OLINDA, O CRIME MAIOR

Foi o incêndio da Vila de Olinda pelos holandeses, na noite de 25 de novembro de 1631, o maior atentado já cometido à uma cidade brasileira em cinco séculos de nossa História. Ao incêndio seguiu-se a demolição dos preciosos templos, conventos e prédios públicos, seguindo-se da retirada do material para uso na construção de uma nova cidade no bairro portuário do Recife.

Pelas imagens preservadas nos quadros de Frans Post e outros artistas do Brasil Holandês, se constata que do fausto da antiga vila só restaram ruínas. A destruição dos templos, conventos, prédios públicos e residências transformaram a primitiva capital de Pernambuco em uma cidade-fantasma, com paredes demolidas e ruas abandonadas.

Após a expulsão dos holandeses em 1654, Olinda iniciou a difícil missão de ressurgir das próprias cinzas. Enquanto os de Olinda trabalhava em sua reconstrução, soerguendo todo o seu casario, bem como o Colégio dos Jesuítas, o Convento dos Franciscanos, a Matriz do Salvador do Mundo, o Hospital da Misericórdia, o Convento do Carmo, a Matriz de São Pedro, o Mosteiro dos Beneditinos e outras igrejas também importantes, no Recife tudo era novidades e progresso.

Enquanto no Recife tudo apontava para o novo e o moderno, Olinda permaneceria por séculos com as marcas da destruição causada pelo incêndio criminoso de que foi vítima em novembro de 1631, como bem demonstra o professor José Luiz Mota Menezes :

O Recife, ampliado e desenvolvido pelos holandeses, encontrava-se em melhores condições que Olinda. Assim a reabilitação urbana desta cidade, muito arruinada, demorou muitos anos. Apesar de elevação à condição de cidade em 1676, ainda nela se viam grande número de casas abandonadas no século XVIII.

Os edifícios religiosos, ao espalhar o poder do açúcar presente nos proprietários rurais, que viam em Olinda as suas origens aristocráticas, foram reconstruídos em maior grandeza. Eles refletiam antes o maneirismo e passaram a falar a linguagem do Barroco lusitano onde certas inovações estéticas se incluíram, resultantes do inexistir resistências estilísticas anteriores, o que propiciava maior criatividade dos artistas luso-brasileiros.

Os vazios na área urbana de Olinda e o abandono que se seguiu, são testemunhados pelos depoimentos de viajantes que estiveram em Pernambuco no início do século XIX, a exemplo de Maria Graham que, apesar de surpresa com a paisagem olindense, não deixa de lamentar o seu estado melancólico de ruínas.

Fiquei surpreendida com a extrema beleza de Olinda, ou antes, dos seus restos, porque agora está num melancólico estado de ruína. Todos os habitantes mais ricos há muito se estabeleceram na cidade baixa (no Recife). Como as rendas do bispado são agora reclamadas pela coroa, e os mosteiros foram suprimidos pela maior parte, cessou até mesmo o esplendor fictício das pompas eclesiásticas. O próprio colégio (Seminário) onde os jovens recebiam de algum modo educação, ainda que imperfeita, está quase arruinado e é raro encontrar de pé uma casa de qualquer tamanho. Olinda jaz em pequenos morros, cujos flancos em algumas direções caem a prumo, de modo a apresentarem as perspectivas rochosas mais abruptas e pitorescas. Estas são circundadas de bosques escuros que parecem coevos da própria terra: tufos de esbeltas palmeiras, aqui e ali a larga copa de uma antiga mangueira, ou os ramos gigantescos de copada barriguda, que se espalha amplamente, erguem se acima do restante terreno em torno, e quebram a linha da floresta; entre esses, os conventos, a catedral, o palácio episcopal, e as igrejas de arquitetura nobre, ainda que não elegante, colocam se em pontos que pode riam ser escolhidos por um Claude ou um Poussin; alguns ficam nos lados íngremes das rochas, alguns em campos que se inclinam suavemente para a praia; a cor deles é cinzenta ou amarelo pálido, com telhas avermelhadas exceto aqui e ali quando um campanário é adornado com telhas de porcelana azul e branco.

No final do século XVII e por todo século XVIII, viveu-se em Pernambuco, quer em Olinda ou no Recife, mesmo em outras vilas como Goiana e Igarassu, uma verdadeira febre de construções de caráter religioso, financiadas pela produção do açúcar ou pelo rico comércio. Tamanho número de obras, propiciou-se um mercado promissor aos artistas locais que, inspirados nos modelos portugueses do estilo D. João V (1707-1750), ou mesmo em desenhos obtidos na Itália, vieram a criar, por todo o século XVIII e parte do século XIX, elementos característicos de um barroco aclimatado aos trópicos.

Engenheiros militares, arquitetos, mestres-pedreiros, carpinteiros, entalhadores, marceneiros, douradores, pintores, escultores, músicos e uma infinidade de profissionais artistas estavam em constantes atividades produzindo e construindo obras novas, para a mitra diocesana, irmandades, ordens religiosas e particulares.

Ordens religiosas como os Jesuítas, Carmelitas, Franciscanos, Beneditinos e Capuchinhos que, nos séculos XVIII e XIX, transformaram seus templos em grandiosos monumentos da fé cristã.

Foram essas ordens religiosas, particularmente os jesuítas e franciscanos, que desenvolveram, desde o início da segunda metade do século XVI, as escolas de formação de artistas. Recorda-se a presença em Olinda do jesuíta Francisco Dias, responsável em Lisboa pela construção da igreja de São Roque (1566-1591), no Bairro Alto, que trabalhou nas obras da igreja de Nossa Senhora da Graça (1577), “dentro do espírito do modo nostro – economia, austeridade, funcionalidade e adaptação à realidade circundante – das construções jesuíticas desse período [que] adotavam indistintamente soluções do passado medieval lusitano”.

Os franciscanos, chegados a Pernambuco em 1585, possuíam em 1655 vinte conventos e inúmeras missões. No século XVIII, no território da Província de Santo Antônio, compreendido entre a Bahia e o Maranhão, encontram-se assinalados 13 conventos e um hospício. Para a construção e manutenção dos seus templos e conventos, criaram os franciscanos as oficinas de formação de artistas que vieram se multiplicar em toda região.

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