28 junho 2018LAVOU-ME A VIDA…



Estava chovendo naquela noite. Não me atentei às horas, só fiquei a observar o movimento da rua pelo vidro da janela. Não recordo também se era época de tanta chuva, mas lembro que fazia dias que continuava assim, e eu recolhida em casa, sem a mínima vontade de sair. Nem para vê-lo.

Era um estado de inércia, sentia-me possuída pela melancolia que a chuva traz. Bom, para mim é assim; apesar de ver a renovação que chega com ela, enxergava também tudo de ruim que ela lavava do meu ser, como se inundasse tudo e ao secar levasse embora quaisquer indícios de sujeira. Era bom afinal, mas até isso acontecer, muita coisa vinha à tona.

Deve ser isso que me hipnotizou por longos minutos ao pé da janela. Ali fiquei a lembrar do que eu gostaria que ela levasse desta vez. Sonhos desfeitos, planos desajustados, metas que não alcançaria. E, convenhamos, nem preciso dizer o motivo disso tudo estar em minha mente, bagunçando minha ordem.

Sabe o que notei prontamente quando vi aquela foto? O olhar dela era de uma pessoa realmente apaixonada. Sim, até me enxerguei nela. Sem dúvida você é uma pessoa apaixonante. Mas isso não me impressionou, como disse, era o esperado; você encanta. O que estranhei foi a sua feição, estava com olhar perdido, como se soubesse que ali não era seu devido lugar. De certa forma isso me deu uma ponta de esperança, pelo menos sabia que imoralidade daquele abraço, da dor que estaria me causando a cada beijo trocado que não em meus lábios.

Até hoje me pergunto como essa foto veio parar em minhas mãos. Costumo dizer, e isso aprendi com minha avó e mãe, que não precisamos procurar por problemas, eles nos chegam. Caem no colo, adormecem em nossas mãos, nos encontram como se pedissem resolução. Pois é, simplesmente vi, estava ali, dentro da caixinha do relógio na cabeceira da cama. E, como providência divina, apareceu-me justamente enquanto estava em viagem. Acho que para que eu digerisse, refletisse, entendesse essa nova fase. Porque é, se torna uma nova fase. Você faz a merda e eu tenho que decidir o que fazer. É injusto não?

Em discussões aleatórias em que eu tocava no assunto sempre deixava claro que a maior decepção não seria a traição em si, mas todo o teatro, a enganação, as mentiras que devem ser contadas para sustentar a infidelidade. Isso e, claro, ver seu cuidado e olhar apaixonado por outra pessoa. E isso eu não vi. Pelo contrário, estava ciente que eu o veria naquela foto; no exato momento em que a tirava sabia que eu o veria.

Acho que sentiu que eu não estava bem. Meu celular gritava em chamadas suas. Apenas o desliguei, sem compromisso, sem culpa. Há quilômetros de distância, palavras trocadas pelo celular não resolveriam nada. Fiquei a fitar a via por um tempo. O copo, já vazio, amargava mais do que entorpecia.

Fechei as janelas, cansada de ver carros indo e vindo; pessoas correndo, evitando a chuva que teimava em cair sem descanso. Despi-me e entrei na banheira, já cheia, e desta vez com os sais de banho que me deu de aniversário. Lavanda, né? Delicadamente doce. Certeiro. Você é, como já falei, encantador.

Cabeça encostada na beira da banheira, acomodei meu corpo totalmente dentro da água. Somente os pensamentos permaneceram secos, literalmente secos. Não queria nenhum tipo de interferência emotiva neste jogo. Jogo esse que eu perdi no exato momento em que encontrei a foto. É isso, é isso que queria me dizer com este olhar triste que ousou em escancarar na foto. Eu decido sim o que será de nós, mas você me conhece e sabe que não é um papel que desempenho bem. Penso que cada um cuida do seu, não podia lhe dizer como seguir com sua vida. Eu tinha é que decidir a minha.

Inebriada por tamanho embaraço por sua inteligência, por ver o quanto pode ser maquiavélico, deixei molhar meus os cabelos, mergulhei inteiramente na banheira e por ali fiquei. Com a mesma inércia de quando estava na janela, estática como no momento em que peguei a foto, sem ânimo para o que você me deu como caminho. Por ali fiquei, inundei-me com a água de lavanda, e, junto com a chuva que parou instantaneamente, levou o que eu não queria mais.

2 Comentários

  1. Sheila Liz – Flor de Lis:

    Cheguei-me para encontrar belezas nos seus encantos grafados de sentimentos que só a alma sabe explicar!

    De mim para mim, considero obras-primas tudo que você escreve, porque sai de um coração cheio de ternuras, levezas, amores e mistérios! Clarice Lispector possuía esse dom na alma que aflora em todos seus escritos!

    LEVOU-ME A VIDA… há um mistério que me fascina! Você está nele!

    Dei uma passada em EU ME SINTO E SEI DE SENTIMENTO, que me deixou tonto, mas depois lhe explico esse mistério da alma!

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