GENARINHO – O ORNITÓLOGO QUE ADORAVA ROLAS

A rola – preferência de Genarinho

Lá pelas bandas da Timbaúba, povoado que hoje recebe os benefícios da construção do açude Castanhão, vivia a família de Sebastião Romão e de Jesuílta da Anunciação, composta por mais seis saudáveis filhos – sendo cinco meninas, e apenas um menino.

As meninas e os meninos gostavam de, sempre que Jesuílta matava uma “galinha da terra” para o almoço dominical, aproveitar tripas, mucuim, fígado, coração e moela para fazer um guisado – às vezes, até aumentavam a comida e esqueciam de brigar pelo “ganhador”.

A medida que o tempo passava, as meninas cresciam, viam crescer seios, nascer pelos pubianos e nas axilas – e a mais velha até já “virara mocinha” por conta da primeira menstruação. O sinal era dado por conta do varal de roupas repleto de “paninhos” (também chamados de “panos de bunda”).

Por alguns anos seguidos, as “crianças” dormiram juntas no mesmo quarto. Eram três beliches – e aquele que deitasse por último tinha a obrigação de apagar a lamparina.

Meninas e um menino juntos, na mesma camarinha. Sem maldades, porquanto todos irmãos. As meninas cresciam, e os mamilos idem. Os seios afloravam redondos e rígidos. Os pelos pubianos também, coxas arredondadas, cabelos compridos, tudo, enfim.

Genarinho, o menino, começou a perceber as diferenças. Seus mamilos incharam e cresceram no fácil sinal da puberdade, os pelos também, e da mesma forma o pênis, que cresceu, engrossou e pontificou na diferença. Foi quando a irmã mais velha, Cacilda, menstruou pela primeira vez. Genarinho ficou esperando sua vez de também “menstruar” – e essa hora nunca chegou.

Durante o dia, nas brincadeiras depois da chegada da escola, as meninas brincavam e até faziam um verdadeiro Clube da Luluzinha, “queimando” Genarinho para as brincadeiras, a maioria apropriadas para meninas.

Sem dar muita importância ao isolamento proposital das irmãs, Genarinho procurou as suas brincadeiras. Acabou se “apaixonando” por aves (galinhas, pavões, perus, patos) e pássaros, até que na matéria curricular da escola, investiu forte em Ciências Naturais. Resolveu que seria “Ornitólogo” – e seria o melhor de todos.

Por conta da infância, onde por anos esperou “menstruar”; por dormir no mesmo cômodo com as cinco irmãs; por viver serrilhando e esmaltando as unhas; e, principalmente por adorar rolas, Genarinho acabou se transformando num excelente profissional e no maior apreciador e conhecedor de rolas. Algumas, valiosas, grandes e diferentes, tinha o hábito de escondê-las.

OBSERVAÇÃO: “mucuim” é o órgão que fica ao lado da moela; “ganhador”, é um osso em forma de forquilha, que também é conhecido como “titela”, e dá sustentação ao peito do galináceo.

* * *

SEÇÃO SAUDADE

Hoje bateu uma saudade danada de muitos entes queridos. Saudades do pai, Alfredo; da mãe, Jordina; do irmão, Francisco (que teria comemorado mais um aniversário no último dia 24, dedicado a São João); da irmã, Jandira, e de muitos amigos e amigas queridas que fizeram parte e foram importantes no amoldamento da minha vida, e no meu amadurecimento.

Aqui neste JBF, a saudade que está doendo, doendo muito, é da amiga querida e inesquecível, Glória Braga Horta, que ainda não conseguiu sumir, ao dobrar a esquina da nossa amizade. Ainda está ali, visível, acenando com a mão. Cantando Maísa Matarazzo: “Meu mundo caiu”!

Xêro, querida!

Glória Braga Horta

Não é diferente a saudade desse irreverente amigo, visivelmente de personalidade muito forte nas ocasiões e nas horas de defender valores próprios. Falo de Cícero Cavalcanti, um dos ícones da “banda séria” desse esculhambado e desmoralizado Brasil.

Aqui, apesar de sentir grande saudades desses dois amigos que não tivemos a felicidade de conhecer pessoalmente, torcemos para que estejam num bom lugar ao lado do Pai Todo Poderoso.

Cícero Cavalcanti

10 comentários

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    • Maurino Júnior em 27 de junho de 2018 às 11:11
    • Responder

    Merecida homenagem!!! Boas lembranças desses dois fubânicos inesquecíveis!!!

      • José de Oliveira Ramos em 27 de junho de 2018 às 12:20
      • Responder

      Maurino: foi a saudade desses dois aí que fez isso. Gente da melhor espécie. As divergências, a gente aprende a separar com o tempo.

    • Cícero Tavares em 27 de junho de 2018 às 11:43
    • Responder

    Caro Zé Ramos:

    Excelente Crônica (maiúscula mesmo!). Uma obra-prima!

    Comoventes homenagens a dois seres que se encantaram, mas não saíram da nossa lembrança!

    Glorinha Braga Horta, irmã de dois gênios. Um na poesia e o outro na filosofia judicante!

    Cícero Cavalcanti, advogado do bom; intérprete dos melhores; vida ceifada por um irresponsável do trânsito!

    Não se encantam os bons; estão nas nuvens nos observando!

    Obrigado irmão pela Crônica!

      • José de Oliveira Ramos em 27 de junho de 2018 às 12:23
      • Responder

      Cícero: é tudo gente nossa. Tudo gente boa. Tomara, quando partirmos, mereçamos ir para os mesmos lugares onde eles estão. Que peçam à Deus que nos oriente nos momentos difíceis aqui na Terra.

    • Paulo Terracota em 27 de junho de 2018 às 17:44
    • Responder

    Falou tudo sr José Ramos, também sinto falta dos dois .

      • José de Oliveira Ramos em 27 de junho de 2018 às 17:57
      • Responder

      Paulo: todos nós sentimos. As divergências que apareciam por aqui, ficavam aqui. Glorinha era uma pessoa de uma inteligência extrema. Sabia separar as coisas – e é exatamente isso que todos fazem aqui.

    • Goiano em 27 de junho de 2018 às 18:31
    • Responder

    Caramba, José, me deu um aperto no coração…
    Obrigado pela lembrança, por mexer com esta saudade suave.
    Glorinha faz uma falta muito grande.

      • José de Oliveira Ramos em 27 de junho de 2018 às 19:36
      • Responder

      Goiano: sei disso. Ainda que não tenha tido o prazer de conhecer Glorinha pessoalmente, me afeiçoei muito a ela que, como eu, gostava das músicas de Maísa. Perda irreparável até hoje, para os amigos, imagino para os familiares, como você.

    • Goiano em 27 de junho de 2018 às 18:34
    • Responder

    Cícero foi uma presença marcante no Jornal da Besta Fubana. Tivemos oportunidade de conversar por telefone, o que nos aproximou ainda mais do que já estávamos,pelos nossos embates nestas páginas. Pena que se foi prematuramente.
    Bela homenagem, José.

      • José de Oliveira Ramos em 27 de junho de 2018 às 19:37
      • Responder

      Goiano: Cissim foi cabra dos bons. Também deixou saudades e muitas amizades.

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