O BANQUETE

Luiz Gonzaga Pimentel, nascido em Natal (RN), cursou a Escola Naval no Rio de Janeiro, e ingressou na Marinha de Guerra. Fez uma brilhante carreira militar, chegando ao posto de Almirante. Foi comandante do Navio Almirante Barroso e chegou a exercer o cargo de Adido Militar do Brasil, em Londres.

Numa de suas vindas a Natal, para visitar o pai Celestino Pimentel e demais familiares, na hora do almoço não se serviu da famosa macarronada, feita por sua madrasta Francisca Pimentel, dando preferência a outros pratos que compunham a mesa.Todos estranharam, pois sabiam que o prato preferido dele era macarrão. Sem dar explicação, ele almoçou muito bem, sem sequer olhar para a macarronada. A madrasta ficou sem entender aquela “mudança de hábito.” O militar deixou para se justificar depois. Pediu desculpas à madrasta, mas não houve quem fizesse ele se servir da célebre macarronada, feita exclusivamente em sua homenagem.

Como Adido Militar em Londres, Luiz participava sempre de jantares e almoços com o corpo diplomático, e teve oportunidade de participar até de banquetes em que a Rainha da Inglaterra estava presente.

Nesses banquetes, havia comidas sofisticadas e para ele desconhecidas. Certo dia, num desses banquetes, temendo não gostar da comida, Luiz optou pela mesa de Massas, com molhos variados. Aliás, macarrão sempre foi sua comida preferida. Serviu-se de macarrão com molho de ervas e quando começou a mastigar, sentiu que estava mastigando um cabelo. Luiz ficou paralisado, dominando a vontade de pôr para fora tudo o que tinha na boca. Entretanto, o ambiente era altamente requintado e formal. Num banquete solene, sob holofotes, um Adido Militar não poderia cometer tamanha gafe. Luiz tinha que continuar comendo. Lembrou-se de Natal e sentiu saudade da macarronada feita por sua madrasta, muito mais saborosa do que aquela e sem cabelo dentro.

Por um minuto, Luiz entendeu que a solução seria engolir o cabelo. Sua vontade era devolver ao prato a porção que tinha na boca. Mas seria um gesto grosseiro no ambiente requintado em que se encontrava.

Jamais na sua vida, Luiz tinha passado por uma experiência tão desagradável. Por alguns segundos, conseguiu permanecer sem engolir, mas, finalmente, respirou fundo e, ajudado por um gole d’água, engoliu a porção que tinha na boca, juntamente com o maldito cabelo. Pegou-se com todos os anjos e arcanjos, para não vomitar. Sem saber se o cabelo era preto, branco ou louro, nem de onde tinha saído, Luiz sentiu vontade de sumir para sempre daquele ambiente de luxo e ir direto ao banheiro para vomitar. Passou o resto do dia enjoado. Sentiu-se a pessoa mais infeliz do mundo, como se naquele dia tivesse pagos todos os seus pecados, passados, presentes e futuros.

E o Almirante fez uma jura de nunca mais comer macarrão.

4 comentários

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    • Aristeu Bezerra em 13 de julho de 2018 às 09:29
    • Responder

    Violante,

    Parabéns pela bem-humorada crônica. Luiz tinha como seu prato favorito o macarrão. Entretanto, mastigar uma porção da sua comida favorita com um corpo estranho – cabelo -, e não poder devolver ao prato provocou um trauma profundo. O cabelo na macarronada, independente da cor e da origem, faz qualquer pessoa ter ojeriza por esse delicioso alimento, pois toda vez que ver na mesa a iguaria vai se lembrar de ter se alimentado do manjar com cabelo. É trauma para fazer psicoterapia durante muito tempo.
    Compartilho com a prezada amiga um questionamento que ouvi há pouco tempo atrás. Qual o tipo de alimento que o político mais gosta? As massas.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • violante Pimentel em 13 de julho de 2018 às 12:43
    • Responder

    Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra! O incidente do cabelo no macarrão, realmente, provocou em Luiz um trauma para o resto da vida.
    Gostei muito do questionamento que você compartilhou comigo. Na verdade, o tipo de alimento preferido pelos políticos é a MASSA….com cabelo ou sem cabelo…rsrsrsrs

    Um grande abraço e um feliz fim de semana!

    Violante

    • Diana em 15 de julho de 2018 às 00:05
    • Responder

    Só de pensar em passar por uma situação dessa fico com ânsia de vômito. Coitado do Almirante.
    Ótima cena.
    Beijos e bom domingo.

    • violante Pimentel em 15 de julho de 2018 às 11:34
    • Responder

    Obrigada pelo comentário, querida Diana! Eu também fico com náuseas, quando me imagino numa situação dessa!rsrs

    O Almirante ficou traumatizado pelo resto da vida. E com razão…rsrs
    Beijos e bom domingo pra você também!

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