Basílica do Carmo

O topônimo Boa Vista surge entre nós em 1643, quando da construção pelo conde João Maurício de Nassau de sua casa de recreio, chamada inicialmente de Casa da Bela Vista, erguida em terreno por ele adquirido à Companhia das Índias Ocidentais, localizado na cabeceira da ponte sobre o Rio Capibaribe que ligava a cidade Maurícia ao continente.

O alcácer da Boa Vista, como o denominava Gaspar Barlaeus, era um “local aprazível, alegrado também por jardins e piscinas”.

Naquele remanso, descansava Nassau, rodeado pela vista das suas construções e longe da pátria e das terras de tantos condes e príncipes seus parentes, gozando da felicidade que achara no ultramar. Contemplava astros nunca vistos pela sua Alemanha; admirava a constância de um clima dulcíssimo e mostrava aversão à intempérie da zona temperada onde vivera. […] Enfim meditando, encerrava dentro do âmbito da Boa Vista o múltiplo benefício do céu, da terra e do ar, a República, o inimigo, os índios, os holandeses, as conveniências e proveitos das Províncias Unidas.

Como bem demonstra a gravura de Frans Post no livro daquele latinista (Amsterdã, 1647), o novo edifício, com seus quatro torreões e um elevado pavilhão central, com três janelas em cada uma das frentes, possuía magnífica visão do continente, funcionando como forte militar, em face da sua posição estratégica na cabeceira da ponte sobre o Capibaribe.

Com a expulsão dos holandeses, em 1654, foi a Casa da Boa Vista doada à ordem carmelita para que nela instalasse o hospício do Recife. Em carta dirigida ao príncipe regente, em 1674, comunicam os “religiosos moradores no convento do Arrecife de Pernambuco” que “passa de sete anos que estão moradores naquele lugar” e terem dado início à construção do seu convento e instalação de uma pequena comunidade “em terras do Arrecife”, tendo entre seus primeiros habitantes o frei Francisco Vidal de Negreiros, filho do mestre-de-campo André Vidal de Negreiros, então no governo da capitania de Pernambuco.

Para se fixarem em definitivo na povoação do Arrecife, tiveram esses carmelitas de enfrentar uma conturbada história de lutas com a Câmara de Olinda e com os seus próprios irmãos de ordem do Convento de Santo Antônio do Carmo; estes últimos, seguidores da Reforma Turônica, enquanto os do Recife permaneciam na vida religiosa contemplativa, sendo por isso chamados de “observantes”. Tais desavenças em muito contribuíram para o retardamento das obras de construção do Convento do Recife, continuamente suspensas tanto pelo governo da capitania quanto pela própria coroa portuguesa. O cerne das desavenças, porém, era bem outro e prendia-se aos conflitos entre a nobreza rural, que dominava a Câmara de Olinda, com a burguesia do Recife, os quais em 1710 vieram dar causa ao que depois se convencionou chamar de Guerra dos Mascates (1710).

Em 1679, como se queixavam da situação de insalubridade da Casa da Boa Vista, vieram receber os carmelitas do Recife, em 5 de maio daquele ano, uma área com 100 braças de terra de salgado, isto é, de terras alagadas pela maré alta, em torno do primitivo hospício, para nelas construir algumas oficinas e o seu quintal. Nas terras anteriormente doadas, já tinham os frades construído o seu primeiro convento, aproveitando grande parte da Casa da Boa Vista, com uma capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro e uma senzala.

Padeciam os frades de grande desconforto na primitiva Casa da Boa Vista, quando o capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos, senhor do Engenho São Francisco da Várzea, casado com D. Catarina Vidal de Negreiros, filha do governador André Vidal de Negreiros, veio em auxílio das obras do seu cunhado, frei Francisco Vidal de Negreiros. Inicialmente propunha-se o benfeitor a assumir todo o ônus de construção da capela-mor de uma nova igreja, a ser erguida nas proximidades da primitiva. Para isso comprometeu-se em escritura pública, de 18 de agosto de 1685, a construir às suas custas a capela-mor da nova igreja tendo por orago Nossa Senhora do Monte Carmelo, em troca do direito de ter sua sepultura naquele local, juntamente com sua mulher e seus herdeiros, bem como alguns sufrágios por sua alma. Para os serviços, foi contratado o capitão Antônio Fernandes de Mattos, construtor das mais importantes edificações do Recife no final do século XVII.

O túmulo do doador e de sua mulher, localizado na capela-mor ao lado do Evangelho, era assinalado por uma lápide, datada de 28 de agosto de 1703, que em 1898 veio a ser removida para o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.

Com o desaparecimento do primitivo convento, surgiram no seu local as ruas do Cano ou da Paz, Palma e Concórdia, passando esta área a ser denominada de Carmo Velho.

Informa José Antônio Gonsalves de Mello que, em 1696, onze ou doze anos do início das obras, a igreja estava com algum adiantamento, pois aos 24 de abril desse ano estavam concluídos os serviços da capela-mor e de parte da Capela do Santíssimo Sacramento, esta última, objeto de instrumento de doação em favor dos irmãos da recém-criada Ordem Terceira do Carmo:

A capela que está começada com todos os alicerces e parede da parte do Evangelho, vindo da capela-mor para o corpo da igreja com todas as mais terras em que está, sobre a horta do alferes Pascoal Coelho de Freitas para nela fazerem o consistório, sacristia, capela e altares e todas a mais terra que for necessária à dita irmandade e exercícios dela e sepulturas e no enquanto, por estar despovoado o lugar doado….¹

À frente dos trabalhos continuava Antônio Fernandes de Matos, que veio a falecer em 1701. As obras, porém, arrastaram-se até 1767, data inscrita em um medalhão, no seu frontispício, abaixo do nicho da padroeira. O templo possui três capelas e seis altares, cada um com arquitetura particular e distinta, com ornamentação de talha, e todos de branco e ouro.

O interior da basílica é de grande riqueza artística, com as colunas salomônicas da balaustrada torneadas em jacarandá, o mesmo acontecendo com as tribunas, as grades do coro, os altares laterais e o arco cruzeiro, que obedecem ao estilo D. João V.

A capela-mor profunda, em estilo rocaille, toda em talha e dourada com desenhos acânticos e nervuras, é obra de cerca de 1780, possuindo, desde o século XIX, uma abóbada ogival geminada, da altura da cornija da nave, com óculos abertos para o exterior, através dos quais penetram os raios do sol. O seu altar principal, totalmente revestido por talha dourada, é dominado pela imagem, em tamanho natural, da Virgem do Carmo, co-padroeira da cidade do Recife (1909), cercada por anjos e ladeada pelas imagens dos profetas Elias (com o jarro) e Eliseu (com uma espada e uma igreja). Imagem que, segundo a tradição, teria vindo de Portugal para Pernambuco anos antes da invasão holandesa (1630).

No coro superior, destaque para a estante e a imagem do Cristo Crucificado, em singular anatomia, bem como para o conjunto das imagens dos seis altares e das duas capelas laterais. Muito especialmente para as imagens de Nossa Senhora da Assunção (cercada por querubins esculpidos em sua base e pintados no painel de fundo) e São Domingos (ostentando notável movimento e panejamento barroco).

O teto possui um painel de autoria presumível a João de Deus e Sepúlveda, no qual aparece “Elias subindo aos céus no seu carro de fogo”, recuperado pelo restaurador José Ferrão Castelo Branco em 1973.

O seu frontispício, onde predominam singulares esculturas em arenito, é um dos mais belos do Recife, possuindo uma única e harmoniosa torre.

Vale também uma visita ao tesouro da igreja, onde se encontram o Relicário do Sagrado Coração, a Grande Custódia, em prata dourada, e as jóias da Virgem com sua coroa pesando seis quilos de ouro fino, incrustada com brilhantes, pérolas, rubis e outras pedrarias, obra da Ourivesaria Barreto, da Rua da Concórdia.

A entrada do convento destaca-se por sua rica moldura de cantaria, entalhada com brasões seiscentistas em alto-relevo, que antecede a sala da portaria, na qual se encontra a imagem do Cristo na Coluna, estando suas paredes revestidas por painéis de azulejos portugueses com cenas da paixão.

Na entrada da basílica, uma pia de água benta em mármore de Estremoz e duas enormes lápides no mesmo material, finamente trabalhadas, chamam a atenção. A lápide da direita é encimada por escudos e armas – do papa, da Ordem Carmelita, do Estado de Pernambuco e da cidade do Recife –, a da esquerda, traz na sua moldura elementos diversos. Ambas assinalam duas efemérides da maior importância para este templo recifense.

A primeira refere-se à data de 16 de julho de 1908, ocasião em que o papa Pio X (1903-1914), atendendo a pedido do povo do Recife, declara Nossa Senhora do Carmo “co-padroeira desta cidade”. Nesta ocasião, a sua igreja passou a gozar dos foros de agregada da basílica do Vaticano “e assim figuram suas próprias insígnias e armas sobre a porta principal do templo”. Em 1920, coube ao papa Benedito XV “honrar este templo dedicado à bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, com a dignidade e título de Basílica Menor, no dia 16 de julho de 1920”. A sagração solene, presidida pelo bispo Miguel de Lima Valverde, só veio a acontecer na festa da padroeira de 16 de julho de 1922.

A solenidade de coroação de Nossa Senhora do Carmo, ocorrida em 16 de julho de 1920, encontra-se documentada em magnífico painel pintado por Henrique Moser, no qual aparecem as figuras dos bispos celebrantes, D. Jerônimo Tomé da Silva e D. Sebastião Leme.

No Convento do Carmo viveu e está sepultado, em local não determinado, frei Joaquim do Amor Divino Caneca, militante da Revolução de 1817 e mártir da Confederação do Equador (1824). Nascido no Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796, substituindo o seu último nome pelo de Caneca. Ordenando-se em 1801, notabilizou-se pelos seus conhecimentos de Retórica e Geometria, Direito, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático. Foi membro da Academia do Paraíso, com participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em 6 de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde escrevia versos.

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após a dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das idéias liberais que viriam a ser propugnadas pela Confederação do Equador (1824). O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições.

A Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano promulgado em 2 de julho de 1824, logo veio a sofrer a repressão das tropas imperiais. Como seu principal ideólogo, frei Caneca foi preso e depois condenado à morte na forca, com sua execução marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825. Na prisão escreveu versos, despediu-se dos amigos e das suas filhas, marchando sereno para o patíbulo. O Cabido Diocesano negou-se a desautorar suas ordens e os carrascos abstiveram-se na execução das ordens. Diante de tal impasse foi a pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

O Convento do Carmo do Recife encontra-se também ligado à vida histórico-cultural da cidade, podendo ser chamado de a Casa das Muitas Histórias. Em seus salões foram instalados e funcionaram por algum tempo o primeiro Hospital Militar (1817), com a primeira aula de anatomia dirigida pelo oficial médico José Eustáquio Gomes; o Liceu Provincial, hoje Ginásio Pernambucano (1825); a Sociedade de Medicina de Pernambuco (1841); a Biblioteca Provincial (1852) e o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (1862).

No dia 16 de julho, feriado municipal no Recife, os devotos da Virgem do Carmelo comemoram com grande festa o dia da co-padroeira da cidade do Recife, geralmente antecedido de concorrido novenário. A devoção a Nossa Senhora do Carmo é uma constante na vida pernambucana, como bem se comprova em uma parte considerável da população recifense que ostenta no pescoço o seu escapulário, como nos faz recordar o poeta João Cabral de Melo Neto.

Que, se milagres não fazes
pelas terras desse céu,
este escritor recifense,
sem porquês, segue-te fiel.

O conjunto encontra-se inscrito como Monumento Nacional no livro das Belas Artes v. 1, sob o n.º 218, em 5 de outubro de 1938; Histórico v. 1, n.º 107, em 5 de outubro de 1938 (Processo n.º 148-T/38).

_____________________________________________________

¹ MELLO, José Antônio Gonsalves de. Um mascate e o Recife: a vida de Antônio Fernandes de Matos no período de 1671-1701. Prefácio de Ayrton Carvalho. 2 ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 142 p. (Coleção Recife; v. 9).

2 Comentários

Deixe o seu comentário!


© 2007 - 2018 Jornal da Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa