14 julho 2018ORDENER CERQUEIRA



Segundo Aldemar Paiva, o genial compositor Capiba costumava dizer que o alagoano Ordener Cerqueira era o cara mais engraçado que ele conhecia. Ordener foi meu ídolo na infância e juventude. Eu me divertia ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista, consultório na Rua Boa Vista, ele contava que, quando eu era menino, meu pai, Coronel Mário Lima, trazia seis soldados para segurar e abrir minha boca. Só assim ele tratou meus dentes.

Durante sua juventude Ordener estudou no Liceu Alagoano. Havia um professor que dava aula sentado, tinha mania de colocar a mão esquerda na primeira gaveta do birô enquanto falava aos alunos. O preguiçoso professor tinha uma voz monocórdia que provocava sono. Certo dia, no quintal da casa de Ordener, apareceu um enorme caranguejo goiamum, azulado e brabo, uma pata maior que o casco. Ele conseguiu amarrar o caranguejo pelas patas e guardou-o. Na manhã seguinte, acondicionou em fibras de bananeira e levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula chata do professor preguiçoso, Ordener soltou o arisco caranguejo na primeira gaveta, fechando-a. O professor entrou na sala, sentou-se na sua confortável cadeira. A certa altura, devagar, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. De repente deu um grito enquanto puxava o braço com o enorme caranguejo com a pata travada no dedo mindinho. Ele berrava apavorado, pedia socorro, enquanto a alunada vibrava, deliciava-se às gargalhadas. Acudiram, conseguiram abrir a pata presa no dedo. O professor aproveitou não deu mais aula, exigiu a expulsão do meliante que colocou o caranguejo na gaveta.

Ordener foi o inventor do pastoril dos estudantes. Nas vésperas de Natal, vários estudantes dançavam o pastoril fantasiados de pastoras. Ele era a vedete, a contra mestra, a primeira pastora do cordão azul. CSA doente.

Outra vez ele fazia teatro estudantil, Paixão de Cristo, peça encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Cristo, e o amigo, Luís Alves, o papel de Lázaro. Ensaiaram bastante até o dia da estreia, sábado à noite no Teatro Deodoro. Os dois boêmios não eram de perder um sábado, ele e Luís encheram a cara de cachaça durante o dia. Chegaram às sete horas da noite no Teatro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado, ainda bem que durante a peça não havia fala para o Lázaro, seu papel era ficar morto até quando Cristo (Ordener) mandasse levantar, quando Lázaro (Luís) levantava-se, ressuscitando.

A peça prosseguiu normalmente, até que veio a hora da cena: Luís (Lázaro) deitado no chão, morto, e Ordener (Jesus) falaram alto, comandando seu milagre:

“-Levanta-te Lázaro!”!

E Lázaro (Luís) continuou deitado, sem se mexer. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto ainda:

“–Levanta-te Lázaro!” ·.

E Lázaro continuou inabalável. Ordener não aguentou e chutando nas costas de Luís gritou contundente:

“- Levanta-te Lázaro!” “-Levanta-te Lázaro!”

Como Lázaro não respondia, Ordener perdeu a paciência e saiu naturalmente o impropério. “ -Levanta seu filho de uma puta!”

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público como pedisse desculpas, com voz de pileque:

“-O Lázaro está bêbado!”

Gargalhada geral. Assim Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores, foram expulsos do Grupo de Teatro Estudantil.

Meu tio Napoleão Peixoto, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao consultório de Ordener. Chegamos por volta de 11 horas da manhã na Rua Boa Vista. Deixei Napoleão na sala, bati na porta. Ordener quando me viu, perguntou a razão da visita enquanto tratava os dentes de um moreno deitado na cadeira de boca aberta. “Surpresa”, falei sorrindo. No mesmo instante, Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, veio me perguntando qual a surpresa. Eu apontei para Napoleão sentado em uma cadeira, a alegria foi tamanha ao reconhecer seu amigo de juventude, que se abraçaram chorando como se fossem irmãos. O encontro emocionou os clientes que aguardavam.

Ordener tirou seu avental e convidou para tomar uma cerveja para comemorar o encontro. Descemos até o Bar do Chope. Brindamos, entornamos algumas cervejas. De repente chegou a atendente, lembrando que o cliente ainda estava de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos pacientes clientes, remarcasse.

Terminamos o encontro por volta das três da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando, no violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…”

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