POR AMOR A PERNAMBUCO (*)

Com muito orgulho torno-me, neste princípio de noite setembrina, Cidadão de Pernambuco. Agradeço de coração à Casa de Joaquim Nabuco o título concedido, aprovando iniciativa do ex-deputado estadual Djalma Paes, admiração pessoal de muitos anos, hoje atuante Secretário de Planejamento da Prefeitura da Cidade do Recife, proposta representada, nesta legislatura, pelo deputado Betinho Gomes, liderança política no Cabo de Santo Agostinho, onde Vicente Pinzon, num 26 de janeiro de 1500, conheceu terra brasileira, segundo ele “a terra de mais luz da Terra”, batizada de Santa Maria de la Consolacion.

Sou, a partir de hoje, também Leão do Norte, sem jamais menosprezar os rincões potiguares, Natal, onde nasci em tempos de Segunda Guerra Mundial, pai convocado, cidade às escuras, mãe atordoada por mil apreensões.

D’ora por diante, cada vez mais de Pernambuco, continuarei honrando hino, bandeira e história de um povo, admirando Joaquim Nabuco e Mestre Vitalino, Paulo Cavancanti e Frei Caneca, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, José Mariano e Dona Santa, Mauro Mota e Carlos Pena Filho, Nelson Ferreira e Capiba, Barbosa Lima Sobrinho e Gregório Bezerra, Paulo Freire e as mulheres de Tejucupapo, sempre presentes, nunca olvidados por seus ideários políticos, exaltações apaixonadas, bravuras libertárias, estudos sociais, carnavais, resistências e muita poesia. Todos eles dotados de extremado amor à gente pernambucana e à sua rebelde caminhada histórica, onde “corre o sangue de heróis rubro veio, Que há de sempre o valor traduzir”, em terras que são “fonte da vida e da história”, de um “povo coberto de glória, o primeiro, talvez, do porvir”.

Agradecendo a Cidadania Pernambucana, comprometo-me perante esta Casa, ícone maior do cenário político nordestino, a não me descuidar do desenvolvimento cultural de Pernambuco, divulgando, além do Recife, com seus rios e pontes, a feira de Caruaru, as carrancas de Petrolina, as rendas de Passira e de Pesqueira, as igrejas e os mosteiros de Olinda, o Circuito do Frio, o Forte de Itamaracá, o Maracatu de Nazaré da Mata, o artesanato de Bezerros, entre tantos outros exemplos de nossa gigantesca multiculturalidade, além do frevo Vassourinhas, de um clube carnavalesco por quem sou apaixonado.

Com a Cidadania Pernambucana, continuarei a renegar visões cavilosamente parciais e incompletas, por não assimilarem na devida conta os fatos e os feitos dos anos mais recentes, encarecendo a devida vênia para enaltecer, aqui e agora, o talento pernambucano na pessoa da economista Tânia Bacelar de Araújo, competência técnica e visão política a serviço de um Nordeste de gigantescas desigualdades econômicas e sociais.

Reproduzo, aqui, a reflexão de Charles Handy, um irlandês de infância debilitada como a dos pernambucanos menos afortunados, que soube, sem os coitadismos dos abobados, proclamar com propriedade: “Descobrir a sua própria inteligência é uma coisa. Aplicá-la é outra. Precisamos ser capazes de reconhecer e identificar os problemas e as oportunidades. Precisamos ser capazes de nos organizar e de organizar também as outras pessoas para que façam algo e precisamos ser capazes de nos sentar e refletir sobre o que tem acontecido para que possamos fazer tudo melhor da próxima vez“.

Estejam certos, senhores deputados, minha muito querida Melba, familiares e amigos aqui presentes, que continuarei a travar o bom combate, para a concretização dos sonhos que refletem a esperança de triunfo dos que lutam por Justiça e Paz.

Saio desta solenidade com o pensar voltado, e bem comprometido, com todos aqueles que rejeitam o Consenso de Washington, também combatendo o desprestígio da atividade política e a ditadura da política econômica. E nunca olvidando, como adepto de uma não-violência ativa, da proclamação feita pelo ex-presidente Salvador Allende, em sua carta de despedida ao povo chileno, poucas horas antes de ser assassinado pelos partidários da escuridão: “Em nome dos mais sagrados interesses do povo, em nome da pátria, tenham fé. A História não se detém nem com a repressão nem com o crime. Esta é uma etapa que será superada. Este é um momento duro e difícil. É possível que nos abatam, mas o amanhã será do povo, será dos trabalhadores. A humanidade avança para a conquista de uma vida melhor”.

Por fim, com a alma repleta de alegrias e saudades, reverencio um poeta Leão do Norte, João Cabral de Mello Neto, propositadamente não citado na relação anterior. No autor de Vida e Morte Severina, um auto de Natal que tem contribuído para melhor compreensão da realidade pernambucana, me inspiro nas palavras finais deste agradecimento, buscando segui-lo no ritmo dos seus versos:

Um grande poeta, o João Cabral de Mello Neto,
Que ama os Severinos de Maria,
jamais esquecendo o seu Recife,
o Recife dos rios e das pontes,
também Recife dos mangues e dos alagados,
dos caranguejos capturados
pelos meninos de rua, todo santo dia
que mamando leite de lama,
também são Severinos de Maria.

Severino de Maria
morador das periferias
da Mata até o Sertão,
que queria voar mais livre
e entender que liberdade
não é apenas uma calça comum e desbotada.

Severino de Maria,
estamos vivendo uma econômica ilusão,
desmemoriados que somos,
pouco importando
o alerta de André Malraux:
a dignidade é o contrário da humilhação”.

Severino de Maria
nós lhe pedimos perdão:
exportar é o que importa,
quando o que importa mesmo
é teto, chão, escola e feijão.

Severino de Maria
pai dos meninos de rua
dos trombadinhas,
advindos dos nossos interiores,
meninos que roubam
pra sobreviver
e vivem roubando abençoados por Deus!

Severino de Maria,
amigo dos nossos funcionários
que nada entendem de mais-valia
mas que recebem todo dia
a agonia dos seus salários.

Severino de Maria,
meu irmão de caminhada
como é difícil entender,
só com palavras, a Vida
ainda mais quando ela é
esta que se vê, severina”.

Severino de Maria,
nós, pernambucanos,
ainda não sabemos bem
ouvir as meninas,
evitar a mediocridade,
incrementar a emoção,
o contato,
a criatividade
ouvir o que não foi dito
perceber o corporal
registrar a dor e o mal
enaltecer o que é nobre,
imaginar o que é ser pobre.

Severino de Maria
nós ainda ignoramos
elaborar um querer coletivo
porque o contexto anda truncado
muitos de nós famintos
que não nascendo outra vez
ao invés de galo, vive-se pinto.

Mas nós desejamos,
Severino de Maria,
nos livrar contigo
dessa cova de bom tamanho
que é nossa parte nesse latifúndio.

E também nos libertar,
Severino meu irmão,
de uma cultura que não é nossa
consequência maior de uma fossa
que é deserta de ideias
e que nos foi imposta
pra quem gosta e quem não gosta.

Precisamos pensar mais,
Severino de Maria,
para denunciar e anunciar,
conhecer pra criticar
combater o bom combate
com bagagem cultural
enxotando todo mal.

Ajude-nos, Severino retirante,
para que possamos ajudá-lo
a manter nossa altivez.
Com sua voz, acharemos nossa vez,
nossos braços, seu regaço,
seu espaço, nossa sobrevivência.

Você é Severino de Maria
porque somos uma Nação endividada,
submissa, encarcerada,
Nação maior de agiotas
que, lá fora, querem mais,
nos fazendo sempre crer
na inexistência de outras alternativas
para também podermos ser.

Meu companheiro de sina,
muitos nos imaginam
uma nação severina,
caudal de alienados,
sem presente e sem passado,
sem teóricos nem cientistas,
surdos e mudos, sem vistas,
sem virilidade e ardor
por uma causa de amor
que é amar a todo um povo,
expulsor de estrangeiro,
povo muito brasileiro.

Somos menos que você,
Severino de Maria,
pois de você precisamos
e do seu suor escorrido.
A sua própria liberdade
será, a bem da verdade,
nossa maioridade.

Severino de Maria,
neste plenário falta você.
Você não veio, ausentou-se.
Mas nós, aqui, aprendemos
que o nosso bem viver
vai precisar de você
e do seu modo de agir.
Desse seu jeitão de rir
amarelo como os seus,
dessa maneira sublime
de pensar também em Deus.
E de olhar desconfiado
pés descalços, calejados,
esperança sem igual
de ver perto um bom final.

Severino de Maria,
obrigado, aqui e agora,
pois em você, a toda hora,
desesperança não há.
Obrigado por nos fazer
compreender pra transformar
ensinando a todo instante
à mente que se prepara
pra ficar sempre ao seu lado,
lado a lado, companheiro,
dizendo pro mundo inteiro
fico contigo, não saio,
nem que sob o chicote e a vara:
pois só deixarei meu Pernambuco,
no último pau-de-arara.

Muito obrigado!!

(*) Agradecimento feito por ocasião da Sessão Solene de entrega do título de Cidadão Pernambucano, na Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, em 25 de setembro de 2003.

4 comentários

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    • Brito em 9 de julho de 2018 às 09:24
    • Responder

    Que honra participar de um jornal que tem um cabra como esse na condição de colunista. Sseu discurso de agradecimento pelo titulo de Cidadão Pernambucano é uma oração, uma exaltação a uma terra e povo que enobrece uma nação. Muito obrigado!

    • Fernando Gonçalves em 9 de julho de 2018 às 10:40
    • Responder

    Obrigado, Brito. Não fiz mais que meu dever em enaltecer um povo, o Pernambuco, que muito luta pela sua dignidade, apesar de todos os pesares.

    • Adônis Oliveira em 9 de julho de 2018 às 13:12
    • Responder

    Prezado mestre,

    Meus mais calorosos parabéns por esta merecida homenagem. Pernambuco fica maior por contar com sua participação ilustre nesta confraria,

    De agora em diante, o senhor poderá dizer com toda propriedade: SOU PERNAMBUCANO, MODÉSTIA À PARTE!

    Grande abraço,

    Adônis Oliveira

    • Fernando Gonçalves em 9 de julho de 2018 às 14:22
    • Responder

    Muito obrigado, Brito. Me senti mais pernambucano ainda, apesar de todas as nossas mazelas estaduais.

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