27 junho 2018 CHARGES

NICOLIELO

STF, UM MONSTRO DE 11 CABEÇAS E 2 LADOS

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello disse, em entrevista à Rádio e Televisão de Portugal (RTP), que a prisão de Lula é ilegal e também que o presidenciável petista é inelegível.

A declaração de Sua Excelência, levada ao ar na sexta-feira 23 de junho, produziu impacto e estranhamento. A Nação está abalada pela plena vigência de uma crise política, econômica, financeira e ética que amargura 24 milhões de brasileiros sem emprego, perspectivas nem esperança, segundo informação dada por uma das poucas instituições do Estado nacional que ainda se pode orgulhar de gozar de prestígio e credibilidade, o IBGE. Isso se agrava com a expectativa da realização a 106 dias da sentença (no sentido semântico, não no jurídico) de eleições gerais – para presidente, governadores, Câmara dos Deputados, Senado Federal e Assembleias Legislativas – com prognósticos imprevisíveis e preocupantes.

Nesse panorama, o sujeito da frase é o principal elemento de perturbação de um cenário, embora não seja, justiça lhe seja feita, o único. Presidente mais popular da História da República, conforme recentes levantamentos de pesquisa de opinião pública, deixando para trás figuras mitológicas como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, mantém confortável dianteira nos levantamentos de intenção de votos para o pleito de 7 e 28 de outubro.

Se não fosse – como é – impedido de disputar o pleito, por encarnar boas lembranças de bonança, que seus devotos dissociam da desgraceira atual, por ela produzida, ou por emular Gulliver em ambiente de pigmeus, Lula é um espantalho entre abutres. Alguns querem devorá-lo, seja porque governará contra seus interesses oligárquicos, seja por terem consciência da catástrofe incomparável que seria a repetição do desgoverno da demagogia populista e devoradora de recursos públicos. Mas ainda se prostram a seus pés políticos, burocratas e sanguessugas de academia, cultura e artes expulsos do opíparo banquete da espoliação do erário.

No mítico Raso da Catarina do sertão de místicos e cangaceiros, o ministro Mello surge como um misto do beato Antônio Conselheiro e do cabra Corisco com o cajado da Constituição na mão canhota e o martelo de juiz na direita. Na semana encerrada com seu aparente golpe no cravo e outro na ferradura, seus colegas aliados na Segunda Turma cuspiram nas inúmeras evidências e “coincidências” de depoimentos de delatores premiados para negar, por cinco a zero, punição ao casal Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. As batatas da vitória foram devoradas no festim (com toda a razão) de crentes do padim Lula, que atribuíram à notícia o condão mágico de abrir a cela que confina o profeta e anula a profecia.

A decisão, mais do que evidente, inevitável, de Fachin de transferir para o plenário o julgamento da tentativa da defesa do petista de cancelar a condenação do réu, decidida em primeira e segunda instâncias (por unanimidade), verteu fel no chope da vitória num jogo que nunca foi, nem tinha como ser, preliminar. O relator da Lava Jato não podia deixar de fazê-lo, dando sequência à decisão tomada pela vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), desembargadora Maria de Fátima Freitas Labarrère. Da mesma forma, o presidente da Segunda Turma do STF, Ricardo Lewandowski, que ninguém em sã consciência acusaria de antilulista, nada poderia fazer de diferente do que fez: desmarcou a sessão (anteriormente agendada para ontem) na qual tal pedido seria votado.

Nessa guerra, em que se permitem adiamentos, recursos e chicanas vigentes no Judiciário, que parecem nunca ter fim, o advogado de Lula “estranhou” que Labarrère tenha tomado a decisão às vésperas da reunião já marcada no STF. Ou seja, à falta de fatos e, agora, até de argumentos, restou a Cristiano Zanin exigir do Judiciário que submeta o calendário à conveniência de seu cliente.

No fragor dessa batalha é que o ministro Mello transportou para além-mar sua guerrilha particular, ao lado dos companheiros de turma Lewandowski, Gilmar, Celso e Toffoli, que soltam presidiários de colarinho-branco aos magotes, contra decisão do colegiado pleno do STF, que autoriza a prisão de condenados em segunda instância. Ao fazê-lo, o douto membro da colenda Corte a desafia, sobrepondo com arrogância às decisões majoritárias desta as próprias convicções ou os interesses, sejam lá quais forem, pessoais. Destarte, ele confirma o veredicto pouco lisonjeiro sobre a mais alta instância judiciária manifestado pelo especialista Joaquim Falcão, da FGV: o de que não há um STF uno, mas um conjunto desarmonioso de 11 cabeças. Ou seja, uma conjunção de Hidra, o monstro mitológico que habitava a lagoa de Lerna – com corpo de dragão e nove cabeças de serpente, cujo hálito era venenoso e que podiam se reproduzir –, com o deus romano Jano, de duas faces, uma olhando para a frente e a outra, para trás.

“Processo, para mim, não tem capa. Processo, para mim, tem unicamente conteúdo. Eu não concebo, tendo em conta minha formação jurídica, tendo em conta a minha experiência judicante, eu não concebo essa espécie de execução”, declarou Mello. A frase dá definitivamente eco ao discurso dos arautos do profeta de Vila Euclides, segundo os quais este é vítima de uma perseguição contumaz de elites exploradoras que controlam a polícia, o Ministério Público e as duas instâncias iniciais do Judiciário. Ao fazê-lo, o ministro adere à campanha difamatória do Partido dos Trabalhadores (PT), que não tem alternativa ao presidiário mais popular do País para disputar a eleição presidencial, no pressuposto de que toda a Justiça se resume ao plenário fracionado da corte real, entendida a palavra como de reis, e não da realidade.

E sem perder o hábito de confundir só para contrariar, repetiu o Conselheiro Acácio, ao reafirmar o óbvio ululante da inelegibilidade de Lula.

* * *

LULA FICA PRESO, MAS PODERÁ RECORRER ATÉ A ETERNIDADE

27 junho 2018 CHARGES

YKENGA

O CANCIONEIRO DO CICLO JUNINO

O ciclo junino é um dos mais festejados do calendário folclórico pernambucano sendo, também, o de origem mais remota. Os festejos dedicados aos santos de junho são antecedidos pelos chamados noiteiros do mês maio, em honra da Virgem Maria, de origem historicamente recente, vez que as primeiras indulgências datam de 21 de março de 1815, conferidas que foram pelo Papa Pio VII.

Em Pernambuco o mês mariano veio a ser introduzido em 1850, no convento do Carmo do Recife, sob a inspiração do frei João da Assunção Moura e popularizou-se através dos frades capuchinhos do convento da Penha: “no exercício do mês mariano tudo é música, poesia e flores” (Pereira da Costa).

Das igrejas os cânticos e ladainhas em honra da Virgem passaram a ser entoados nos noiteiros das residências, costume ainda hoje mantido na zona rural e em alguns bairros do Recife e Olinda.

TUDO COMEÇA COM SANTO ANTÔNIO

Terminado o mês de maio, tem início as Trezenas de Santo Antônio, logo no dia 1º de junho, mantendo assim esta secular devoção ao santo lisboeta introduzida em Pernambuco em 1550, quando foi erguida uma capela ao santo que deu origem, em Olinda, ao primeiro convento carmelita do Brasil: Convento de Santo Antônio do Carmo.

É Santo Antônio (Lisboa, 15.VIII.1195 – Pádua, 13.VI.1231) o orago mais popular do Brasil, onde possui 228 freguesias sob a sua invocação, vindo em segundo lugar São José com 71. Nas famílias, Antônio é o nome escolhido e rara é a cidade, vila ou povoado que não tenha uma, ou mais, ruas ou avenidas com o seu nome, igrejas sob sua devoção. Afirma Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que “apesar de tanta bajulação e mudanças corográficas o Brasil possui 70 localidades como nome de Santo Antônio”.

Em Pernambuco os franciscanos fundaram o seu primeiro convento em terras brasileiras, em 13 de março de 1584, na então Vila de Olinda fincando a custódia sob a proteção de Santo Antônio. No Recife, a tradição do culto do santo data de 1606, quando foi iniciada a construção do convento franciscano da então ilha de Antônio Vaz, hoje denominada de Santo Antônio, estando o templo localizado na atual Rua do Imperador Pedro II.

Em 19 de novembro de 1709, a antiga povoação do Arrecife dos Navios veio a ser denominada de Vila de Santo Antônio do Recife, apesar do empenho do então governador Sebastião de Castro Caldas em denominá-la de São Sebas-tião, o que lhe custou uma advertência do Rei de Portugal. Em 1918 foi o santo lisboeta confirmado como padroeiro principal da cidade do Recife pelo Papa Benedito XV, ao conceder o co-padroado a Nossa Senhora do Carmo que ficou sendo “a padroeira menos principal”. Como se não bastasse é Santo Antônio o padroeiro dos pernambucanos, tendo sua imagem figurado nos estandartes dos exércitos luso-brasileiros quando da Insurreição Pernambucana eclodida em 13 de junho de 1645, dia de sua festa.
Durante treze noites, em residências das mais diver-sas, os seus devotos estão a cantar em coro:

Milagroso Antônio,
Nosso padroeiro.
Enche de alegria,
Pernambuco inteiro

SÃO JOÃO E SÃO PEDRO

Dentre as festas do ciclo junino, porém, é a de São João a mais festejada em Pernambuco. É também a festa popular mais antiga do Brasil, já sendo registrada por frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil 1500-1627, assim referindo-se aos naturais da terra… “acudiam com muita boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Trata-se de uma festa de grande misticismo, a partir do próprio nome Batista – o que batiza cheio de graça -, em cuja noite se praticava feitiçarias, como demonstra a denúncia de Madalena de Calvos contra Lianor Martins, a Salteadeira, acusada dentre outras coisas, de trazer consigo uma semente enfeitiçada colhida na noite de São João, segundo depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, em 22 de novembro de 1593, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco.

As festas juninas foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses, eles próprios ainda hoje cultores desta milenar tradição marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa as festas juninas coincidem com o início do verão, daí a presença da tradição de costumes pagãos dentro dos festejos, como adivinhações e o culto ao fogo.

No que diz respeito às fogueiras, ensina a tradição cristã divulgada pelos jesuítas ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer um enorme fogaréu no sentido de anunciar o nasci-mento de seu filho João Batista:

“Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz”. (João 1,6-8).

No Brasil a festa acontece com o início do inverno, tempo de colheita do milho e do feijão no Nordeste, que sempre está a espera das boas invernadas de modo a afastar o espectro das estiagens de modo a garantir a sua subsistência; como na polca de Zé Dantas e Luís Gonzaga, Lascando o cano (RCA 80/307B-1954):

Vamo, vamo Joana
Findou-se o inferno
Houve um bom inverno
Há fartura no sertão…,
Ai! …Joana, traz pamonha, milho assado
Vou matá de bucho inchado
Quem num crê no meu Sertão.
Traz a riuna que eu vou lascar o cano
Pela safra desse ano
Em louvor a São João.

CANCIONEIRO JUNINO

Em se tratando de um povo de bailadores, acostumado a dançar no meio da rua, no Brasil os festejos juninos é marcado, não somente pelas fogueiras, balões, comidas da época (nas quais predominam o milho, a mandioca, a castanha de caju e dos doces), mas também pela música em seus mais diferentes gêneros a movimentar os arraiás, residências, comércio, clubes sociais, pro-gramação de rádio e televisão e, sobretudo, a alma festiva dessa gente; como naquela polca de Zé Dantas e Joaquim Lima, Chegou São João, gravada por Marinês (RCA- BBL1075-B-l/ 1960):

Eita pessoá!
Chegou São João!
Vou me espraiá,
Vou dá no pé prô meu Sertão.
Eu vou pra lá,
Brincá com Tonha,
Com Zefa e Chico,
Comer pamonha e canjica
Vou soltar ronqueira,
Bebê e dançar coco
Em volta da fogueira.
Vou soltá,
Foguete, balão, buscapé
Bebendo aluá, cachaça e capilé

A festa de São João tem início com o Acorda Povo, logo na madrugada do dia 23, acordando os moradores ao som de zabumba, caracaxá, ganzá, triângulo, sanfona, tudo mo-vido a muita cachaça: “Acorda povo que o galo cantou / Foi São João que anunciou…”.

No por do sol do dia 23, véspera da festa do santo, são acendidas às fogueiras e a festa tem continuidade com a Bandeira de São João.

Uma procissão antecipada por uma estrela, coberta de papel celofane com 150 cm. de diâmetro, iluminada por vê-las no seu interior, é carregada por dois meninos. Seguem-se duas filas, formadas por homens e mulheres, que cantam e dançam em honra do santo, fazendo marcação com os pés e, por vezes, trocando umbigadas. Segue-se de uma bandeira, pintada com a imagem do Batista menino com o carneirinho, segurada em suas pontas por quadro adolescentes, antecedendo ao andor com a imagem do santo, esculpida em gesso ou madeira, carregado por quatro moças vestindo branco, encarnado e verde, cores mantidas também nas lanternas dos acompanhantes. Finalmente uma banda de pífanos, ou um terno de sanfona (acordeom, zabumba e triângulo), acompanha os seguidores no seu canto:

“Que bandeira é esta / Que vai levantar/ É de São João para festejar/ Que bandeira é esta / Que já levantou/ É de São João, primo do Senhor”.

A música é uma constante nos festejos juninos desde os primeiros dias da colonização. Foi assim com as capelas, referidas pelo frei Vicente do Salvador e descritas pelo Padre Carapuceiro, continuando em nossos dias com a adaptação de ritmos oriundos de outras plagas, como o xote (schot-tisch), proveniente da Hungria; a polca e a mazurca, originárias da Polônia, e a quadrilha, que teve por berço os salões aristocráticos de França e, no Brasil, veio a ser dança-da da Corte às casebres da zona rural, como bem assinala o jornal de críticas O Carapuceiro, em sua edição de 6 de abril de 1842:

“Nas baiúcas mais nojentas/ Onde a gente mal se vê/ Já se escuta a rabequinha,/ Já se sabe o balancê./ Nisto mesmo está o mérito/ Deste dançar tão jacundo,/ Que sem odiosa exclusão,/ Acomoda todo o Mundo”.

Não faltam nessas animadas festas os ritmos originários da terra, como o coco-de-roda, originário dos batuques africanos, que marcado por um ganzá, nas mãos do solista (tirador), acompanhado por um tambor em compasso biná-rio, e respondido pelas vozes dos dançarinos a marcarem o ritmo com sapateado dos seus tamancos de madeira, trocas de umbigadas e assim mantém a alegria a noite inteira. Para Pereira da Costa, in Folk-Lore Pernambucano (1908), o coco é a “dança querida do populacho, com certa cadência acompanhada a palmas, e na qual os foliões acomodam trovas populares repetidamente”[…] “o coco, porém, está tão vulgarizado que chegou mesmo à zona sertaneja, com a sua particular toada, mas, com letra variada, convenientemente acomodada ao canto, e obedecendo sempre a um estribilho contínuo, cantado em coro pelos circunstantes”.

Já era descrito no conto de Luís Guimarães Júnior (1845-98), que, estudante da Faculdade de Direito do Recife, publicou no Diario de Pernambuco, 8 de fevereiro de 1871, um conto sob o título “A alma do outro mundo”, onde comenta o que chamou de “samba do Norte” , na verdade o nosso coco-de-roda. Rodrigues da Carvalho, in Cancioneiro do Norte (1928), diz ser o coco a “dança predileta do pessoal dos engenhos de açúcar, negros e caboclos, cambiteiros, o mestre de fornalha, o metedor de cana, o banqueiro [mestre que dá ponto ao açúcar], os tangedores da almanjarra, etc.”. Mas na hora da alegria, onde a cachaça passa a dirigir os gestos e as ações, nem mesmo a autoridade está livre de uma roda de coco; como bem descreve Zé Dantas em gravação de Luís Gonzaga (RCA-Leme 801656A/1957):

O seu delegado, fez mais um esforço
E madrugada mandou um reforço
Mas desconfiado por não ter notícia
Veio ver o que houve, com a sua polícia
E de manhã cedo, a graça do povo
Era o delegado contando bem rouco
Nesse coco poliça num tem vez
Se acaba no pau, se falá em xadrez } bis

Também ligados ao Ciclo Junino, particularmente aos seus intérpretes, estão hoje o baião, o xaxado, a toada, a embolada, a ciranda e a marcha sertaneja, ou marcha junina, esta última originária das marchas populares com as quais Lisboa festeja o seu Santo Antônio e que vieram a ser conhecidas, através das companhias de revista, como marcha portuguesa, a exemplo da marcha de Zé Dantas e Luís Gonzaga, São João na roça (RCA 800895A/1952):

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou… ô
Vamos gente!…
Rapa pé nesse salão.

Ou esta outra marchinha, marca do romantismo das noites juninas, composta por Luiz Gonzaga e José Fernandes, Olha pro céu (Vitale 603326832), recentemente relançada na coletânea 50 anos de chão, em homenagem ao Rei do Baião:

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo…
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo…

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O coração
O céu estava
Assim em festa
Porque era noite
De São João
Havia balões no ar
Xote, baião, no salão
E no terreiro, o teu olhar
Que incendiou meu coração

Tudo acontece numa mistura de ritmos e de cores, num cadinho conhecido no passado por forrobodó, já neste século por forrobodança e a partir dos anos quarenta por forró, como lembra Zé Dantas in Forró do Mané Vito, grava-do por Luís Gonzaga em 1949 (RCA 800668B/49) ser o local onde todos esses sons se misturam num grande baile popular.

Nas composições musicais do ciclo junino está toda moral do sertanejo, “Sertão das muié séria / Dos homi trabaiadô”… (A volta da asa-branca, toada de Zé Dantas, gravada por Luís Gonzaga, em 1950, RCA 800739 A) e a vida simples do seu povo:

Ai São João chegou,
Iaiá!
Ai São João chegou,
Sinhá!
Teu vestido de chita,
Já mandei preparar.
Minha roupa de lista,
Já mandei engomar,
Eu tenho uma festinha
Para te levar
Eu tenho uma fogueira,
Para o nosso lar

E hoje, o jovem romântico de ontem, pode lembrar com saudades aquelas noites juninas que não voltam mais, cantando aquele sucesso sempre atual, composto por Zé Dantas e Luiz Gonzaga em 1954, que leva o singular título de Noites brasileiras (RCA 801307 A):

Ai que saudade que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão, ai, ai…

27 junho 2018 CHARGES

SPONHOLZ

27 junho 2018 AUGUSTO NUNES

A SALA DA SEGUNDA TURMA DO STF VIROU PORTA DE SAÍDA DA CADEIA

A libertação do delinquente José Dirceu, condenado em segunda instância a 30 anos e 9 meses de prisão, escancarou a verdade inverossímil: a sala ocupada pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal transformou-se numa gigantesca porta de saída da cadeia.

Essa bofetada na cara do país que presta foi desferida a seis mãos por Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli. Nenhuma surpresa. Gilmar inaugurou e comanda a primeira usina de habeas corpus do planeta. Lewandowski ganhou uma toga por ser filho de uma vizinha de Marisa Letícia. Toffoli é uma alma subalterna a serviço de Dirceu.

Disfarçados de juízes, os três agem como cúmplices de bandidos de estimação – e enxergam no povo brasileiro um bando de otários que só explodem de indignação quando a seleção vai mal numa Copa do Mundo. É hora de mostrar aos semideuses de araque que a paciência dos honestos acabou.

27 junho 2018 CHARGES

VERONEZI

DOIS VERSOS

Quem foi que mexeu contigo
Minha querida parceira?
Certamente fez besteira
E assim carece o castigo.
Ouça bem o que te digo:
Quem muito fala e não pensa
Não merece recompensa
Nem a metáfora mais pobre.
Por isso, jamais se dobre
A quem nutre desavença!

José Walter Pires

Amigo o que me aborrece
É a carência de tutano
Desdourando o ser humano
Que de burrice padece
Confesso que faço prece
Rogo a Deus em oração
Pra não perder a razão
Diante de disparate
É que a burrice me abate
Me deixa até sem tesão.

Dalinha Catunda

27 junho 2018 CHARGES

DUKE

GILMAR APOSTA QUE É O ÚNICO INTELIGENTE DO BRASIL

27 junho 2018 CHARGES

PELICANO

NOTAS

Desmandos. Por mais que deseje, o país não consegue eliminar duas lástimas que infernizam a vida do cidadão, mesmo borrifando repetidas gotas de pesticidas. As pragas formadas pelos gestores públicos incompetentes e os políticos desonestos, chegados à corrupção, e cientes da impunidade, parecem imunes à prevenção. Essa dupla, sempre atuando de forma criminosa, quando entra em cena deixa muitos estragos como rastro de má gestão e de improdutividade. Até que a Lei das Estatais, de 2016, engatilhe de verdade, produza efeitos, a política do Q.I., de quem indica, prevalece, sempre aprontando. Em 2016, o Brasil ocupou o 2º lugar na indicação de cargos políticos, depois da Austrália. A lista de estatais que caíram nas mãos da corrupção, e sofreram miséria, é vergonhosa. Petrobrás, BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Correios reclamam do tempo que ficaram expostas na direção de gangues desqualificadas ocupando cargos de gestão.

Em 2016, a Petrobrás lançou um plano de reestruturação para sair da pior crise de sua história, provocada por desvios de recursos arquitetados por escândalos de corrupção. O plano foi tão bom que no primeiro trimestre deste ano, a empresa contabilizou um lucro em torno de R$ 7 bilhões, o maior deste 2013. A Petrobrás saiu do vermelho para a lucratividade. Como banco nacional de desenvolvimento, o BNDES se lascou. Por causa de ineficiência governamental, gastos absurdos, falta de planejamento de gestores que não se incomodam se as obras financiadas param ou são abandonadas, o BNDES entra na dança dos prejuízos. Em Natal, RN, construíram um píer turístico, no valor de R$ 72 milhões, que não recebe navio de cruzeiro. Por dois bons motivos. A ponte Newton Navarro impede a passagem de embarcações com altura acima de 55 metros e a área de manobra não comporta grandes navios. Por suspeitas de irregularidades, três vice-presidentes indicados por partidos políticos foram afastados dos cargos na Caixa Econômica para atender recomendação do Ministério Público e do Banco Central.

Houve uma época em que o PT indicava diretores no Banco do Brasil com a finalidade de levantar fundos destinados a fins políticos. Por causa de interferências políticas que prejudicam planejamentos comentam inclusive que num dia qualquer o Banco do Brasil talvez entre no esquema da privatização. E para finalizar, convém esclarecer de que com uma só canetada um juiz federal, de Brasília, afastou seis vice-presidentes simplesmente por falta de qualificação profissional. Em termo vulgar por incompetência para assumir tão importantes cargos. Os ex-vice-presidentes depostos dos Correios não tiveram os currículos analisados devidamente, antes da nomeação. É isto, quando não se lê as regras contidas na Lei das Estatais, em vigor desde 2016, o pau come. Mas, infelizmente, as consequências de tantas demissões forçadas nas empresas sob o comando do governo acabam caindo diretamente nas costas da sociedade que não tem a ver com os desmandos.

O povo é apenas vítima de tantas falcatruas nas esferas políticas. No caso dos Correios, os funcionários foram convocados para cobrir o rombo que ultrapassou a casa dos R$ 2 milhões. Tá na cara, que quando o gestor é inapto, incapaz, contagia o ambiente de trabalho. Desmotiva o subordinado. É sinônimo de prejuízo na certa. No conceito americano, se o gestor é incapaz, o destino da empresa é viver sufocada por intrigas, mentiras, que afeta o funcionalismo, agride a criatividade. Então, para escapar de infortúnios, a nomeação de verdadeiros líderes é de suma importância para manter os planos nos esquemas de produtividade. Não atrapalhar a busca incessante de resultados. Afinal, o bom desempenho dos chefes é fundamental na execução de um bom relacionamento interpessoal.

* * * 

É cada mandiga na política que espanta até lobisomem. Os candidatos paulistas às próximas eleições usam e abusam do mandato de deputado vigor. Para garantir a reeleição, na maior pressa possível, os deputados de São Paulo, aprovaram um projeto meio duvidoso para equiparar o teto salarial de selecionadas categorias aos vencimentos dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado. A autoria do projeto é do deputado Campos Machado, do PTB-SP, que não se preocupou se o astronômico aumento causa estragos no cofre do Estado. Afinal, caso o projeto seja sancionado, o Estado vai ter de arcar com mais de R$ 1 bilhão em quatro anos para beneficiar apenas 4 mil altos servidores. O curioso é que como não depende de sanção governamental a decisão deve valer imediatamente. A categoria beneficiada, lógico, tem comparecido frequentemente à galeria da Assembleia paulista, desse o final de 2017, para acompanhar o desenrolar do projeto e dar aquela força na aprovação e entrada em vigor da medida, imediatamente. O estranho é o fato de outras categorias formadas por professores, policiais militares e civis e profissionais da saúde terem sido esquecidos na questão. Outro problema que ficou de lado na tramitação do projeto, refere-se à queda da arrecadação estadual e o fato da situação política e econômica de modo geral não ser favorável ao imediatismo do complexo projeto.

Clique aqui e leia este artigo completo »

27 junho 2018 CHARGES

AMARILDO

27 junho 2018 DEU NO JORNAL

PERGUNTA PERTINENTE

Dias Toffoli, que assumirá a presidência do Supremo em setembro próximo, foi empregado do PT.

Foi assessor de José Dirceu.

Foi Advogado Geral da União, servindo a Lula.

Como se considera isento para julgar o que possa afetar diretamente os interesses do PT?

* * *

Esta intrigante pergunta saiu na página O Antagonista.

Tenho certeza que Ceguinho Teimoso vai responder.

Aguardem.

O patrão que deu o emprego e o seu fiel empregado soltador de amigos

27 junho 2018 CHARGES

MÁRIO ALBERTO

GENARINHO – O ORNITÓLOGO QUE ADORAVA ROLAS

A rola – preferência de Genarinho

Lá pelas bandas da Timbaúba, povoado que hoje recebe os benefícios da construção do açude Castanhão, vivia a família de Sebastião Romão e de Jesuílta da Anunciação, composta por mais seis saudáveis filhos – sendo cinco meninas, e apenas um menino.

As meninas e os meninos gostavam de, sempre que Jesuílta matava uma “galinha da terra” para o almoço dominical, aproveitar tripas, mucuim, fígado, coração e moela para fazer um guisado – às vezes, até aumentavam a comida e esqueciam de brigar pelo “ganhador”.

A medida que o tempo passava, as meninas cresciam, viam crescer seios, nascer pelos pubianos e nas axilas – e a mais velha até já “virara mocinha” por conta da primeira menstruação. O sinal era dado por conta do varal de roupas repleto de “paninhos” (também chamados de “panos de bunda”).

Por alguns anos seguidos, as “crianças” dormiram juntas no mesmo quarto. Eram três beliches – e aquele que deitasse por último tinha a obrigação de apagar a lamparina.

Meninas e um menino juntos, na mesma camarinha. Sem maldades, porquanto todos irmãos. As meninas cresciam, e os mamilos idem. Os seios afloravam redondos e rígidos. Os pelos pubianos também, coxas arredondadas, cabelos compridos, tudo, enfim.

Genarinho, o menino, começou a perceber as diferenças. Seus mamilos incharam e cresceram no fácil sinal da puberdade, os pelos também, e da mesma forma o pênis, que cresceu, engrossou e pontificou na diferença. Foi quando a irmã mais velha, Cacilda, menstruou pela primeira vez. Genarinho ficou esperando sua vez de também “menstruar” – e essa hora nunca chegou.

Durante o dia, nas brincadeiras depois da chegada da escola, as meninas brincavam e até faziam um verdadeiro Clube da Luluzinha, “queimando” Genarinho para as brincadeiras, a maioria apropriadas para meninas.

Sem dar muita importância ao isolamento proposital das irmãs, Genarinho procurou as suas brincadeiras. Acabou se “apaixonando” por aves (galinhas, pavões, perus, patos) e pássaros, até que na matéria curricular da escola, investiu forte em Ciências Naturais. Resolveu que seria “Ornitólogo” – e seria o melhor de todos.

Por conta da infância, onde por anos esperou “menstruar”; por dormir no mesmo cômodo com as cinco irmãs; por viver serrilhando e esmaltando as unhas; e, principalmente por adorar rolas, Genarinho acabou se transformando num excelente profissional e no maior apreciador e conhecedor de rolas. Algumas, valiosas, grandes e diferentes, tinha o hábito de escondê-las.

OBSERVAÇÃO: “mucuim” é o órgão que fica ao lado da moela; “ganhador”, é um osso em forma de forquilha, que também é conhecido como “titela”, e dá sustentação ao peito do galináceo.

* * *

SEÇÃO SAUDADE

Hoje bateu uma saudade danada de muitos entes queridos. Saudades do pai, Alfredo; da mãe, Jordina; do irmão, Francisco (que teria comemorado mais um aniversário no último dia 24, dedicado a São João); da irmã, Jandira, e de muitos amigos e amigas queridas que fizeram parte e foram importantes no amoldamento da minha vida, e no meu amadurecimento.

Aqui neste JBF, a saudade que está doendo, doendo muito, é da amiga querida e inesquecível, Glória Braga Horta, que ainda não conseguiu sumir, ao dobrar a esquina da nossa amizade. Ainda está ali, visível, acenando com a mão. Cantando Maísa Matarazzo: “Meu mundo caiu”!

Xêro, querida!

Glória Braga Horta

Não é diferente a saudade desse irreverente amigo, visivelmente de personalidade muito forte nas ocasiões e nas horas de defender valores próprios. Falo de Cícero Cavalcanti, um dos ícones da “banda séria” desse esculhambado e desmoralizado Brasil.

Aqui, apesar de sentir grande saudades desses dois amigos que não tivemos a felicidade de conhecer pessoalmente, torcemos para que estejam num bom lugar ao lado do Pai Todo Poderoso.

Cícero Cavalcanti

27 junho 2018 CHARGES

FRED

27 junho 2018 A PALAVRA DO EDITOR

MATANDO SAUDADES

É como eu vivo a repetir: nesta gazeta escrota tem de tudo e mais alguma coisa.

De tudo mesmo.

Como diz o Poeta Jessier Quirino, colunista do JBF, aqui tem desde “atracação de navio até acasalamento de muriçoca“.

E esta diversidade, ao lado do espaço aberto e democrático, onde todos manifestam livremente suas opiniões, sem qualquer censura, corte ou moderação, é um dos motivos da nossa grande audiência.

Pois então, como eu estava dizendo, aqui tem de tudo.

Um exemplo é a coluna de hoje do nosso estimado fubânico Goiano, luleiro incondicional.

Luleiro mais roxo do que vermêio.

A coluna dele está logo aí embaixo.

Destaquei este trecho:

Pesquisa do Datafolha deste junho de 2018, que já comentei, revelou que um terço dos pesquisados acredita que Lula seria o presidente da república capaz de recuperar a economia brasileira.

Eu acredito nisso. E sabe por quê?

Porque penso que Lula mandaria o pau, no popular. Quero dizer: creio que Lula não hesitaria em colocar setenta e seis bilhões de reais na economia, para obter alguns objetivos.

O primeiro deles seria concluir obras que, certamente, são importantes para a vida do povo, para o conforto, para as facilidades, para o progresso. Enfim, obras paradas, se deteriorando, que acabadas resultariam em realizações úteis para todos nós.

O segundo seria reaquecer a economia. Que se dane o equilíbrio das finanças! Dinheiro é para investir; e investir no que seja preciso.

Pra recuperar a economia brasileira“, como está dito aí em cima, só mesmo um gênio das finanças como Lula, capaz de ser dono de triplex e sítio sem ficar com o orçamento no vermelho.

É pena que, estando preso por grossa corrupção, não possa no momento gozar das delícias destas suas propriedades

Depois de ler no texto do nosso colunista as sensatas e equilibradas expressões “mandar o pau” e “não hesitar” em torrar setenta e seis bilhões – expressões que se casam admiravelmente com as finadas administrações petistas -, eu me lembrei de uma postagem feita aqui no JBF em novembro de 2012.

Já lá se vão quase 6 anos…

Foi um vídeo que botei na minha coluna, A Palavra do Editor.

Não sei mesmo porque me lembrei dele depois que li o texto de Goiano… Coisas dum pensamento vadio…

Vejam:

27 junho 2018 CHARGES

SPONHOLZ

A MISTERIOSA PALAVRA DA LEI

Um grande político baiano, Otávio Mangabeira, dizia que, por mais que um fato fosse estranho, na Bahia havia precedente. No Brasil também: o único país do mundo a ter Justiça do Trabalho e Justiça Eleitoral criou também três Supremos Tribunais Federais. Um está na cabeça do ministro a quem o caso é entregue, e que prende e solta a seu critério. Outro é o do plenário, com os onze ministros que a Constituição determina. O terceiro é o das turmas, cada uma com cinco ministros. Sabe-se que o ministro Édson Facchin, ao ver que Lula seria solto pela Segunda Turma, decidiu levar seu caso ao plenário, que o julgará depois das férias. Lula fica preso até agosto ou setembro. Mas a Segunda Turma decidiu ontem soltar seu braço direito, José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”. O que um fez, o outro sabia. Os recursos de ambos tinham o mesmo fundamento: o STF autorizou a prisão de condenados em segunda instância, mas não a tornou obrigatória. Dirceu foi solto; e Lula, se o recurso fosse julgado pela Segunda Turma, talvez estivesse na rua em campanha, embora inelegível, pois é ficha suja. Com Dirceu, foi libertado também João Cláudio Genu, ex-tesoureiro do PP.

O Brasil tem ainda outro precedente: muitos réus escolhem quem irá julgá-los. Alguns dos condenados por tribunais regionais federais recorrem direto ao Supremo, sem passar pelo STJ. Mas não se pode dizer que sempre ganharão por 3×2. Ontem, por exemplo, Celso de Mello faltou. E foi 3×1.

Lula e Genu

O nosso Cristiano

Geraldo Alckmin é contestado por Fernando Henrique, Aécio, Temer, Rodrigo Maia. Pode se aproximar do DEM, mas não terá, por exemplo, o apoio de Ronaldo Caiado, porque preferiu se aliar a Marconi Perillo, que Caiado conhece e prefere ver longe. É contestado por Dória, que gostaria de ser o candidato; é contestado por causa de Dória, já que tinha prometido apoio à candidatura de seu vice, Márcio França, do PSB, mas se vê forçado a acompanhar o candidato do PSDB. Corre o risco de disputar sozinho, ou com o apoio de Marconi Perillo. E até nisso o Brasil tem precedente: em 1950, o candidato oficial Cristiano Machado foi abandonado pelo PSD, o seu partido, o maior do país, que fez campanha pela volta do ex-ditador Getúlio Vargas. Quando disserem a Alckmin que está sendo cristianizado, talvez pense que o estão transformando em Cristiano Ronaldo. Mas estarão pensando em Cristiano Machado e em sua campanha que não foi.

Surpresa!

O apresentador José Luiz Datena, astro da Rede Bandeirantes, se dispõe a ser candidato ao Senado pelo DEM paulista. Mas há no partido quem o queira mais alto: como Luciano Huck, é bem visto pelo público, tem o dom da comunicação, junta a condição de nome conhecido à de alguém que nunca participou da política – em bom politiquês, a língua preferida dos especialistas no setor, um outsider. Não tem escândalos. Por que limitar-se ao Senado? Considerando-se que a grande estrela dos partidos de centro é Alckmin, que não sensibiliza nem o presidente de honra de seu partido, há em Datena um possível candidato à Presidência, com força em São Paulo, Goiás, Bahia; capaz de atrair apoios que lhe deem tempo de TV e presença na maior parte dos Estados; e de comandar um poderoso horário eleitoral.

O som do silêncio

A eleição está próxima, mas os candidatos podem mudar. Bolsonaro, em marcha ascendente, terá pouquíssimo tempo de TV. Marina até poderia ser forte, mas não montou estrutura para seu partido, a Rede. E também não tem tempo de TV. Álvaro Dias, com base no Paraná, tem quase a mesma intenção de voto de Alckmin; mas também tem pouco tempo de TV e pode preferir se aliar a outro candidato. João Amoedo, do Novo, poderia ser a novidade na eleição – mas como mostrar a cara, sem tempo de TV e com campanha curta? Há o PT: quem sai no lugar de Lula, Jaques Wagner, Haddad? Ciro é difícil: Lula não passaria a liderança a outro partido. E Ciro tem tradição de começar bem, impressionar bem e falar demais. A pergunta é: quem conseguirá transformar-se na voz da maioria silenciosa?

Aqui, tudo igual

No Congresso nada muda: apesar dos escândalos, deve haver muita reeleição. Não há tempo (nem dinheiro) para fazer com que candidatos desconhecidos sejam lembrados. O não-voto (nulos, brancos e ausências) crescerá, mas candidato novo dificilmente conseguirá capturá-lo. Outra coisa que não muda é o sistema de trabalho: nesta semana, o Congresso vai parar hoje, por causa do jogo, e só volta a trabalhar na terça-feira que vem.

Tudo igual, também

Crise? Isso é para os fracos. Deputados estaduais do Rio descobriram um projeto há anos esquecido pelo qual 13 mil servidores da Justiça devem ter aumento extra de 5%. A PM do Rio está pedindo doações para colocar suas viaturas em ordem, mas não importa: que venha mais um aumento!

27 junho 2018 CHARGES

PATER

27 junho 2018 A PALAVRA DO EDITOR

VIRA, BRASIL!

27 junho 2018 CHARGES

CLÁUDIO

ESCREVENDO EM ESPANHOL

Tive a ousadia de participar de um concurso de contos promovido pelo site espanhol Microcuento. Nessa pretensiosa empreitada, fui estimulado por dois motivos.

O primeiro deles foi o desafio de escrever em outro idioma, concorrendo com nativos. Assim, fiz questão de escrever direto no espanhol, ao invés de fazê-lo em português e traduzir depois.

O segundo, o fato de o tema proposto ser muito presente na minha maneira de ver e viver a vida: O AGORA. Ou, como proposto no concurso “vivir con el ahora”.

Como era de se esperar, sequer fiquei entre os finalistas. Mas também não fui desclassificado, o que, para mim, é um tipo de vitória.

E ainda posso compartilhar com meus leitores a ideia do AGORA, de maneira lúdica. Uma parábola, talvez.

Chega de conversa. Segue o texto com o qual participei do concurso, seguido de sua tradução para o português.

Só mais um detalhe: a extensão do texto era limitada a 250 palavras.

EL GATO DE PORCELANA

En un reino imaginario, el rey era un hombre muy sabio y tranquilo, pero se estaba cansando de tantas tareas administrativas. Entonces decidió elegir a un Primer Ministro entre las personas más inteligentes del país.

Después de muchas pruebas de conocimiento, quedaron diez candidatos a quienes el rey propuso un desafío:

– El vencedor será el que me traiga un gato de porcelana.

– ¿Cuándo? – preguntaron en coro algunos competidores.

– ¡Ahora!

Los candidatos se quedaron sorprendidos. Nadie sale de casa con un gato de porcelana en el bolsillo.
El rey mandó que se fueran. Deberían volver al día siguiente para el desempate.

A la hora señalada, los candidatos se reunieron en el salón real. Pero antes de que el rey hiciera un nuevo desafío, uno de ellos, que traía consigo un paquete, pidió la palabra.

– Majestad, traigo al gato de porcelana que usted requirió.

– Admiro tu esfuerzo. Pero ya pasaron veinticuatro horas desde el desafío del gato.

– Sin duda, mi señor. ¿Y vuestra majestad se dio cuenta de que traigo el gato hoy y no ayer?

– ¡Claro!

– Y tampoco lo estoy trayendo antes o después de este momento.

– Es verdad.

– Entonces creo que traigo al gato en el momento exacto que vuestra majestad determinó: ¡ahora!

– ¡Muy ingenioso! Pero ¿es posible que el ahora se haya prolongado desde ayer hasta hoy?

– El ahora es infinito, majestad. En él todas las cosas suceden. Nunca antes, nunca después. Siempre ahora.
Y el rey sonrió satisfecho. Había elegido a su Primer Ministro.

O GATO DE PORCELANA

Em um reino imaginário, o rei era um homem muito sábio e tranquilo, mas estava cansado de tantas tarefas administrativas. Ele então decidiu escolher um primeiro-ministro entre as pessoas mais inteligentes do país.

Depois de muitos testes de conhecimento, sobraram dez candidatos a quem o rei propôs um desafio:

– O vencedor será aquele que me trouxer um gato de porcelana.

– Quando? – perguntaram em coro alguns dos concorrentes.

– Agora!

Os candidatos ficaram surpresos. Ninguém sai de casa com um gato de porcelana no bolso. O rei então ordenou que eles saíssem. Deveriam voltar no dia seguinte para o desempate.

Na hora marcada, os candidatos reuniram-se no salão real. Mas antes que o rei fizesse um novo desafio, um deles, que trazia consigo um pacote, pediu para falar.

– Majestade, eu trouxe o gato de porcelana que o senhor pediu.

– Admiro seu esforço – respondeu educadamente o rei. – Mas já se passaram vinte e quatro horas desde o desafio do gato.

– Sem dúvida, meu senhor. E vossa majestade percebeu que estou trazendo o gato hoje e não ontem?

– Claro!

– E eu também não trouxe o gato antes ou depois do momento em que estamos.

– É verdade.

– Então me parece que eu trouxe o gato no exato momento que vossa majestade determinou: agora!

– É um ótimo raciocínio! Mas seria possível o agora durar desde ontem até hoje?

– O agora é infinito, majestade. Nele todas as coisas acontecem. Nunca antes, nunca depois. Sempre agora.

E o rei sorriu satisfeito. Acabara de escolher seu primeiro-ministro.


© 2007 - 2018 Jornal da Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa