiquita del Fuego”.

Era tempo em que ali se concentravam os astros e estrelas da América do Sul e ganhavam bons trocados nos cassinos da cidade:, entre outros, Gregório Barros. Los Panchos, e Gardel, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino.

Mas “Chiquita” sempre era a artista que fechava o show, porque era anunciada como uma estrela do teatro, sabendo dar um trato em qualquer sket. Era o sucesso total de um dos melhores teatros, depois das atrações internacionais do canto.

Certa noite, encerrado o espetáculo, “Mané da Feira”, um turista paraibano rico, ex-morador de Bayeux quando jovem, foi ao camarim para cumprimentá-la, por observar que a estrela era bem parecida com certa criatura de sua terra, com quem já teria furunfado várias vezes no tempo em que era jovem, estudante e pobre.

Em lá chegando, indagou:

Tu não me conheces, Maria? Sou”Mané da Feira”!

Ao que ela respondeu num espanhol totalmente macarrônico:

Jô tiengo una vaga recordacion de os tê!…

Mané Jorge soltou o verbo na frente de todos que estava ali:

Deixa de ser sacana, mulé! Só consegues enganar os otários daqui. Tu continuas sendo, pra mim, a escrachada “Maria Pereba”, do cabaré “Fados & Fodas” lá da Paraíba do Norte.

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.