A vida de Ivani mudou da noite para o dia. Hoje, não há espaço vazio na pequena despensa de sua casa. Dá gosto de ver. A geladeira também está sempre cheia. Os três pequenos estão bem gordinhos, quase obesos. Ela e Nonô também engordaram um bocado. Ivani agradece a Deus todos os dias por ter lhe arrumado um emprego de merendeira na escola do bairro. O salário é coisa miúda, mas vale a pena. Vejam lá. Ela não perde muito tempo entre a casa e a escola nem paga condução. Motoristas de ônibus podem fazer greve que ela não está nem aí. Vai a pé para o trabalho. E nunca volta de mão abanando.

No início, ela ficava constrangida de levar para casa parte dos alimentos destinados às crianças da escola, todas pobrezinhas. Mas, depois de muito refletir, chegou às seguintes conclusões:

1. Ora, se as crianças da escola são miseráveis, seus filhos também o são, também carecem de boa alimentação.

2. Não foi ela quem tomou a iniciativa de surrupiar os alimentos da escola. Muita gente já fazia isso – e há muitos e muitos anos.

3. Sozinha, não tem condições de impedir a lambança. Ao contrário. Ante sua recusa inicial de carregar os mantimentos, os colegas de trabalho e furto começaram a vê-la como uma espécie de dedo-duro em potencial.

4. Se todo mundo faz, porque ela não faria? Ninguém é completamente abestalhado.

5. E mais: safado mesmo é o responsável pelo setor. Ele põe a assinatura num papelucho que diz ter sido entregue um tanto de mercadorias, quando, na verdade, chegou pouco mais da metade, se tanto.

6. Por fim, sempre que o prazo de validade está prestes a vencer, Ivani faz questão de vender para os vizinhos os produtos por 20% do preço cobrado pelo mercadinho da esquina. É uma forma de ajudar os necessitados. Quando, por descuido, deixa vencer o prazo de validade, dá os produtos de graça à vizinhança.

Devota de São Francisco acredita que é dando que se recebe. Sente orgulho de ajudar os que mais precisam.

7 Comentários

  1. Corrupção e canalhice são duas pragas que andam sempre juntas em todas as camadas sociais, devemos fuder com todos, não há desculpas.

    • Os que se acham muito espertos ignoram que sempre haverá mais espertos – e desonestos – que eles. Obrigado, Paulo, pelo comentário. Abraço.

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